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quinta-feira, 18 de setembro de 2008

A propósito de Júlio da Silva Freire...


... E isto me traz mais uma vez à mente, como não poderia deixar de ser, o Júlio da Silva Freire, que eu penso ter sido uma das mais ilustres figuras do nosso Pombalinho de todos os tempos. É verdade que mal me lembro dele, porque era ainda muito miúdo quando ele faleceu. Mas lembro-me perfeitamente de ter ouvido dizer que ele foi o Maestro de uma banda musical que o Pombalinho teve.

Lembro-me também de uma aurora boreal vista no Pombalinho (teria eu 6 ou 7 anos) que deixou toda a gente assustada, até que o Júlio Freire (pai) explicou o que aquilo era, tranquilizando a população. Sei que a certa altura se dedicou, gratuitamente, a ensinar um grupo de camponeses, do qual o meu pai fez parte, a ler e a escrever. O meu pai só aprendeu a ler letra impressa e a fazer, com dificuldade, o nome dele, mas penso que o Júlio Freire ensinava a ler e a escrever. Penso é que os estudantes a certa altura se teriam visto na necessidade de deixar o ensino devido à chegada dos dias maiores, em que, trabalhando de sol a sol, chegavam a casa exaustos e precisados de ir para a cama o mais cedo possível, a fim de recuperarem forças para o dia seguinte.


... O Júlio da Silva Freire era ateu (ou seria agnóstico?) e que quando estava próximo do fim, de cama, teria dito: "valha-me aquele que dizem que é Deus".



terça-feira, 10 de junho de 2008

Um Gigante


Está ali naquela cama. É o último da esquerda, cama 10.
Nas partes descobertas - o rosto, as mãos e os pés - a sua pele mostra uma tonalidade achocolatada
Se lhe perguntam o que tem, mostra os pés inchados e fala no coração. Pés grandes, enormes. Coisa para calçado número 44 ou 45. O coração não é coisa que se possa ver, mas quem o conhece sabe que ele tem um coração que abarca o Mundo. Foi da Guarda Republicana. Saiu, porque, como dizia, não nascera para aquilo.

Viu morrer-lhe uma filha de 18 anos, a Carolina, e resistiu. Tinha mais filhos. Tinha mulher. E amigos!... Ainda era preciso viver. Viu morrer-lhe um filho de 24 anos, o João, e continuou a resistir. Viu adoecer-lhe a mulher, penar anos e anos, morrer. E resistiu. Os outros filhos davam-lhe uma razão para isso. E, enfim, os amigos.
Está ali naquela enfermaria, numa cama de ferro com lençóis a que falta alvura e uma colcha esfiapada. Uma enfermaria em que a claridade penetra a custo na superfície pouco branca das paredes e do tecto.

Quando terminou o serviço militar, foi para a Guarda Republicana. Mas não gostou daquela vida e voltou para a santa terrinha, para o campo, para a enxada, para o amanho da terra.
Ainda está vivo. Ainda resiste. Até ainda se levanta. Ou melhor, desdobra-se, desenrosca-se, multiplica-se. Por pouco não bate com a cabeça no tecto. Quase o mesmo arcaboiço de quando era um homem novo e são. Nem parece estar doente. A mesma boca e os mesmos dentes. Todos, e sãos. Nem parece ter setenta anos. Há cinco que estaria a viver da reforma, por inteiro, se se tivesse deixado ficar na Guarda Republicana.

-Estou deserto que isto acabe – diz.
Mas a sua voz não tem a ribombância do trovão, seu habitual timbre.
-A minha filha, coitada, com aquela doença, que a não deixa fazer nada; viu-se obrigada a tratar de me meter no Asilo. Mas só por isso, sei-o eu. Tivesse ela saúde, e eu não havia de acabar os meus dias num asilo.
Referia-se à segunda filha, a Rosalina, casada com o Mátempo, da Azinhaga, que toda a gente diz ser muito bom para ela, um santo. Um casal ainda tão jovem, e caíra-lhes aquela desgraça em cima.
-E o teu filho – lembra-lhe o visitante.
-O meu filho?... Ah... o meu filho... Não quer saber de mim. E o que eu fiz por ele!... É triste, esta vida.
-Mas há sempre os amigos... – riposta o visitante, procurando levar algum ânimo ao doente.
-Ah... Os amigos? Estive aqui dois meses antes de ir para o Asilo. Quando vim para o Asilo estive aqui outra vez.
Arrasta as palavras até se tornarem imperceptíveis. Cala-se, até ganhar novas forças.
-Estive mês e meio no Asilo, e agora já estou outra vez aqui na enfermaria há mais de quinze dias. Amigos!... Só quando podia andar a consolar os desgostos da sua vida com os meus desgostos. Só quando para me manifestarem a sua piedade não era preciso irem muito longe. Só quando os podia acompanhar à taverna ou mesmo na minha miséria ainda tinha alguma coisa para repartir com eles. Agora?... Amigos!... É triste, esta vida... É infame, esta pobreza... É selvagem, isto tudo... Amigos... Hospitais... Asilos...
Já nada o prende. É mesmo caso para dizer: quem o viu e quem o vê!
Já não resiste, propriamente. Subsiste.
Já não vive. Sobrevive.
Sobrevive com pastilhas, comprimidos e drageias.
Pastilhas para o coração. Drageias para urinar. Comprimidos para outra coisa qualquer. De tempos a tempos também uma injecção, graças, tudo, aos cuidados de um médico que visita os doentes de três em três dias. Isso e, naturalmente, a alimentação. Primeiro prato: arroz, sempre arroz, com caldo a saber a carne. Segundo prato: ora arroz, ora massa, muito raramente batatas, umas vezes com um pedaço de carne de carneiro, outras com uns fios de carne da mesma rês.

Está ali naquela enfermaria. Chama-se Augusto Anastácio... Um nome que não terá o privilégio de se eternizar. É um irmão, sem dúvida, mas não eterno, como aqueles cujos nomes figuram numa lápide à entrada do Hospital, este com um nome eterno mais que todos, porque de Cristo chamado.
E não terá (ele, o Augusto Anastácio) o nome na lápide do Hospital, porque não o ajudou a construir, nem a manter.
Rachou lenha; semeou, sachou, colheu e malhou ou meteu na alimentadora da debulhadora o feijão, o milho, o trigo; tratou das oliveiras e carregou com seiras cheias do bagaço a que foi extraído o azeite, nos lagares; cavou e pulverizou nas vinhas e fez o vinho nas adegas; pastou gado e esquartejou reses. Dos seus braços saiu tudo, enfim, quanto encheu os sacos dos irmãos eternos que desfilaram pelos cortejos de oferendas para o Hospital de Cristo. O mesmo que outros fazem agora para que não lhe falte ali o caldo de arroz com sabor a carneiro todos os dias ao almoça e ao jantar, nem o prato ora de arroz ora de massa, raramente de batatas, com uma amostra da mesma rês, alternadamente num naco ou desfiada, o que lhes dará o mérito de, mais tarde ou mais cedo, terem o seu nome inscrito na lápide afixada à entrada do Hospital.
Vêem-no ali?
Podia estar a receber uma reforma e ter, a troco dela, quem cuidasse dele nos dias que lhe restam de vida. Podia, porque foi soldado da Guarda Nacional Republicana. Podia, se não lhe faltasse o feitio para aquilo. Intrometer-se com este, intrometer-se com aquele, multar os pobres que andavam a fossar pela vida só porque uma farda lhe dava o direito a isso e um cavalo e uma espada o punham ao abrigo de desagravos, constituía para si um martírio constante.
Era assim... que fazer?!...
Sempre que tinha, por dever de ofício, de intervir com alguém, sentia-se mal.
Ele, que por uma justa causa era homem para os maiores cometimentos sem outra arma para a luta que não fossem os seus dotes naturais: um metro e noventa de altura, tronco largo, mãos sapudas e pés com lastro para se firmarem bem na terra. Dimensões de gigante que lhe emprestavam aos movimentos a aparência de retardados, com um simiesco baloiçar de braços e passadas de pato marreco.
   
Até certa altura foi um homem quase feliz, como quase todos os outros homens até que lhes não aconteça nada de especial na vida.
Cresceu atrás dos porcos e das ovelhas, passou aos trabalhos dos homens com 13 anos, vestiu o seu primeiro fato completo (calça, colete e jaqueta), de serrubeque, no dia em que foi à inspecção para o serviço militar. Foi à tropa, casou, vieram os filhos, etc., etc..
E passou pela Guarda Republicana. Mas não gostou. Porque queria ser senhor de si, não ter satisfações a dar a ninguém durante algumas horas por dia, e nos dias inteiros em que não tivesse trabalho ou fosse Domingo ou feriado. Porque queria ir para onde muito bem lhe apetecesse, quando muito bem lhe aprouvesse.
Por isso não quis nunca, também, ajustar-se ao ano. Nem hortelão, nem guarda de coisa nenhuma, nem maioral de nada. Nem capataz, nem abegão, por muitas honras, e às vezes proveito, que tais cargos costumavam trazer.
Está ali, naquela cama de hospital. Um herói sem estátua, sem o nome em qualquer lápide; um herói que, como tantos outros seus iguais, nunca constará de qualquer efeméride.


Nota - Infelizmente, algumas vezes me esqueci de datar o que ia escrevendo. E foi o que aconteceu neste caso. E agora, ao “resgatar” dos meus arquivos, tantos anos passados, este apontamento suscitado por uma visita que fiz, com o meu pai, ao Augusto Anastácio, estava ele então internado no Hospital de Santarém, já não posso sequer precisar se isso ocorreu em 1964 ou em 1977, as duas primeiras vezes (com um intervalo, por conseguinte, de 13 anos) em que estive em Portugal, depois de ter vindo para Moçambique. Considerando, porém, vários aspectos, como, por exemplo, a idade com que, mais ou menos, faleceram a Carolina e o João Anastácio e a idade que eu então tinha, sou levado a supor que o Augusto Anastácio seria um bocado mais velho que o meu pai. Daí, e também dada a referência à sua idade nesta minha narrativa como sendo então de 70 anos, ser também levado a pensar que a mencionada visita teria ocorrido em 1964. Terá sido?...


