Sábado, 16 de Maio de 2009

Intervir!

Tinha eu dezassete ou dezoito anos quando escrevi a primeira carta para um jornal. Fi-lo a convite de um velho pedreiro chamado Francisco Carvalho, que todos tratavam directamente por Mestre Carvalho e, indirectamente, por Carvalho Velho, para o distinguir do filho, António Carvalho, também pedreiro, que seria por, conseguinte, o Carvalho Novo.
Trabalhava eu então num forno de telha e de tijolo que só funcionava no verão, por falta de instalações apropriadas para funcionar no tempo chuvoso. Poderia designar-se por “fábrica de cerâmica”, mas era rudimentar de mais para isso. Tanto aquele como todos os outros que havia nas redondezas eram denominados muito simplesmente por fornos: Forno do Alviela, esse para onde eu fui sempre trabalhar dos catorze aos dezanove anos e mais ou menos de Abril ou Maio a Agosto ou Setembro, conforme o tempo o permitisse; Forno de Mato Miranda, etc.
Ora, quem a primeira vez me contratou para ir trabalhar para o forno foi precisamente o Mestre Carvalho, que era quem então o explorava, por aluguer pago em tijolos e telhas aos seus proprietários, os latifundiários Infantes da Câmara, de Vale de Figueira.
O Mestre Carvalho assinava "Os Ridículos" , um semanário humorístico editado em Lisboa que teve sempre a vida complicada pela censura salazarista, a qual acabou mesmo por pôr-lhe fim, não sei já se por medida censória definitiva ou se pelas dificuldades económicas criadas pelos sucessivos períodos de suspensão, sempre crescentes, que foram sendo aplicados ao jornal. Uma das secções de Os Ridículos era “Terra de Ninguém”, em que os correspondentes ou assinantes, em geral assinando com o seu gentílico, davam conta do que de pior ia pelas respectivas terras.
Pois bem, um dia o Mestre Carvalho teve a ideia de me propor que escrevesse um artigo para aquela seccção, sobre o Pombalinho. Eu não me fiz de rogado. E assim alinhavei as minhas primeiras palavras que saíram num jornal, escalpelizando o facto de o Pombalinho, aldeia com cerca de mil habitantes, não ter médico, não ter farmácia, não ter telefone nem electricidade, mas ter catorze tavernas. Uma verdadeira “Terra de Ninguém”, de facto. Assinava com o inevitável gentílico: Um Pombalinhense.
Por essa altura, pouco mais ou menos, tive conhecimento da existência da Gazeta do Sul, um semanário de que gostei e de que, por isso, me tornei assinante. Denominava-se de “semanário de cultura popular”, era editado no Montijo e dispunha de um espaço para colaboração dos assinantes. Também não estava muito nas graças do Estado Novo. Era, sem dúvida, um bom jornal, atingindo em pleno os objectivos que se propunha: a cultura popular. Semana a semana, eu lia-o com avidez.
Foi então que começou a morder-me o bichinho de ver o meu nome no jornal, já que aí não iria usar o gentílico, como autor de alguma coisa escrita por mim. Camponês assalariado num meio muito limitado, com a matéria do 2º Grau da Instrução Primária (4ª classe), que completara aos onze anos, já bastante esquecida, era-me difícil a escolha dum tema e a sua exposição, mas não me dei por vencido. Acabei por mandar dois artigos para o jornal, muito espaçados um do outro, que foram publicados.
Com a ida para a tropa (Serviço Militar Obrigatório) interrompi a assinatura da Gazeta do Sul. Reateia-a depois e mantive-a até estar em Moçambique há já cinco ou seis anos, ou seja, até á altura em que a Gazeta, com as lutas de libertação nacional desencadeadas nas então colónias de Portugal em África e com a proclamação de Salazar, para Angola e em força, assume abertamente uma posição colonialista, abjurando assim da sua anterior postura de oposição ao Estado Novo, coisa para mim inaceitável.
Não guardei esses meus primeiros escritos para jornais. Não tinha ainda o espírito de coleccionador, por um lado, e de arquivista, a minha autêntica vocação, creio eu, por outro, que mais tarde me cativaram. Por isso perdi também O Mosquito, precursor dos jornais de banda desenhada em Portugal e minha primeira assinatura de hebdomadários, tinha então catorze ou quinze anos. Hoje, O Mosquito, que deu lugar ao Mundo de Aventuras (ou foi ao Cavaleiro Andante?) e que eu assinei até á sua extinção, é uma relíquia para coleccionadores de publicações de BD. Nele travei conhecimento com o mágico Mandraque, o Capitão Cid e outros mais de que já não me lembro.