Maputo, 25 de Maio de 2008



quarta-feira, 21 de maio de 2008

Dá alguma coisa ao necessitado?


Tinha eu entre 9 e 12 anos. Finais, portanto, da década de trinta e princípios da década de quarenta. Numa população de cerca de mil habitantes que a minha aldeia teria nessa altura, a maioria era, como em qualquer outro lado, gente pobre. Os ricos eram meia dúzia de famílias. Mais meia dúzia de famílias, os remediados. Entre os pobres havia também uma certa diferenciação. Verificava-se ela entre os que tinham um ofício e os que o não tinham, porque não se chamava ofício, nem chama, ainda hoje, ao manejo da enxada, da pá, da forquilha, do machado, do serrote, da tesoura de poda, etc. Ofício tinham os pedreiros, carpinteiros, serralheiros, geralmente trabalhando por conta de outros e já com as oito horas de trabalho conquistadas, e os alfaiates, barbeiros, sapateiros, ferradores, ferreiros, tanoeiros, marceneiros, em geral com o seu estabelecimento próprio e trabalhando por encomenda. Estes não tinham horário de trabalho. Trabalhavam mais ou menos horas, se necessário até aos Domingos, consoante as encomendas. Os barbeiros, aliás, tinham a barbearia aberta aos Domingos, porque esse era um dos dias em que tinham mais clientes, por ser o dia de descanso dos outros. Para os trabalhadores rurais, ou agricultores, como também eram tratados os que trabalhavam na agricultura, o seu horário era de sol a sol, o que significa que iniciavam a jornada de trabalho quando o Sol despontava e só despegavam com o Sol já escondido (Sol posto). Fosse qual fosse a distância a que ficasse o local de trabalho. Para descanso e refeições havia uma hora, das 10 às 11 (almoço), enquanto que para o jantar havia 1 hora (das 14 às 15) durante uma parte do ano (nos dias mais pequenos) e 2 horas (das 14 às 16) durante o resto do ano. Como antes de sair para o trabalho toda a gente tomava a primeira refeição (para a maior parte, e a maior parte das vezes, constituída por café de cevada e chicória com migas) e à noite, no regresso a casa, se tomava mais uma refeição (a ceia), as refeições eram, por conseguinte, quatro por dia.

Tudo isto para chegar aos mais pobres de entre os pobres, aqueles que, além dos salários de miséria, viam as suas dificuldades acrescidas por doenças, particularmente pela tuberculose. Procedia-se então a peditórios de porta a porta, o que tinha de ser feito, já se vê, aos Domingos ou feriados. Para isso era preciso que alguém se disponibilizasse para o efeito. Normalmente duas pessoas. Uma que pedia, outra que escrevia o nome de cada contribuinte e a respectiva dádiva. Sempre aparecia alguém, e muitas vezes eram os próprios que iam de porta em porta, que, para ajudar um companheiro, tomavam a iniciativa.

O Augusto Anastácio era um desses. Ele e os meus pais eram compadres, porque os meus pais haviam sido os padrinhos de duas filhas dele. Eu também o tratava por compadre. Pois bem, de cada vez que o Augusto Anastácio, analfabeto, como a quase totalidade dos camponeses com mais de vinte e cinco ou trinta anos naquela altura (e ele já tinha mais de quarenta) – de cada vez que o Augusto Anastácio, dizia eu, pensava fazer um peditório para algum companheiro em maiores dificuldades, logo pensava em mim para o acompanhar, a fim de registar os que davam e quanto davam.

E lá íamos então, eu e ele, bater a todas as portas:

- Dá alguma coisa ao necessitado?

- Quem é o necessitado?
Dada a resposta, lá vinha, ou não vinha, a contribuição. Mas eram poucos os que não davam. Nalguns casos, por simplesmente não terem mesmo nada para dar. Com dádiva ou sem ela, havia sempre uma palavra de quem quer que atendesse. Em geral de consternação pela situação do conterrâneo caído em desgraça. Em geral... porque também acontecia ouvirem-se comentários depreciativos, críticas. Ou porque o necessitado ia gastá-lo em vinho, ou porque tinha chegado ao que chegara por falta de cabeça, ou porque mais necessitado sou eu, etc.

- Dá alguma coisa ao necessitado?

E lá íamos recolhendo cinquenta centavos daqui, um escudo dali, umas moeditas de vinte e cinco tostões ou de cinco escudos às portas dos ricos e dos remediados. Era num tempo em que a jorna do camponês variava entre uns seis ou sete escudos, nos dias mais pequenos (Outono, Inverno) e dez, onze ou doze nos dias maiores.

Lembro-me que, pelo menos uma vez, fomos também ao Reguengo do Alviela, que era a terra da minha mãe, um pequeno lugar a cerca de dois quilómetros do Pombalinho. Por atalhos. Por estrada era um bocado mais. Suponho que o fizemos porque o necessitado desse dia, embora morasse no Pombalinho, era do Reguengo.

Completado o peditório, lá nos dirigíamos para casa do necessitado, onde apresentávamos o valor recebido e a relação com os nomes dos que haviam contribuído, e onde se petiscava qualquer coisa, com um copito de vinho a acompanhar. Petisco e copito comprados, pelo menos na maior parte dos casos, depois de chegarmos, já com dinheiro do peditório.


-Dá alguma coisa ao necessitado?


sábado, 19 de abril de 2008

Saramagos e cangarrinhas


Do saramago, que consta nos dicionários dos vários autores e editoras que consultei, dizem os mesmos, resumindo, que se trata de uma planta comestível; e da cangarinha, que não consta de todos aqueles dicionários, que se trata de um cardo frequente em Portugal, também conhecido por cardo-de-ouro.

Ora, no Pombalinho, tão comestível era o saramago como a cangarinha. Isto, se cangarinha, segundo os dicionários, é a mesma planta, e tudo me leva a crer que sim, a que no Pombalinho, provavelmente por corruptela, chamávamos cagarrinha.   certo é que tanto um como a outra vinham em boa altura, porque vinham no tempo em que o dinheiro era ainda mais escasso que no resto do ano. Ou seja: vinham no inverno, quando, não só por causa das cheias, mas também por essa ser, já de si, uma época em que a actividade agrícola abrandava, muitos camponeses às vezes ficavam semanas sem trabalho.

Deitava-se então mão ao saramago e à cangarinha, que despontavam sobretudo nas terras semeadas de trigo. Os proprietários não se opunham. Tratando-se de ervas daninhas, até lhes dava jeito. Já ficava menos erva para mondar, mais um trabalho que eu fiz, tinha doze ou treze anos, metido num rancho de mulheres. Hoje, com os herbicidas, já não há mondas, naturalmente. E saramagos? E cangarinhas? Ainda haverá? No prato dos pobres, pelo menos, o mais certo é já não haver. Pobres que, de resto, e falando dos da minha terra em particular, são hoje, e ainda bem que assim é, muito menos pobres, Quanto mais não seja devido à assistência social de que actualmente fruem e que naqueles tempos, com excepção de consulta médica duas ou três vezes por semana, na Casa do Povo, para os sócios e familiares de si dependentes, era igual a zero. Note-se que como sócios da Casa do Povo só eram admitidos os trabalhadores rurais, terminologia oficial, ao tempo, para os mais vulgarmente chamados trabalhadores do campo, e que a quota mensal era de 3$00 (três escudos). Significa isso que os operários não eram aceites como sócios, não beneficiando, por conseguinte, da referida assistência médica.

Os saramagos substituíam as couves e os nabos. Muito simples, portanto. As cangarinhas não substituíam nada, acho eu. Como dizem os dicionários, trata-se de um cardo. E os cardos têm espinhos. Mesmo sendo de ouro, como, segundo ainda os dicionários, se chama a este. Por isso, ripava-se a nervura central das folhas, a qual era depois cortada em bocadinhos e cozida com feijão branco e chispe ou orelha de porco. Fazia um belo prato. Só que um bocado mais caro, por causa da carne. Por isso, e creio que também por ser precisa muita cangarinha para uma só refeição, comia-se muito menos vezes cangarinhas que saramagos.

Falando em saramagos, não pode deixar de vir à baila a história do José Saramago. Como ele próprio tem dado a conhecer, Saramago era alcunha da família paterna, tendo passado, nele, por lapso do empregado do registo civil que tratou do seu registo de nascimento, a apelido. Os restantes Saramagos da Azinhaga continuaram a sê-lo por alcunha e, muito provavelmente, a passarem a alcunha aos filhos.


O mais interessante, porém, e por isso este intróito a propósito da família Saramago, é que também havia, na Azinhaga, pelo menos um Cagarrinha (neste caso mantenho a corruptela, já que era assim mesmo que chamávamos àquele companheiro). Sim, companheiro, o Cagarrinha, tanto como um dos Saramagos, o João, salvo erro. Companheiros, umas vezes, e outras adversários. Com efeito, houve um tempo em que jogámos os três na mesma equipa de futebol, a da Azinhaga, num campeonato da FNAT ( Fundação Nacional para a Alegria no Trabalho). Como o Pombalinho não tinha uma equipa de futebol devidamente organizada e oficializada, e por isso não estava em condições de entrar fosse em que campeonato fosse, quando a Azinhaga entrou no tal campeonato da FNAT e o Augusto Souto Barreiros me convidou para ir jogar pela Azinhaga, eu fui. Eu, mais os irmãos António e José Leal, o António Maria Duarte, filho da Isaura (havia outro António Maria Duarte, dois ou três anos mais novo e filho do Izidoro Duarte “Sapateiro”) e o Manuel “Barão” (Manuel António Correia Bento). Mas muito mais vezes fomos adversários. Fomo-lo nos jogos que desde adolescentes combinávamos, os do Pombalinho e os da Azinhaga, e em que eu jogava pela minha terra e eles pela sua. E que, sem balizas a sério e sem árbitro nem juízes de linha, raramente chegavam ao fim, por desentendimento nas faltas e na validação dos golos.


quarta-feira, 16 de abril de 2008

A casa, o gado e a criação


As casas das famílias camponesas eram casas térreas, geralmente com duas divisões: cozinha e casa de fora. Uma ou outra tinha a casa de fora dividida, dispondo, assim, também de um quarto. Algumas famílias tinham casa própria; as restantes viviam em casa alugada. E toda a casa tinha o seu quintal, no qual se criavam galinhas e coelhos (mais coelhas que coelhos), um porco ou uma porca, às vezes um carneiro ou uma ovelha, e se tinha uma cabra.
Com as galinhas havia sempre um galo, pelo menos, para as galar. E com as coelhas, um coelho, para as cobrir. O objectivo era a produção de ovos e de carne, de que uma parte se consumia em casa: os ovos sempre que os houvesse e a carne nos dias de rancho melhorado (Domingos e feriados). A outra parte, menor no caso dos ovos e maior no caso de galinhas e coelhos, era vendida aos compradores que de carroça percorriam as aldeias a comprar tudo isso, para, pelo menos no caso do Pombalinho e aldeias próximas, abastecerem o mercado de Lisboa, para onde tudo era despachado em canastras, via caminhos de ferro. Tanto no caso dos galináceos como no dos coelhos, de cada nova ninhada os machos eram vendidos ou consumidos em casa logo que atingissem tamanho para isso, visto não darem qualquer outro rendimento. No caso dos coelhos fazia-se ainda algum dinheiro com as peles, vendidas aos mesmos compradores ou a ferros-velhos também ambulantes.

No Pombalinho havia um desses compradores, o Francisco Duarte, por todos mais conhecido por Chico Pardal, que também era barbeiro e bom actor cómico e que uma vez por semana, em dia certo, dava a volta à aldeia fazendo o seu pregão. Mas também por ali passavam, de vez em quando, não sei se igualmente em dias certos, um comprador de Vale de Figueira e outro do Sobral (São Vicente do Paul). Quanto a ferros-velhos, passou durante algum tempo pelo Pombalinho, de bicicleta, um de Alcorochel (Torres Novas), chamado José Moita. Deste lembro-me o nome porque mais tarde trabalhámos juntos no forno do Alviela.

Falando de galos, também posso falar de capões, que são galos castrados, ou melhor, capados, que era o termo que, naquele tempo e por aqueles lugares, eu e toda a gente conhecia e usava. Não sei se ainda se capam galos em algum lugar do mundo, mas é coisa que já se fez. Era eu miúdo, vi um capão (um galo enorme!) no Reguengo do Alviela e conheci o capador, então já um velhote. Quanto ao porco, de tempos a tempos passava alguém pela aldeia a vender bácoros. Comprava-se um, que ia para a pocilga e, passadas algumas semanas, mandava-se capar, para melhor encorpar. Com os testículos, bem assados e devidamente temperados, fazia-se um belo pitéu.

Diz-se que o porco come de tudo. Se assim não é, muito longe disso não andará. A esses porcos criados em casa dava-se, consoante a sua fase de crescimento e a época do ano, hortaliça e algumas plantas silvestres, cozidas e misturadas com farelos, bolota, abóbora, bagaço (e já disse que bagaço, no Pombalinho, eram os resíduos da azeitona) e milho. Restos de comida é que não era muito provável dar-lhes, pela simples razão de que seria mais difícil haver sobras de comida do que passar um camelo (ou será mesmo uma corda, como pretendem os exegetas?) pelo cu duma agulha. Quanto ao resto, a hortaliça também não seria muita, porque era preciso comprá-la; os farelos eram os que se obtinham ao peneirar a farinha para as coseduras semanais; as plantas silvestres e a bolota iam apanhar-se onde se soubesse que existiam; o bagaço, relativamente barato, era comprado à porta (a vendedores ambulantes), nalgumas lojas (na do Francisco Borges, por exemplo), ou directamente aos donos dos lagares, que o conservavam em grandes depósitos escavados no chão; a abóbora, aliás da espécie chamada porqueira, e o milho vinham das searas, conforme já foi dito. E dito foi também, na mesma altura, que o milho era dado ao porco quando a sua matança já estava para breve, por ser o que melhor o engordava e, creio eu, também porque dava melhor sabor à carne, assim se juntando o útil ao agradável.

A matança poucos a podiam fazer em casa, para meterem a carne na salgadeira e pendurarem os enchidos no fumeiro. A maior parte tinha de vender o bicho, para liquidar ou pelo menos amortizar a dívida na mercearia. Se a mercearia de onde cada família se abastecia, e onde, portanto, teria a dívida, também vendia carne de porco, era para aí que o animal normalmente ia, vendido à arroba (15 quilos). Se não, ia para outro lado qualquer, mas o dinheiro da sua venda tinha que ir, no todo ou em parte – uma boa parte – para a mercearia em que se tinha a dívida. Caso se quisesse, naturalmente, continuar a poder comprar fiado, na mesma ou noutra qualquer mercearia. Porque numa aldeia tudo se sabe. E sabendo-se, a respeito de alguém, que é caloteiro, o mais certo é acabarem-se-lhe os fiados.
Havia, de resto, famílias nessa situação. Por falta de orientação do chefe da família (por exemplo, ir este frequentemente para a taverna para beber uns copos ou para o jogo do chinquilho ou da bisca, o que também ia dar aos copos, ora a perder, ora a ganhar, e estava quase sempre associado ao hábito do cigarro); por falta de saúde; por falta de trabalho, coisa que podia agravar-se, neste último caso, se o chefe da família tivesse fama de calão. De resto, o mais certo era essas famílias nem porco criarem, por não conseguirem juntar o dinheiro para comprar o bácoro.

Uma cabra, só alguma das famílias que não criava porcos poderia não a ter também, e pelo mesmo motivo. A cabra normalmente comprava-se só uma vez, ainda pequena, também. Era a primeira que se comprava, depois de se constituir família. Acabada de criar, conservava-se, porque a finalidade era obter dela o leite, especialmente para a alimentação das crianças.
Quando chegava o cio, pedia-se a alguém que tivesse um bode, que é como quem diz, a algum lavrador que tivesse rebanho de cabras, para deixar levar a cabra ao seu bode, para a cobrição. Nascidas as crias, estas eram vendidas, geralmente para os talhos da terra. Só quando a primeira cabra já tivesse uns anos se ficava com uma das suas crias, vendendo-se então a mãe.

Um borrego comprava-se depois de marcada a data do casamento de um filho ou de uma filha, coisa habitualmente feita com alguns meses de antecedência, para criar e depois matar para a boda.
Ruminantes e roedores são herbívoros, como se sabe. O que significa que para se alimentar esta bicharada em casa era preciso ir-se à procura de erva e de rama ao campo, quase sempre furtivamente, porque tudo tem dono, e dono só dá quando colhe algum benefício do que dá. Era o caso da desponta do trigo. Havia searas a que convinha despontar o trigo em certa fase do seu crescimento. Não sei porquê, mas suponho que por se apresentar com um crescimento excessivo devido a condições climatéricas demasiado favoráveis. Então os donos tornavam público que quem quisesse ir despontar o trigo na sua seara situada em tal ou tal propriedade podia fazê-lo. Não faltava quem aproveitasse, exactamente para dar aos herbívoros que tinha em casa. E, assim, os proprietários evitavam pagar a quem fizesse o serviço. Lá diz a vox populi: viver não custa; o que custa é saber viver.

Fora isso, que era muito pouco, porque a bicharada tinha de comer todos os dias, pegava-se numa saca e numa foice, para a erva, ou numa corda e num serrote, para a rama, e partia-se para onde parecesse que melhor se poderia conseguir encher a saca ou fazer o molho. Este tornava-se um bocado mais difícil de fazer, porque era preciso trepar às árvores e serrar os ramos, salvo quando se tratasse da rama das oliveiras, porque, destas, o que o gado comia bem eram os rebentos, tenrinhos, nascidos na base dos troncos. As outras árvores cuja rama o gado consumia, e a que tinha mesmo de trepar-se para a colher, eram o choupo, o freixo e o salgueiro, abundantes na região.


Dada a dificuldade para as mulheres em subirem às árvores, maior do que para os homens, como facilmente se compreende, quanto mais não seja porque as mulheres não usavam calças e muitas delas nem cuecas tinha (está a ver-se o embaraço, não?), havia homens que se davam ao cuidado de providenciarem eles pela rama sempre que possível, chegando a irem buscá-la ainda antes de saírem para o trabalho, no qual, como já foi dito, tinha de pegar-se ao nascer do Sol. Outras vezes, era depois da despega – depois já do sol-posto, portanto - que ainda se metiam por algum arvoredo que ficasse no caminho, para cortarem uns ramos e carregá-los para casa.


terça-feira, 25 de março de 2008

Trabalho na Adega


E também trabalhei numa adega, em 1949, no ano imediatamente anterior, portanto, ao do meu alistamento no serviço militar.  Foi na Adega Nova, a maior do Pombalinho. Era a adega das Meiras, de Alpiarça. Tinham uma grande vinha no Reguengo do Alviela e as uvas eram transportadas pelo José Leal, na sua camioneta de aluguer, da vinha para a adega. Passava pela rua em que eu morei até aos 16 ou 17 anos (Rua Carolina Infante da Câmara) e nunca vi aquelas uvas terem sido transportadas de outra maneira.

Quando era miúdo, algumas vezes roubei uvas da camioneta, com outros miúdos. Deve, com certeza, ter sido uma prática de todas as gerações de miúdos das proximidades. Aproveitávamos uma curva muito apertada que a camioneta tinha que dar ao entrar no Pombalinho, carregada, e duas acácias plantadas ali mesmo à beira da curva, atrás das quais nos escondíamos à espera que a camioneta nela entrasse. Corríamos então para a camioneta, pela parte de trás, trepávamos, agarrados aos taipais e, com os pés em cima do pára-choques, deitávamos as mãos aos cachos que enchiam, até bem ao cimo, dois grandes recipientes metálicos (tinas) ajustados às dimensões da carroçaria, e toca a pirarmo-nos.

A vindima das Meiras levava cerca de um mês, feita por um rancho de uma trintena de raparigas. E um rancho de outros tantos homens (mais homem, menos homem) levava o mesmo tempo a fazer vinho na Adega Nova. O que quer dizer que pisei muita uva; fiz muita força agarrado às alavancas das prensas para se espremer até à última gota o mosto que as uvas ainda tinham para deitar; carreguei aos ombros muito cesto bem cheio de engaço, e bem pesado, dos patamares para depósitos cavados no chão, de onde haveria de ser depois levado para o alambique, para dele se extrair a boa bagaceira.