Disse acima que terá sido o bichinho a morder-me por ver o meu nome no jornal que me teria lançado na aventura de escrever para jornais. Será por aí certamente, que todos começam. Mas não será que subjacente a esse desejo existirá já também a vontade de intervir quanto mais não seja no evoluir dos acontecimentos à sua volta? Penso que sim. Sendo que esse objectivo será, naturalmente, mais ou menos atingido consoante a capacidade e a pertinácia do escrevente, assim como a guarida que os orgãos de informação lhe dêem ou deixem de dar.

Quinta-feira, 13 de Novembro de 2008

José Afonso... e o mais que por acréscimo virá!

O nome por que o meu pai era conhecido no Pombalinho era o de José Afonso. O seu nome, porém, era José dos Santos. Coisa que, de resto, acontecia então com muita gente: não ser conhecida pelo seu verdadeiro nome. A prática, no Pombalinho como em todo o lado, com certeza, era alguns miúdos irem ficando conhecidos pelos nomes que os vizinhos lhes davam, por forma a evitar-se que houvesse repetição de nomes e que fosse, assim, necessário estar com mais explicações para bem se compreender de quem é que se falava, quando se falava.
No caso do meu pai, que foi registado como José dos Santos, acontece que o pai dele, que eu não conheci, se chamava Afonso dos Santos, não havendo por ali então qualquer outro Afonso, nem de seu nome próprio nem de apelido. O mais natural, comparando com outros casos, e dado que Afonso era o nome próprio do meu avô, seria que ao meu pai chamassem José do Afonso. Mas não: era José Afonso. Também pode ser que tenham começado por chamar-lhe José do Afonso e que, depois, com o falecimento do meu avô e com a mudança do local de habitação, tenha havido uma alteração para José Afonso.
A propósito, contava o meu pai que, já depois de ter cumprido o serviço militar, passou um dia pelo Pombalinho um seu ex-colega da tropa com o qual se havia dado muito bem, ambos sabendo, cada um em relação ao outro, o verdadeiro nome e a terra em que vivia.
E tendo então esse ex-colega do meu pai aproveitado a oportunidade para, se possível, se encontrar com ele, pôs-se a perguntar pelo José dos Santos. Pois bem, ninguém a quem ele perguntou por esse nome foi capaz de perceber a quem é que ele se estava a referir. Já não me lembro se alguém chegou, por outras referências, a conseguir perceber que ele afinal estava a perguntar pelo meu pai, e se ele e o meu pai chegaram ou não a encontrar-se. Tenhamos em conta, no entanto, que o encontro não seria fácil, mesmo que o meu pai tivesse sido identificado, caso o seu ex-colega estivesse apenas de passagem e isso não tivesse acontecido num Domingo ou num dia Feriado. Com efeito, tratando-se de um dia de semana, o mais provável era que o meu pai se encontrasse no campo, cumprindo mais um dia de jorna, que, como se sabe, era de sol a sol.
Uma coisa, porém, há que ter em conta: para o meu pai contar isto é porque soube que aconteceu. E para saber que aconteceu, temos a considerar duas hipóteses: ou o ex-colega, por outras referências, tal como dizer que ambos haviam feito o serviço militar no Hospital Militar (Serviços de Saúde), mais conhecido pelo Hospital da Estrela, em Lisboa, acabara por conseguir que as pessoas com quem falou o tenham identificado; ou falando essas pessoas, depois, de um indivíduo que passou por ali e perguntou por um tal José dos Santos sem que ninguém tivesse percebido de quem se tratava, isso tivesse acabado por chegar aos ouvidos do meu pai.
As indicações acima referidas ocorrem-me pelo seguinte:
Tendo cumprido o serviço militar no Hospital da Estrela, o meu pai tornara-se uma espécie de auxiliar de enfermagem. Pelo menos a dar injecções aprendera ele. E fazia-o muito bem.
Ora, ao terminar o serviço militar e voltar à terra (o Pombalinho era como se fosse a terra do meu pai, se bem que ele tivesse nascido e crescido na Quinta da Melhorada, pertencente ao João d’Assumpção Coimbra e administrativamente integrada na vizinha freguesia da Azinhaga), acho que logo começou a dar injecções a quem elas fossem receitadas pelo Dr. Victor Semedo.