Além do vinho, nas adegas também se fazia sempre, e continua a fazer, pelo que sei, alguma água-pé, bebida de baixo teor alcoólico cujas pipas se abrem pelo São Martinho, em Novembro, consumindo-se a água-pé sobretudo no inverno, quando, fresquinha, e ao ser servida como deve ser, se vêem bolhinhas a subir por ela acima. Agora, que eu sei o que é champanhe, não me parece descabido chamar à água-pé o champanhe dos pobres.
Para fazer a água-pé, espalha-se no patamar, antes de ser exprimido até ao fim, o engaço que esteja a ser prensado, espalha-se-lhe alguma água por cima, mistura-se bem, e volta a ser prensado.
Saiba-se que, tanto na adega como no lagar, o horário de trabalho não era o habitual de sol a sol. Pela especificidade dos procedimentos inerentes ao fabrico do vinho e do azeite, tinha normalmente de entrar-se a trabalhar pela noite dentro. Mas o salário era o ajustado no início, contando-se já com essa especificidade. Quer dizer, não havia horas extraordinárias.

Num dicionário consultado (“Dicionários Editora da Língua Portuguesa”, da Porto Editora Multimédia), adega é a “parte de uma casa em que se guarda o vinho ou o azeite e outras provisões”, e lagar é, numa das suas acepções, “casa com aparelhagem para se fazer vinho ou azeite”, ou seja, adega e lagar são igualmente aplicáveis no que diz respeito ao vinho e ao azeite. 
Sucede o mesmo em relação a bagaço (“resíduo de alguns frutos, caules ou colmos, depois de pisados e espremidos, como o de uva, o de azeitona, e de cana-de-açúcar, etc.”), mas já em relação a engaço, uma das suas acepções, aquela que para aqui nos interessa, o define como “parte que fica do cacho de uvas depois de esbagoado”, se bem que no mesmo dicionário bagaceira tenha como definição “aguardente do bagaço de uva” (o sublinhado é meu). Noutros dicionários consultados, não encontrei diferenças dignas de nota.


Pois bem, no Pombalinho, adega é a casa onde se faz e se guarda o vinho; lagar é - embora, pelas razões atrás aduzidas, hoje certamente já só como conceito - a casa onde se faz e se guarda o azeite; bagaço são os resíduos da azeitona, e engaço os resíduos dos cachos de uvas. O que leva a uma conclusão: é a sabedoria do povo a fazer uso da semântica, para claramente se entender.


quarta-feira, 19 de março de 2008

Os Quintais


Toda a casa tinha (e continua ter, certamente) o seu quintal. Maiores uns, com espaço até para um bocadinho de horta, mais pequenos outros, com espaço apenas, e nalguns casos apertado, para a capoeira, para a coelheira, para a pocilga e para o curral e, ainda, para a estrumeira. Também havia quintais com poço. Com poço e com tanque, para lavar a roupa e para regar a horta, caso a houvesse. E quem diz a horta, diz as flores, em canteiros ou em vasos. Em vasos, quase não havia quem não tivesse umas florinhas. Em canteiros, era raro. Só alguém como o meu pai, que nasceu para jardineiro, com certeza. Coisa que, no entanto, e profissionalmente falando, nunca foi. Onde quer que morássemos (e mudámos de casa várias vezes), todo o bocadinho que desse para isso era por ele aproveitado para plantar flores. Mas disso falarei pormenorizadamente num capítulo que dedicarei à família.

A estrumeira era para onde ia todo o esterco feito pela gado e para onde se despejavam os penicos ou directamente se faziam as necessidades fisiológicas, porque casa de banho era coisa que as habitações dos camponeses não tinham. Da limpeza das camas do gado também os homens (maridos e filhos) é que geralmente se ocupavam. O esterco era usado, naturalmente, para estrumar a terra, sendo duas as hipóteses do destino a dar-lhe. Ou usá-lo em sementeira própria, ou vendê-lo. 

O uso em sementeira própria acontecia quando algum proprietário cedia terra a algumas famílias para nela semearem batatas. E como, salvo erro, o proprietário não ficava com batatas nenhumas, julgo que a concessão era feita a troco, precisamente, de uma boa estrumadela – uma estrumadela cujo efeito perdurasse para a utilização que da mesma terra o dono a seguir fizesse. Não era isso, porém, coisa muito frequente nem feita em grandes proporções. Se bem me lembro, só dois ou três pequenos lavradores faziam essa concessão de terras para a sementeira de batatas. Mas que era um bom meio para algumas famílias ficarem abastecidas de batatas por algum tempo, isso era. Resta dizer que estrumar, cavar a terra, semear as batatas e depois arrancá-las era trabalho para toda a família a um domingo ou em dia feriado, que eram os dias chamados de descanso. Uma ou duas sachadelas, feitas em tempo oportuno e quando a disponibilidade o permitisse, para que a erva não prejudicasse o crescimento das batateiras, isso também ficava ao cuidado da mulher.

Quando o esterco era vendido, era-o à carroçada, normalmente também a pequenos lavradores ou a rendeiros de terras, para sementeiras diversas (de favas, por exemplo) ou para hortas.


quarta-feira, 12 de março de 2008

Outros afazeres da Mulher casada!


Começo por onde acabei – pelo milho.
O milho, em geral amarelo e obtido conforme acabei de descrever, destinava-se a ser transformado em farinha, e esta em pão, salvo uns punhados que uma vez por outra eram atirados aos galináceos e uma quantidade maior destinada à engorda do porco ao aproximar-se a matança.
Para a transformação do milho em farinha, ocorriam duas situações, o que se devia ao facto de não haver no Pombalinho, apesar de terra de tanto milho, uma única moagem. Já teria havido, certamente, pois que havia na aldeia uma construção antiga, de dois pisos, servindo então de celeiro e de adega, conhecida por “a moagem”. Por outro lado, lembro-me de ouvir dizer que o Joaquim Gonçalves Ferreira, pessoa de quem espero voltar a falar, tivera uma moagem na parte do edifício, grande e também de dois pisos, onde o que eu sempre conheci foi a Casa do Povo.

A moagem então mais próxima, com a sua mó movida por uma azenha implantada na margem direita do rio Alviela, ficava em São Vicente do Paul, à beira da estrada e próxima da igreja e do cemitério, situados do outro lado do rio e da ponte.
Para a moedura do milho, havia então duas situações: alturas em que o moleiro de São Vicente do Paul vinha ao Pombalinho, numa carroça, recolher o milho e trocá-lo por farinha, e outras em que ele não aparecia e tinham as mulheres que levar o milho à moagem, carregando-o à cabeça. Juntavam-se sempre, para isso, duas ou três vizinhas que calcorreavam, por atalhos, normalmente descalças e muitas vezes fazendo-se acompanhar pelos filhos pequenos (foi assim que eu algumas vezes fiz esse percurso), os 5 ou 6 quilómetros que separavam as duas povoações.


A cozedura do pão (pão de milho, a substancial broa a que no Pombalinho ninguém chamava assim) era uma operação semanal. Pelo conhecimento que a experiência dá, cada dona de casa amassava num alguidar de barro a quantidade de farinha necessária para a fornada da semana, à qual misturava uma porção de farinha de centeio e o bocado de massa da amassadura anterior deixado a fermentar para o efeito. Cobria-se então o alguidar com um cobertor para que a massa levedasse mais depressa. Depois, passado o tempo calculado necessário para o efeito e a fim de precisar o momento de deitar as mãos à tigela apropriada e começar a tender, a padeira ia espreitando a massa, disso dependendo também a determinação do momento próprio para se pôr o forno a aquecer.


terça-feira, 4 de março de 2008

A Lenha


A saga das mulheres e da cachopada continua. Já falei de como era angariada uma parte do combustível para as necessidades caseiras: as vides. Mas as vides, além de arderem depressa, eram uma diminuta fracção do combustível necessário para um ano inteiro. Pelo que tinha de se recorrer a outros meios para arranjar o resto. Quando as finanças o permitiam, e fazia-se por isso, comprava-se lenha extraída das oliveiras por altura da destronca. E aqui falo de destronca, não de limpeza.

Com efeito, tendo em vista manter a ramagem viçosa e boa a produção, em cada período de cinco anos havia esses dois tipos de tratamento às oliveiras.  O processo obedecia ao seguinte esquema:
Ao quinto ano de cada ciclo, as oliveiras eram deixadas apenas com algumas pernadas, pelo que a principal ferramenta utilizada na operação era o serrote. No ano seguinte, a produção era quase nula e apanhada à mão (ripada), para que os ramos novos não sofressem danos. E depois da colheita fazia-se então uma limpeza: um desbaste dos ramos, de maneira a deixá-los formando uma copa tanto quanto possível circular, em forma de cálice, nisso se fazendo valer a perícia do operador, que nesse caso usava muito mais a tesoura de poda que o serrote. No ano seguinte, a azeitona, já em maior quantidade, mas com uma produção ainda escassa, voltava a ser ripada. Até nova destronca, a azeitona, com a produção sempre em crescendo, se bem que dependente das condições atmosféricas de cada ano, passava geralmente a ser varejada.

Como os olivais eram muitos e cada um dos grandes proprietários possuía vários, naturalmente que eles próprios predispunham as coisas para que as destroncas se intercalassem, por forma a poderem obter uma colheita equilibrada todos os anos. O que significa que também todos os anos havia lenha de oliveira à venda.  E, portanto, quem o podia fazer, aí ia buscar, comprando-a, como já disse, uma carrada, pelo menos. Porque nem todos podiam. Assim como havia um ou outro que podia comprar mais. E comprava. Mesmo entre os mais pobres, há uns mais pobres que outros. Evidentemente, como diria o Manuel Cameiro, avô materno de um dos capitães da Revolução dos Cravos (o Costa Brás) e proprietário que, numa escala de três níveis – pequenos, médios e grandes – classificarei de pequeno. Donde lhe veio a aprendizagem do termo, nada usual naquele meio e naquele tempo, não sei. O que sei é que ele o usava por tudo e por nada e que, por causa disso, o pessoal às vezes o parodiava.

Voltando à lenha, resta dizer que as vides e a carrada de lenha de oliveira, quando comprada, não chegavam para as encomendas, como sói dizer-se (perdõe-se-me o arcaismo), nem coisa que se parecesse. De onde... a necessidade de roubar (Que palavra feia!) o resto. E que era tarefa (mais uma...) sobretudo para as mulheres. Onde se pudesse deitar a mão a uns gravetos, a umas raízes secas (no mato, que ficava para lá da Linha do Norte, pelo menos dois quilómetros andados), a umas cavacas, para aí se caminhava, de serrote ou sacho e de corda ou saca, tão disfarçadamente quanto possível e evitando maus encontros. Era um jogo constante do gato e do rato. E a minha mãe não se livrou de ter também sido multada uma vez por andar à lenha, por sinal na Requeixada.  Se a expedição corria bem, era vê-las no regresso (juntavam-se sempre duas ou três vizinhas para a jornada), com o molho ou a sacada à cabeça, usando a sogra de permeio, para melhor equilibrar a carga e para evitar o contacto de coisas duras com o crânio.


As cavacas, eram mais os homens que iam à sua procura, coisa que faziam especialmente no inverno, em dias sem trabalho. E para isso a ferramenta adequada era uma sega, ferramenta grossa, de ferro, utilizada especialmente para abrir buracos em chão duro ou pedregoso. Numa terra de tanta oliveira, era, naturalmente, nos troncos já carcomidos das oliveiras mais velhas que se tentava arrancar as cavacas, metendo a sega pelos interstícios. O que exigia força. E daí que os homens fossem mais dotados para isso. Algumas vezes eu vi o meu pai sair para ver se trazia umas cavacas, que bom jeito faziam para a fritura dos tradicionais velhós (assim se chamava no Pombalinho às filhós) e coscorões, na noite de Natal. 



terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Cuidar do marido, dos filhos e da casa!


Dizia eu (pág. 2) que, no Pombalinho, a mulher casada cuidava do marido, dos filhos, da casa e do mais que se verá. Pois bem, o mais que se verá, já vimos... E cuidar do marido (além dos específicos deveres de esposa) e dos filhos, assim como de si própria e da casa, era, naturalmente, preparar a comida, tratar da roupa e manter a casa limpa e arrumada.

A comida dos pombalinhenses tinha por base uma sopa grossa, de couves, e às vezes nabos, com feijão branco e azeite, produtos abundantes na região. Os nabos consumiam-se mais em determinada época do ano, uma época em que o Veiga semeava no Mouchão, do outro lado do Tejo, grandes nabais, e vendia depois cada braçada de nabos (a medida era um baraço dos que se usavam para atar os molhos de trigo e cuja bitola era exactamente a distância entre as duas mãos, com os braços estendidos), com as suas magníficas cabeças, a cinco tostões ($50) a braçada. E, claro, lá iam as mulheres, às vezes acompanhadas por algum filhote (eu lembro-me de ter acompanhado a minha mãe), caminhando dois ou três quilómetros para cada lado, com a travessia do Tejo feita pelos barqueiros que o Veiga ali mantinha, e carregando, no regresso, os nabos à cabeça.

Durante a semana, era feita diariamente uma panelada de sopa que desse para a ceia e para o almoço do dia seguinte, tomado, este, das 10 às 11 horas, no local de trabalho, pelos que andassem a trabalhar. A não ser que o trabalho fosse muito perto de casa, o que era raro. Nesse caso, ia-se tomar as refeições a casa. O jantar, no campo, das 14 às 15 horas, nos dias mais pequenos, e das 14 às 16, nos dias maiores, consistia, normalmente, em pão com um bocado de conduto, que podia ser queijo, sardinha, carapau, chicharro (era o tempo dos “3, dez tostões”), bacalhau, qualquer outro peixe, assado ou cozido, azeitonas, toucinho, chouriço, morcela, ovo cozido, mexido ou em omeleta, marmelada, e sei lá que mais.

O trabalho era de sol a sol e, por isso, as duas horas ao jantar nos enormes dias de verão, a fim de ficar tempo para uma sesta e poder-se, assim, dar melhor rendimento nas mais de quatro horas que faltavam ainda até o Sol se pôr. Era um tempo em que muitas vezes ao jantar se comia algo de mais substancial, levado ao local de trabalho pela mulher, pela mãe, por algum filho pequeno, ou cozinhado ali mesmo, na altura, para o que, ao sair de casa, pela manhã, cada um levava consigo os ingredientes necessários. Algo, naturalmente, que não demorasse muito tempo a preparar. E levava-se também a burra, um pedaço de varão de ferro com um bico dum lado, para espetar no chão, e uma dobra do outro, para pendurar a caldeira ao lume. Mas também acontecia que, para completar os ingredientes para a refeição, se saísse de casa a contar com alguma coisa que se apanhasse pelo caminho ou no próprio local de trabalho. Quando era a contar com o que a terra dava, tomates ou pimentos, por exemplo, e pouco mais, tudo bem. Mas a contar com o que andava dentro de água, isso era arriscar muito. Na verdade, eu só me lembro de ter assistido a isso uma vez. Passados tantos anos (à volta de sessenta), não sei já dizer quem foi o protagonista (ou melhor, não quero arriscar-me a errar, porque tenho uma pessoa em mente). Mas que aconteceu, aconteceu.

Andávamos a trabalhar numa seara de cânhamo, a hoje famosíssima e proibidíssima cannabis sativa, nos “Talhos”, propriedade na margem esquerda do rio Alviela e próxima da ponte (romana) entre o Pombalinho e Vale de Figueira, exactamente no local que a televisão mostra nos seus telejornais cada vez que o Alviela deita fora e corta ali o trânsito na Estrada Nacional nº 365. Chegada a hora do jantar, quem quer que ele era, espetou a burra sobre a fogueira, pendurou-lhe a caldeira com batatas para cozer, pegou numa cana que tinha preparado para a pesca, iscou o anzol e deitou-o à água. Mas sinal de peixe, nada. A bóia nem bulia. Estariam os peixes também na hora da sesta?  Não, não estavam. Pelo menos um, não estava. Porque, depois de muito esperar, o nosso amigo viu, de repente, a bóia a ser puxada para o fundo. Ele estava atento. Segurou a cana com firmeza, rapidamente. Mas nem tempo teve de puxá-la, porque a bóia, tão de repente como tinha ido ao fundo, veio à superfície, por conta própria. Desolado, o nosso amigo puxou a cana. E disse mal da vida. O peixe tinha simplesmente quebrado o fio e levado o anzol. Que grande peixe ele devia ser!... Bom, escusado seria dizer que o azarado pescador teve de contentar-se, para o jantar daquele dia, apenas com as batatas cozidas, temperadas com azeite e sal, mais o costumado bocado de pão de milho a acompanhar. Conduto, nicles...


A respeito de comida, está dito como era durante a semana. Falta dizer que, nesse tempo, a semana de trabalho para o camponês era de segunda-feira a sábado e de sol a sol, como já foi dito mais acima, excepto à segunda-feira, dia em que, no Pombalinho, se pegava ao serviço às 10 horas, já almoçado. E falta dizer que ao Domingo havia, normalmente, rancho melhorado e se eliminava uma refeição, com o almoço mais ou menos por volta do meio-dia, às vezes depois de toda a família ter ido para o campo ou para a eira a fim de trabalhar nas tais searas de milho e feijão, de grão de bico, etc., ou no apuro da sua colheita (descamisar, malhar, escarolar...), e o jantar à costumada hora da ceia. 


segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

As vides


Seguia-se a poda das vinhas, coisa que requeria aprendizagem, assim como a limpeza e a destronca das oliveiras. Por isso, a primeira vez que algum novato fazia um desses trabalhos, fazia-o sob a orientação de um companheiro já experiente. As oliveiras ainda eu aprendi a limpar, sob a orientação do meu tio Daniel Gandarez; a podar as videiras, não. Ora, terminada a poda das vinhas, a apanha das vides, que se juntavam em molhos atados com as próprias vides, era mais uma tarefa das mulheres casadas e dos filhos pequenos, com a divisão a meio por meio e com o transporte das vides para casa por conta dos donos das vinhas. E assim se arranjava alguma matéria prima para fazer a comida ou para aquecer o forno em que se cozia o pão.

As vides que cabiam aos proprietários ficavam nas vinhas, amontoadas, para com elas se aquecerem os almoços e se assar o conduto dos trabalhadores quando era a vinha o local de trabalho. E era-o muitas vezes. Considerando uma ordem cronológica, direi que os trabalhos nas vinhas começavam, em Fevereiro ou Março, pela cava (com um homem em cada vão e um mais possante, e conluiado com o patrão ou com o capataz, a puxar pelos companheiros), passava pela sulfatagem, às vezes pela enxofra, pela desfolha (antes da vindima, para os cachos ficarem mais expostos ao sol), pela vindima, em Setembro, e terminava na poda, assim se completando o ciclo. Relacionado com a vindima em Setembro e com algo que se esperava ou desejava que desaparecesse, era até corrente a expressão: levou uma volta como São Miguel deu às uvas. O dia do Arcanjo São Miguel é em 29 de Setembro.

Exceptuando a poda, a enxofra e a desfolha, as duas últimas feitas por mulheres, tudo o mais eu fiz, inclusive apanhar as vides, com a minha mãe. 


quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Adeus oliveiras!


Sob certos aspectos, a vida mudou muito, mudou completamente. E sempre assim terá sido, senão viveríamos ainda todos em cavernas. Noutros, naturalmente, nem tanto, ou mesmo nada. Têm mudado muito, e mudam cada vez mais, assumindo proporções de progressão aritmética, senão mesmo geométrica, porque propulsionadas pela ânsia do Homem em dominar a matéria e melhorar a sua qualidade de vida, sobretudo os aspectos materiais; é mais lenta, por uma propensão conservadora e fatalista, subserviente e obscurantista da espécie humana, a transformação da mente, que é como quem diz, a subversão de usos e costumes.