Como era a situação exactamente nessa altura (1922/1923 – o meu pai assistiu, no Terreiro do Paço, à chegada de Gago Coutinho e Sacadura Cabral no regresso da sua célebre viagem aérea ao Brasil), não sei, mas melhor do que era quando eu já tinha algum entendimento (a partir dos meus 7, 8 anos – 1936, 1937, portanto), não seria.
Eu nem sei se nas Farmácias se davam injecções, mas julgo que sim, pelo menos em localidades onde não houvesse outro serviço mais adequado a esse fim. Para o Pombalinho, porém, darem-se ou não se darem injecções nas farmácias era tudo o mesmo, porque, pelo menos desde a minha infância e até hoje, que eu saiba, só houve uma farmácia no Pombalinho durante dois ou três anos, aí por volta de 1935/36. Era a farmácia do Mendonça, que assim como apareceu e se instalou na Rua de Cima (Rua Barão de Almeirim), na casa para onde mais tarde foram morar os meus primos José da Silva e a esposa, a Lucília, e onde o Silva montou a sua oficina de latoeiro e de venda e reparação de bicicletas, assim desapareceu. E nunca mais ninguém viu uma farmácia no Pombalinho. Talvez por a Azinhaga ser muito perto e, que eu me lembre, sempre lá ter havido uma, cujo proprietário e Director Técnico (a mesma pessoa e cujo nome esqueci) era de lá natural, suponho.
Foi tão fugaz a passagem do Mendonça pelo Pombalinho, e eu era tão miúdo, que se não fosse o caso de ele ter um filho pouco mais velho do que eu, do filho ter uma bicicleta e de um dia termos ido, o dono da bicicleta e mais quatro miúdos, dar um grande passeio com ele, era até capaz de me ter esquecido completamente do Mendonça e da sua farmácia. Porque, além da localização da farmácia, esse passeio foi a única recordação que me ficou dos Mendonças. E acho que vale a pena contá-lo.
Foi um passeio até para lá da linha de caminho de ferro (Linha do Norte).
Para lá da linha, que ficaria aí a cerca de um quilómetro do Pombalinho e tinha ali uma passagem de nível com guarda, era “o bairro”, zona de terrenos acidentados onde predominava a mata e abundavam os escorpiões, a caminho da Quinta do Benito (do Canavarro), de São Vicente do Paul e do Sobral.
Íamos, portanto, cinco na bicicleta, e nunca eu tinha visto, nem voltei a ver, uma bicicleta transportar tanta gente. Eu e o meu irmão, vinte e sete meses mais velho que eu, éramos dois deles. Os outros, excepto o dono da bicicleta, já não tenho a certeza quem fossem. Mas sem dúvida que faziam parte do grupo de brincadeiras que por ali se formava naquele tempo e naquele espaço, habitualmente constituído pelo Manuel João Bugalho, o Aníbal Condeço (Aníbal “Rato”), o Ezequiel e o Manuel Mateiro, o António Justino (o “Canário”), o Joaquim Cachado, o Arsénio Teixeira e o António Maria (da Isaura). Mas lembro-me que, além do condutor, sentado no selim, os outros quatro se instalaram como segue: um (o mais leve), sentado no guarda-lamas da roda da frente e agarrado ao guiador; outro sentado no quadro (entre o guiador e o selim); o terceiro sentado no suporte colocado sobre a roda de trás; e o quarto sentado nos ombros deste e agarrado aos ombros do condutor.
Fomos ainda um grande bocado para lá da linha (300/400 metros). Quando resolvemos parar, para voltar para trás, chegou à malta a vontade de fazer as suas necessidades fisiológicas. E, então, vá de urinar, não tendo deixado de vir à baila, como sempre que tal acontecia, o dito: “mija um português, mijam dois ou três”. Mas houve um a quem também chegou a vontade de “dar de corpo” (quem é que se lembra desta expressão?). E esse foi precisamente o Mendonça, o qual, feito o servicinho, limpou o rabo nada mais nada menos que a uma nota de 20$00, a de menor valor então existente e aquilo que o pai de qualquer um dos outros precisaria, na altura, de trabalhar pelo menos três dias para os ganhar. O que foi feito da nota, depois, não me recordo, mas ficar lá, só porque tinha servido de papel higiénico, não ficou, de certeza.

Mas se farmácia ainda houve no Pombalinho, durante dois ou três anos (a do Mendonça), já o mesmo se não pode dizer em relação a um consultório médico, pois, que eu tenha tido conhecimento, nem um só médico alguma vez lá se estabeleceu. Até hoje!...
Desde que eu me lembro, essa falta era atenuada pela contratação de um médico pela Casa do Povo, que ia duas (ou três?) vezes por semana, salvo erro da parte da manhã, dar consulta aos sócios e familiares da dita Casa do Povo disso necessitados. Desde o início desse serviço e até ao fim da sua carreira, terminada já na Junta de Freguesia, na sequência das transformações produzidas pelo golpe de 25 de Abril de 1974, sempre esse médico foi o Dr. Victor Semedo, que vivia e tinha o seu consultório em Vale de Figueira (de onde, creio, era natural), uma aldeia a cerca de 6 quilómetros do Pombalinho, distância que, enquanto eu vivi no Pombalimho, ele sempre percorreu de bicicleta a pedais. Com o andar dos tempos terá, provavelmente, mudado alguma vez de meio de transporte.
Pessoa simples, afável, a História do Pombalinho não pode ser escrita sem que nela ocupe um lugar de muita honra o Dr. Victor Semedo. A Junta de Freguesia prestou-lhe a devida homenagem quando da sua retirada e, com o seu nome dado à sala onde funciona o consultório médico e a sua fotografia exposta na sala de entrada da Junta, mantém viva a sua memória.
Para casos de urgência fora das horas das consultas do Dr. Semedo, mais uma vez estava ali mais à mão o médico da Azinhaga. Casos de urgência raríssimos, aliás, porque só mesmo na última, ou seja, com alguém quase a morrer, é que ia chamar-se o médico. Assim não sendo, esperava-se pelo dia e hora das consultas do Dr. Semedo, que ia a casa dos doentes que não estivessem em condições de deslocar-se ao consultório.
Tinha eu 18 ou 19 anos quando, precisamente, tive de ir à Azinhaga, já de noite, chamar o Dr. Rasteiro para ir ver o meu pai, que estava de cama com uma febre altíssima e, se não me engano, com cólicas. Pedalando na minha bicicleta (bem pesada, diga-se) com quanta força tinha, lá cheguei a casa do Dr. Rasteiro, depois de ter perguntado onde é que ele morava ao primeiro azinhaguense que encontrei. Uma vez pronto, montou na sua bicicleta (nesse tempo os médicos, como se vê, não ganhavam para outro meio de transporte) e, com o andamento, pouco expedito, marcado por ele, lá chegámos junto do doente.
Feita a consulta, o que o Dr. Rasteiro receitou ao meu pai foi gelo (não sei se receitou mais alguma coisa), produto que o mais próximo que se poderia obter era em Riachos, localidade que ficava a uns12 ou 13 quilómetros. Não havia que hesitar. Eu tinha que pôr-me a caminho de Riachos. E quis fazê-lo logo que a necessidade do gelo foi pronunciada pelo Dr. Rasteiro. Ele, porém, ao aperceber-se que eu estava para me pôr na alheta, pediu-me que o acompanhasse até à Azinhaga.
Contrariado, tanto mais que já conhecia o andamento dele, achei não ter outra saída. E lá fomos os dois, lado a lado, pedalando brandamente até mesmo à porta da sua casa, onde lhe agradeci ter ido fazer a consulta e tomei outra velocidade até aos Riachos.
Descoberta, aí, a empresa distribuidora de peixe que fabricava o gelo, e dito ao que ia, fui ali muito bem atendido. Há muita coisa que esquece, ao fim de tanto tempo, e esta foi uma delas, mas a impressão que em mim perdura é que o gelo me foi oferecido pelos operários da fábrica.
Regressado ao Pombalinho, foi o gelo aplicado ao meu pai, segundo as indicações do Dr. Rasteiro, e passados dois ou três dias já ele andava outra vez no campo, de enxada ou de qualquer outra ferramenta nas mãos, porque dia perdido significava o défice familiar acrescido.
Estranho, para mim, é que Augusto de Souto Barreiros não se refira a este Dr. Rasteiro na sua obra “Azinhaga – Livro de Horas”, mesmo não sendo ele natural de lá, coisa que o seu sotaque dava perfeitamente para perceber. Nem mesmo ao referir-se aos dois filhos, que, esses sim, nasceram na Azinhaga e foram, segundo o Augusto Barreiros, igualmente médicos, tendo, por conseguinte, seguido ambos a profissão do pai, faz qualquer referência à sua paternidade.