Ora, mudança grande, estrondosa, radical, aconteceu com as oliveiras na minha terra e arredores. Eram hectares e hectares e hectares plantados de oliveiras, grande parte delas muito provavelmente já seculares. Eram uma enorme riqueza da região. Ainda assim era em 1959, quando eu fiz também uma grande mudança, de Portugal para Moçambique. Hoje, em toda essa extensão vêem-se meia dúzia de oliveiras, uma aqui, outra ali, em hortas e quintais.

Quando, em 1964, voltei ao Pombalinho, no gozo da tão colonial “licença graciosa” (150 dias, mais o tempo das viagens, que eram feitas de barco, mais o tempo que se ficava à espera do embarque, e ainda mais um ou dois meses, coisa facilmente conseguida por aqueles que nisso estivessem interessados, com uma ida à Junta de Saúde do Hospital do Ultramar, queixando-se de qualquer maleita) – quando, em 1964, dizia eu, voltei ao Pombalinho no gozo da tão colonial “licença graciosa” a que os funcionários do Estado colocados nas colónias tinham direito por cada período de 4 anos de estadia, o primeiro olival, um dos maiores, tinha desaparecido. Tinha sido arrancado pela raiz. Era um dos muitos olivais do João d’Assumpção Coimbra. Em seu lugar, haviam sido plantadas macieiras.

O azeite havia entrado em descrédito. Começara a propalar-se que o mesmo não era bom para a saúde, e recomendava-se, em sua substituição, o consumo de óleo de milho, que entretanto aparecera no mercado. A procura do azeite baixara. Os olivais já não davam ganho. E foram indo uns atrás dos outros. Os lagares pararam. Acabou a produção de azeite no Pombalinho e nas suas redondezas.

Na maior parte daqueles olivais, tinha eu trabalhado, e naquele também, entre os 12 e os 14 ou 15 anos, primeiro a espalhar o estrume, de forquilha em punho, antes da lavoura, e depois a cavar as marradas (a terra à volta das oliveiras a que a charrua não chegava) e a gradar, preparando a terra para a sementeira, ora de trigo, ora de favas, e também de grão de bico. Éramos sempre um grupo de nove ou dez rapazes, mais o maioral das éguas, as quais umas vezes íamos buscar ao lugar da pastagem, cada um a sua parelha, e à noite, depois da jornada de trabalho, íamos lá deixar, outras vezes eram trazidas em rebanho ao local da gradagem e ali lhes deitávamos a mão. A parelha que agarrássemos no primeiro dia era aquela com que ficávamos enquanto durasse a gradagem, o que, para mim, era um martírio. Até hoje, e, claro, vai ser para sempre, tenho uma dificuldade tremenda em fixar fisionomias. Sejam elas de animais ou de pessoas. E então, o que é que acontecia? Enquanto os meus companheiros, com toda a facilidade, procuravam a sua parelha e lhe deitavam a mão, eu tinha que ficar à espera das éguas que sobravam. A não ser que me tivesse calhado logo no primeiro dia alguma com um sinal muito evidente em qualquer parte do corpo - uma pinta, por exemplo - que mais nenhuma tivesse.


E martírio era também quando íamos de manhã buscar as éguas ao local da pastagem e à noite lá as íamos deixar, revelando-se logo aí a falta de jeito que pela vida fora me havia de acompanhar para lidar com bestas. Em sentido real e figurado. Como albarda, tínhamos apenas uma saca que levávamos de casa. E alguns dos meus companheiros, nem isso. Pois bem, enquanto que para eles aquelas cavalgadas eram uma festa, conseguindo ajustar perfeitamente os seus movimentos aos movimentos das éguas que montavam, fossem elas a trote ou a galope, eu fartava-me de baloiçar em cima delas e, às tantas, zás, dava com as costelas no chão. Os outros divertiam-se. Como nos divertíamos quando algum de nós se desequilibrava em cima da grade, por as leivas serem muito grandes e estarem muito duras, e enfiava uma perna pela grade. A maior parte das vezes, quando tal acontecia, logo se conseguia parar as éguas. Mas também acontecia elas não pararem - e espantarem-se, até - e então é que a coisa ficava feia. Agarra, agarra, que é lebre!..., gritava a malta. Que me lembre, nunca algum fracturou uma perna, embora o risco de que tal sucedesse fosse grande. Mas de umas contusões não nos livrávamos.


quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

As Searas !


Eram searas de milho, geralmente com feijão branco e aboboreiras incorporados; searas de grão de bico e searas de feijão frade. Searas semeadas nas terras daqueles que as tinham e cultivadas, desde a primeira sachadela até à partilha da respectiva produção, nas eiras, pelas famílias constituídas por trabalhadores rurais, gente sem terra nenhuma.

Aos donos das terras, desde pequenos proprietários a latifundiários, chamávamo-los de lavradores. Latifundiários mesmo, na zona constituída pelas freguesias do Pombalinho e da Azinhaga e pelo Reguengo do Alviela, uma pequena localidade em que a minha mãe nasceu e que pertencia à freguesia de São Vicente do Paul, que fica muito mais longe que o Pombalinho, eram dois, ambos residentes em quintas situadas na freguesia da Azinhaga: o João de Assunção Coimbra, na Quinta da Melhorada, onde nasceu o meu pai e de onde se via passar os comboios, e o Manuel Tavares Veiga, na Quinta da Broa, junto à ponte sobre o rio Almonda, que passa pela Azinhaga e vai desaguar no Tejo logo ali a umas centenas de metros.

Depois de semeadas e com as plantas já a romper, as terras eram divididas em courelas iguais através de regos abertos por uma charrua e distribuídas, por sorteio, pelas mulheres casadas que, antes informadas, acorriam ao local para tirarem um papelinho numerado de um boné ou de um barrete, ficando, assim, cada uma a saber qual era a sua seara. O sorteio visava eliminar suspeitas de favoritismo, já que, numa propriedade grande, sempre havia um ou outro bocado de terra menos fértil.

Eram as mulheres casadas que tomavam conta das searas e que mais nelas trabalhavam, porque, no Pombalinho, a mulher, uma vez casada, deixava de trabalhar assalariada. Com efeito, as raparigas, logo que tivessem idade e corpo – corpo, sobretudo - para trabalharem no campo, assalariadas, era isso que passavam a fazer, assim contribuindo, daí por diante, com a sua jorna para o sempre parco orçamento familiar. Mas só até casarem. A partir daí, ponto final. Deixavam de ter de ir à praça (noutra altura veremos o que é que isto quer dizer), aos Domingos, para arranjarem patrão. Ou seja, a partir do casamento, a mulher, no Pombalinho, cuidava do marido e dos filhos, da casa e do mais que se verá. Diferentemente do que sucedia na vizinha Azinhaga, por exemplo, o que implicava, naturalmente, outras diferenças, assunto a que oportunamente voltarei, pois que a observação de usos e costumes sempre me cativou. É, de resto, do que estou já a falar e do que tratarei na maior parte destas minhas memórias.

O cultivo das searas de milho, normalmente mais do que uma por ano e por família, do mesmo ou de diferentes lavradores, obedecia aos procedimentos seguintes:
Uma vez tomada conta da courela atribuída pelo já referido sorteio, as mulheres para ali se deslocavam, cada uma para a sua seara, sempre que tivessem tempo para isso e até que a sacha terminasse. Durante os chamados dias úteis da semana, se tinham filhos em idade que já desse para aguentarem a sachadeira nas mãos, mas não ainda para trabalharem por conta de outrem (e desde que não fosse dia de irem à escola, para os que andavam na escola), lá iam os filhos também para ajudarem na tarefa de eliminar as ervas e os pés de milho considerados a mais para o bom crescimento da seara e para o tamanho das futuras maçarocas, não se tocando, porém, nos pés de feijão e de aboboreira. Ao Domingo, se calhava de haver sacha para fazer, era a família inteira que ia para a seara, até cerca das onze horas, altura então de se ir almoçar e de se preparar cada um, depois, para passar o resto do dia conforme a idade, o estatuto e as obrigações familiares.
À sacha seguia-se, algumas semanas depois, a amota, que consistia em chegar terra ao pé de cada milheiro, não sei bem para quê, mas imagino que para as plantas melhor se aguentarem direitas quando, já grandes, fossem batidas pela chuva e pelo vento. Aproveitava-se então para de novo deitar o fio da sachadeira à erva já de novo a despontar.

O empenhamento da família era o mesmo... e o mesmo era para as fases seguintes do cultivo, sujeitas algumas destas a variantes, consoante a robustez que as plantas atingissem, coisa dependente das condições atmosféricas e de serem as searas regadas ou não.
Se as plantas se tornavam robustas, caso em que, naturalmente, davam boa maçaroca (uma ou duas), proceder-se-ia ao desfolhamento e desbandeiramento. Julgo que a finalidade dessa operação era fazer com que as maçarocas ficassem mais expostas ao sol e, assim, amadurecessem mais depressa, tendo em conta que era preciso despachar todo o trabalho relativo à colheita antes que as chuvas viessem criar embaraços. Quando o procedimento era este, as folhas e as bandeiras eram dispostas em paveias que, depois de secas, dali seguiam para os palheiros e alimentavam o gado nos tempos de cheias e de secas, em que outra coisa não havia. Neste caso, ainda, as maçarocas eram depois colhidas para cestos de verga que a seguir eram despejados em dois ou três pontos da seara, formando montes de onde, em devido tempo, eram transportadas, em carros de bois ou de mulas, para as eiras. Os canoilos ficavam, podendo vir a ter um destino diverso: ou permanecerem ali, de pé, caso em que o gado, ao ser depois posto a pastar no local, ainda aproveitava alguma coisa e em que o que sobrasse seria enterrado na próxima lavoura, enriquecendo o húmus; ou serem cortados (a ferramenta usada para tudo quanto fosse corte nestas searas era a foice) e também levados em molhos para palheiros, a fim de servirem de cama ao gado e, depois de cumprida essa função, serem levados para a estrumeira, de onde voltariam à terra, para adubá-la. “Nada nasce, nada morre, tudo se transforma”, Lavoisier dixit.Se a seara não encorpava coisa que se visse, era ceifada rente ao chão e também disposta em paveias, só depois se extraindo a maçaroca. Dali, era dado a cada coisa o destino já nosso conhecido: paveias para o palheiro; maçarocas para a eira. E para a eira eram levados igualmente o feijão, arrancado pela raiz, e as abóboras, arrancadas às aboboreiras.

Passemos à eira, e comecemos pela descamisada. A descamisada era feita, na sua totalidade ou quase, à noite, depois da ceia e à luz de gasómetros. Normalmente, cada monte de milho levava mais do que um serão a descamisar, dependendo do seu tamanho e do número dos participantes. Para a descamisada ia a família toda, menos os que ainda nem força tivessem para tirar a camisa à maçaroca. E menos os rapazes que namoravam. Esses iam para o monte de milho das namoradas. As maçarocas descamisadas iam sendo atiradas para cestos que, quando cheios, iam ser despejados na eira, deixando-se o milho espalhado, para melhor acabar de secar. As primeiras camisas iam sendo dispostas de maneira a servirem de assento (sempre ficava mais macio que o chão) e depois eram atiradas para o lado e amontoadas, para posterior enfardamento manual. Serviam, nesse tempo, sobretudo para, depois de desfiadas, encherem colchões e almofadas.

À volta dos montes de milho podia haver um quase silêncio, se os descamisadores eram somente um casal, ou conversava-se, contavam-se anedotas, gracejava-se a propósito de qualquer coisa, quando os participantes eram em maior número. E se calhava de aparecer alguma maçaroca roxa, era uma algazarra, tanto mais que aquele ou aquela que a tivesse encontrado ficava obrigado a dar um beijo a cada um dos presentes, o que criava muitos constrangimentos. Basta que se saiba que, naquele tempo, as pessoas não se cumprimentavam beijando-se. Beijos, só entre os casais (e feito com muito recato) e entre mães e filhos. Entre os namorados, só muito à socapa. Era proibido, mas oportunidades não faltavam, pelo menos quando o namoro tivesse recebido já o aval do pai da rapariga ou de quem o substituísse, altura a partir da qual decorria dentro de casa.

Depois da descamisada e de decorrido o tempo necessário para que o milho secasse bem, chegava a vez da escarola, na qual eram então utilizados três processos, dependendo a utilização de um ou de outro das disponibilidades da eira e das posses do seareiro: o mangual, a escaroladora manual e a escaloradora movida a motor.  Mangual, cada um tinha o seu, embora fosse já muito pouco usado para escarolar o milho. Mas era com ele que se malhavam todos os legumes. A escaroladora manual era propriedade do dono da eira, que normalmente não tinha mais que uma, o que obrigava os seareiros a marcarem a sua vez junto do encarregado da eira. Era de utilização gratuita e exigia força, para dar à manivela. Tarefa para os homens e rapazes, que nela se revezavam. Também acontecia agarrarem-se dois à manivela, para lhe darem maior ímpeto. A escaroladora a motor era pouco usada. Apareceu a certa altura, propriedade do António Palmeirão, um pequeno proprietário, que a alugava a troco de uma parte do milho escarolado.

O milho era depois novamente espalhado na eira e remexido duas ou três vezes, arrastando-se por ele os pés ou um ancinho de madeira, para secar bem. Quando já bem seco, era amontoado e passado à tarara, instrumento, também manual, que fazia voar as impurezas através do vento que produzia.
Finalmente, estava o milho pronto para a partilha. Chegava-se o medidor com o alqueire e com os sacos do patrão, e o seareiro com os seus. E a partilha era assim: ao quinto (de cada cinco partes, quatro para o dono da terra e uma para o seareiro), se a seara fora de sequeiro; ao sexto (cinco para o dono da terra, uma para o seareiro), se a seara fora de regadio. Exploração pura e dura. E partilha igual era a do feijão branco e a do feijão frade, a do grão de bico e a das abóboras.


Em anos de boa colheita, ficavam as arcas com milho e feijão que davam para todo o ano ou quase – e era uma alegria. O pior, é que nem sempre assim acontecia. Havia anos maus.


sábado, 26 de janeiro de 2008

A Praça !


“Praça” era a designação do local onde, aos Domingos, depois do almoço e envergando os seus fatos e vestidos domingueiros, separadamente se juntavam os homens e as mulheres em busca de patrão para a semana seguinte, pois que para contratarem o pessoal de que necessitassem lá estariam igualmente os capatazes ou os patrões cuja riqueza não dava para meter capataz, que era o caso do patrão-seareiro. Mais adiante veremos o que chamo eu de patrão-seareiro, para o diferenciar do patrão-lavrador.

Em três locais diferentes e por esta ordem conheci eu a “praça”: no cruzamento da Rua de Santo António com a estrada que vai para a Azinhaga; junto à taverna das Motas, que confinava com o recinto da igreja; e no adro da igreja. Era um tempo em que raramente passava um veículo puxado por animais ou um ciclista, e mais raramente ainda um veículo motorizado. E, por isso, o pessoal ocupava a estrada. 
Do primeiro local (Santo António) mal me lembro, e não me recordo onde é que as raparigas se concentravam, mas existia ali um sítio bom para isso: era o pequeno pátio em frente da casa para onde, depois de casado, foi morar o Veríssimo Duarte. No segundo, concentravam-se para lá do gradeamento que delimitava o recinto da igreja e junto à porta de trás do Registo Civil. No terceiro, junto à porta da frente do Registo Civil e à porta lateral da igreja, tirando partido, para se sentarem, do longo poial que ali se situa.

Confinando com qualquer desses locais, não faltavam as tavernas. No primeiro, duas, cada uma na sua esquina e de cujos donos não me lembro os nomes. A da esquina do lado da Azinhaga era dos sogros do Manuel da Carlotina, negociante de cavalos e que também ali vivia, com a mulher e as duas filhas. A da outra esquina (que, se a memória me não atraiçoa, era dum avô do Manuel Gameiro, conhecido por “o Menino”, que foi para a CP e casou com a filha única do António Santana, também ferroviário) foi deitada abaixo, em Janeiro ou Fevereiro de 1941, pela força da corrente das águas da cheia que, com a ultrapassagem e derrube de uma parte do Dique dos Vinte, no campo da Golegã, enfiaram pela estrada que, ligando a Azinhaga e o Pombalinho, ficava a um nível inferior ao dos terrenos limítrofes, quase na sua totalidade constituídos por olivais.
Essa foi a maior cheia registada no Pombalinho até então (1941), e além da casa (loja e habitação, como era de norma) derrubada pela força da corrente que lhe batia em cheio, ruíram com essa cheia mais umas seis ou sete moradias, devido, sobretudo, aos materiais da sua construção: taipa e adobes. E muito pior teria sido se um ciclone que abalou a região pouco tempo antes tivesse ocorrido na altura da cheia. Uma das coisas que desapareceu com esse ciclone foi a tamareira da Quinta da Melhorada, a única conhecida pelos arredores e à qual eu e outros miúdos algumas vezes, nas nossas deambulações aventureiras, fomos atirar pedras para deitar tâmaras abaixo, apanhá-las e comê-las.

Porém, o que mais espantou toda a gente, naquele ano e com aquela cheia, foi o buraco, com muitos metros de diâmetro e três ou quatro de profundidade, que a corrente vinda do lado da Azinhaga, ao bater na parede da casa que ali derrubou e fazer redemoinho, abriu bem no centro do cruzamento. Por sorte, ninguém nem algum animal caiu no buraco antes de o mesmo ter sido descoberto, pois que a água ficou bastante alta. Tão alta que, da casa da outra esquina, a dos sogros do Manuel da Carlotina, como já vimos (e também taverna, mercearia e habitação), foi necessário tirar o seu proprietário, já velhote e por se encontrar doente, pelo telhado, para metê-lo num barco e levá-lo dali para onde pudesse receber a visita do médico. O buraco levou, depois, algum tempo a tapar, e até talvez tenha sido isso que deu origem à mudança do local da “praça” dali para junto da loja das Motas e do edifício do Registo Civil, local que, para além do mais, ficava num ponto bastante mais alto.

Na “praça” não faltava, geralmente, dinheiro para um copito. Copito... é como quem diz, porque o copo mais vezes pedido era o copo de 0,5 litro, que não é assim tão copito como isso. De vinho tinto ou branco, conforme as preferências. E que muitos emborcavam de uma vez, ficando a limpar os lábios às costas das mãos. Mas também acontecia pedir-se o copo de 2,5 decilitros. E até algum mais pequeno, uma vez por outra. Tinha a ver com as disponibilidades financeiras do bebedor e com o seu nível de saciamento.
Mas, além do que se bebesse por conta própria ou por oferta de um companheiro, todos os que arranjassem trabalho tinham direito a 0,5 litro de vinho (às vezes substituído por água-pé), os homens, e a 2,5 decilitros, as mulheres (as raparigas, melhor dizendo),dado pelos patrões. Era a melhadura, que, uma vez aceite, tinha o valor de um contrato que prendia o trabalhador ao patrão por toda a semana. Digo: uma vez aceite, e não: uma vez bebida, porque as mulheres, no Pombalinho, não bebiam. Era de mau tom. Por isso, iam todas de garrafinha para a “Praça”, na qual levavam a melhadura para casa.

“Melhadura”, acho que é como nós pronunciávamos, no Pombalinho. Contudo, não encontro essa palavra em nenhum dicionário consultado. Encontro é “molhadura”, com o significado de «o m.q. molhadela; (pop.) gorjeta que se dá para comprar vinho; gratificação» (Dicionário da Língua Portuguesa, da Porto Editora, 6ª edição). Parece não andar lá longe, pelo que poderemos considerar dois aspectos: ou “melhadura” como regionalismo e com aquele significado preciso de selar o compromisso do trabalhador com o patrão para a semana seguinte, ou como a corruptela de um termo de uso mais geral e de significado algo diferente mas que no Pombalinho e arredores (Azinhaga do Ribatejo e Reguengo do Alviela, pelo menos) adquiriu o referido significado.

Seja como for, o certo era que fora a melhadura, ao Domingo, na “praça”, que era obrigatória, às vezes, durante a semana, a pedido dos trabalhadores ou por iniciativa do patrão, também havia com que “molhar a garganta”. Valia, então, a generosidade dos patrões, tanto podendo acontecer, no entanto, que a bebida fosse levada para o local de trabalho e aí consumida durante o dia, como serem os trabalhadores mandados passar pela adega, à noite, depois de despegarem do trabalho.

Mas também acontecia , nos dias maiores, que eram precisamente aqueles em que as tarefas agrícolas eram em geral as mais árduas, fazer parte das condições ajustadas ao Domingo, na “praça”, ter o trabalhador direito nessa semana, além do salário, a determinada quantidade de vinho por dia, quantidade essa variando, a maior parte das vezes, entre um litro e litro e meio. Sim, isso acontecia, o que significa que poderia suceder ou deixar de suceder. Mas só assim era em relação ao patrão-lavrador. Com o patrão-seareiro não acontecia, era de norma. Como era de norma este pagar sempre mais alguma coisa de jorna do que aquele. O que se justificava pelo seguinte: o patrão-lavrador era dono de terras, de vinhas e de olivais e, em maior ou menor quantidade, trazia sempre alguém por sua conta; o patrão-seareiro era aquele que alugava um ou dois hectares de terra ao lavrador para fazer a sua seara, nesse tempo predominantemente de melão, e que, por conseguinte, só ia à “praça” quando precisava de pessoal para o cultivo dessa seara, coisa que normalmente não ia além de uma ou duas semanas.

Mas havia outro pormenor que importa considerar. Era que a necessidade de pessoal por parte dos seareiros ocorria numa altura em que a procura de pessoal era maior, acontecendo que os lavradores poderiam muito bem absorver então todo o pessoal da “praça” para os seus trabalhos. Ou seja, os seareiros iam “roubar-lhes” o pessoal de que eles precisavam, por um lado, e, por outro, ao tornarem a procura maior que a oferta para além do que ela de qualquer maneira já seria nessas alturas, mais faziam subir o preço da jorna. Também se poderia dizer que, se assim era, isso aos próprios lavradores se devia, uma vez que eram eles mesmos que alugavam aos seareiros a terra em que estes faziam os seus meloais para abastecerem o mercado do Porto, pois era para lá que era levada, por caminho de ferro, a quase totalidade da produção local.

Saliente-se ainda que um factor não menos importante na diferença do salário pago pelos lavradores e pelos seareiros, ou pelo menos da sua expressão em números, era haver quase sempre um retraimento dos trabalhadores em irem para os seareiros, por recearem que os lavradores (ou os seus capatazes) os tomassem de ponta e os deixassem de fora sempre que, na “praça”, a oferta excedesse a procura, o que por vezes acontecia, sobretudo nos meses de Inverno.

Eu comecei a frequentar a “praça” muito cedo, porque comecei a frequentá-la pela mão do meu pai. Com efeito, acho que aí com os meus sete/oito anos já o meu pai me levava com ele à “praça”. Eu gostava de acompanhá-lo. Primeiro, porque, em geral, os miúdos gostam da particular atenção dos pais e, naquela idade, talvez ainda mais da atenção do pai, especialmente os rapazes, do que da atenção da mãe. Depois, porque gostava da atenção que, na “praça”, me dispensavam os companheiros do meu pai, ou seja, de ser alvo da atenção dos adultos. E, ainda, porque sempre havia ali uns tremoços e uns amendoins para trincar, acompanhando a pinga... a pinga que eu julgo ter começado aí a provar, sabendo-me bem.

A “praça” era o grande ponto de encontro e de convívio dos camponeses. Depois do almoço, que ao Domingo era mais tarde (lá para o meio-dia) e melhorado, os trabalhadores vestiam o seu fato domingueiro e dirigiam-se para a “praça”. Ali se iam juntando, homens e raparigas, em grupos separados que iam engrossando e se iam subdividindo em grupos mais pequenos, em função de afinidades ou interesses comuns. Entretanto, os homens iam fazendo a sua peregrinação às tavernas próximas; os copos iam-se enchendo e esvaziando. Uma ou outra laranjada, gasosa ou limonada ia saindo também, na sua maior parte para as raparigas, que iam consumi-las no seu grupo, lá fora, e vinham depois devolver as garrafas.

Reinava a animação no local da “praça” e num raio para aí de cinquenta metros, em que as tavernas eram seis: a das Motas, a do José Taverneiro, a do António de Casal (que bebia mais que os clientes, os quais, de resto, eram muito poucos), a do Manuel Tadéia (e depois do genro e da filha: o Diamantino Costa e a Deolinda), a do José Guilherme e a do Mota Alegre. Bebia-se, conversava-se, caminhava-se para um lado e para o outro, com os problemas da vida postos para trás das costas por algumas horas, pelo menos quando já se tinha a certeza de sair dali com patrão, o que geralmente ocorria nos períodos em que o pessoal não chegava para as necessidades e quando se fazia parte de um rancho de carácter mais ou menos regular por conta de determinado lavrador. Isso não dispensava, porém, a ida à “praça”, salvo em casos em que o trabalhador, por qualquer motivo (visitar familiares, ir a uma feira ou a uma festa nas redondezas) desejasse ausentar-se da terra no Domingo e, para o poder fazer sossegadamente, acertasse as coisas com o seu capataz.

Os empregadores (agora chama-se-lhes assim) ou seus representantes (os capatazes) começavam a chegar mais tarde, juntando-se aos trabalhadores e sondando o ambiente. No fim de contas, capatazes e trabalhadores eram todos companheiros. O capataz não passava de um camponês escolhido pelo patrão para assumir certas responsabilidades, entre elas precisamente a de ir à “praça”, aos Domingos, arranjar o pessoal necessário para os trabalhos a decorrerem na semana contígua. Outras eram velar por que o trabalho fosse bem feito, não deixar o trabalhador descuidar-se na execução das suas tarefas, dar a ordem de pegar e despegar, de manhã, às horas das refeições e à noite. Tudo isso, mesmo quando tinha de emparceirar ao lado dos companheiros, fazendo o mesmo trabalho, o que era de norma quando aqueles não excedessem um certo número. Não estou certo de qual era esse número, e nem sei se esse número era igual para todos os capatazes. Creio, no entanto, que andaria entre oito ou dez trabalhadores.
O capataz, enquanto tal, fazia parte da categoria dos criados, que eram aqueles cujas ocupações se não podiam regular pelo horário dos restantes camponeses (abegões, maiorais, guardadores de gado, guardas das propriedades, hortelãos, boieiros, cocheiros, etc.) e cuja remuneração era constituída, mensalmente, por uma parte em dinheiro e outra em bens de consumo, a chamada comedoria: tanto de feijão, tanto de azeite, tanto de milho, além, nalguns casos, de uma manta e de um par de sapatos anualmente ou de dois em dois anos.

Na “praça”, com todos a postos (trabalhadores e capatazes), chegava então a hora das negociações, com cenários algo diferentes consoante a ocasião fosse de oferta maior que a procura ou vice-versa, o que muito tinha a ver com a época do ano em que se estivesse: pouco trabalho e salários mais baixos nos meses de inverno, com o campo, entre a margem direita do Tejo e a esquerda do Alviela, inundado às vezes durante semanas; muito trabalho e melhores salários no resto do ano.
No primeiro caso, o assunto resolvia-se rapidamente. Os capatazes juntavam os seus homens, primeiro, e as suas mulheres, depois, à sua volta, lançavam o preço da jorna para a semana que se seguia, x para os homens, metade disso ou pouco mais para as raparigas, e assunto arrumado, cada grupo a caminho da adega do respectivo patrão para o fecho do contrato, que é como quem diz, para o recebimento da melhadura, que, como já disse, os homens consumiam logo ali e as raparigas levavam para casa, em geral em garrafas de refrigerantes. No segundo caso (procura maior que a oferta), a história era outra, especialmente quando chegava a altura dos patrões-seareiros engrossarem a procura. O pessoal era então disputado. E, naturalmente, tirava partido disso. Cada empregador ia tentando organizar o seu rancho e lançando a sua oferta de salário... e o pessoal fazendo finca-pé.

Era a altura em que os novatos arranjavam pela primeira vez quem lhes pagasse “o preço dos homens”, e que “homens” ficavam daí para diante. Assim como era a altura em que os de mais idade arranjavam pela última vez quem os aceitasse por esse mesmo preço, tornando-se depois, uma boa parte deles, mendigos ou dependentes dos filhos (um mês em casa deste; outro mês em casa daquele... e voltando ao princípio), que nem para eles tinham que chegasse. O pessoal, reunindo e trocando impressões, ia então fazendo finca-pé... e o tempo passando... e as ofertas subindo. Até que, com uma ou outra excepção, se chegava a acordo, às vezes já noite adentro. E as excepções era não se chegar a acordo. Uma ou duas vezes me lembro disso ter acontecido, voltando todos à “praça” na segunda-feira de manhã, numa tentativa de se resolver o assunto ainda antes da hora de pegar ao trabalho, que na segunda-feira era às 10 horas, com o almoço já tomado.

De um Domingo me lembro eu em que a jorna deu um salto como, suponho, nunca antes teria acontecido. Andava eu a trabalhar para os Menezes (Menezes e Irmão) como “criado dos mandados”, uma espécie de pau para toda a obra que ocupei durante 15 meses e sobre que noutra parte destas minhas “Memórias” certamente me debruçarei com mais pormenor. Tinha 13 ou 14 anos. Estávamos, pelas minhas contas, em 1942, naquela altura do ano em que a procura, na “praça”, atinge o auge, com os patrões-seareiros a chegarem em força.

A “praça” era então junto à taverna das Motas e eu tinha acabado de largar o serviço, porque ao Domingo saía ao meio da tarde. E foi assim que, passando pela “praça”, pude dar-me conta que a jorna tinha acabado de atingir, para os homens, 20$00 (20 escudos), quando, na semana anterior, a jorna fora de 7$00. E ficou pelos 20$00, o que já não posso afirmar é se esse foi o preço dos seareiros, se o dos lavradores, que, normalmente, ficava um ou dois escudos abaixo.

Nas épocas de aperto (chamemos-lhe assim) imediatamente anteriores, com certeza que a jorna tinha já chegado acima dos 7$00, mas nada que se parecesse com os 20$00, para os quais os 7$00 haviam acabado de dar agora um salto de praticamente o triplo. Nesse Domingo deve ter-se bebido algum copito mais do que habitualmente, nem que fosse fiado.