E assim como não faz referência ao Dr. Rasteiro, também não se refere, pelo menos enquanto médico, ao Dr. Acácio, que foi quem, no exercício da medicina na Azinhaga, precedeu o Dr. Rasteiro. Eu conheci-o, já velhote, deslocando-se a visitar os doentes na sua caleche conduzida pelo Sr. Anselmo.
Dizia-se deste Dr. Acácio que ele não evitava minimamente, quando apoquentado por flatulência, expelir os seus gases ruidosamente, ou seja, peidava-se, estivesse onde estivesse. No Pombalinho dizia-se que isso tinha acontecido uma vez quando ele estava a consultar uma das filhas da D. Amélia Barreiros, por sinal minha vizinha e avó paterna do Augusto de Souto Barreiros. E acrescentava-se que a resposta dele a quem quer que alguma vez se mostrasse espantado perante tal comportamento, era que não ia deixar estragar uma caldeirada de tripas por causa de um dedal de vento.
Menciona o Augusto de Souto Barreiros, a certa altura da sua obra (pág. 44), um Dr. Acácio Borges Pereira da Silva, mas apenas por este ter sido provedor, durante dois mandatos, da Santa Casa da Misericórdia da Azinhaga. Fá-lo ao enunciar uma lista de provedores da mesma entre 1870 e a sua extinção, o que terá ocorrido por volta de 1950. Presumo que se trate do mesmo Dr. Acácio, nada me permitindo, todavia, dá-lo como certo.

Voltemos ao meu pai.
Segundo o seu Registo de Nascimento, o meu pai nasceu em 5 de Setembro de 1900, na Quinta da Melhorada, como já disse. Porém, o que sempre lhe ouvi dizer era que fazia anos a 6 de Setembro.
Filho mais velho de Afonso dos Santos e de Maria Cecília (conforme consta no Registo de Nascimento do meu pai) ou Maria da Conceição (como consta no meu), ambos nascidos na freguesia de Casével, também do Concelho de Santarém, creio que o meu pai, com a mãe e os irmãos, terão deixado a Melhorada devido ao falecimento do meu avô, pois deixavam, assim, de ter direito a casa, e se mudaram então para o Pombalinho.
A propósito de Casével, terra, por conseguinte, dos meus ascendentes paternos, alguma vez ouvi o meu pai dizer que ainda éramos parentes do General Humberto Delgado. Ora, Humberto Delgado é natural de Boquilobo, que é terra vizinha de Casével, embora se trate de povoações pertencentes a Concelhos diferentes: Casével ao Concelho de Santarém; Boquilobo ao Concelho de Torres Novas. Terá tal afirmação do meu pai algum fundamento?
Julgo que, ao sair da Melhorada, o meu pai ainda não tinha ido para a tropa, mas não deveria estar muito longe disso. A fotografia mais antiga que dele tenho foi tirada quando ele cumpria o serviço militar. É uma daquelas fotografias de estúdio, em pose. Uma fotografia colorida, coisa que, naquele tempo, só podia basear-se ainda, certamente, na invenção dos irmãos Lumière, em 1904, com a utilização de placas de vidro, pois que se passaram então mais de 30 anos até ao aparecimento da película colorida.

Arrimado a um móvel florido e com mais flores, todas artificiais, suponho, por detrás, em vasos e jarras, o José Afonso, na sua farda de gala, a que não falta o distintivo dos Serviços de Saúde (uma braçadeira), em cabelo, de relógio de pulso e a agarrar um par de luvas, está um galã. O relógio de pulso deve ter sido emprestado por alguém; as luvas deviam fazer parte do uniforme.
Como qualquer um, o meu pai tinha os seus amigos predilectos, entre os quais se contavam o António da Clotilde, o António da Azinhaga, o Augusto Anastácio (ver os capítulos “Dá alguma coisa ao necessitado?” e “Um Gigante”) e o Francisco Mação.
O António da Clotilde (Clotilde era o nome da mãe), ou, mais coincidente com a forma como era realmente tratado, o Tóino da Cotildes, chamava-se de facto António Martins, mas também havia muito pouca gente que o soubesse. Ele e a esposa, a Maria Amália, foram os meus padrinhos de baptismo e do meu irmão, tendo os meus pais sido padrinhos, também de baptismo, e depois de casamento, creio que de todos os seus cinco filhos: José, Ermelinda, Edmundo, Rui e Georgina.
E foram igualmente padrinhos de baptismo das duas filhas, a Carolina e a Rosalina, do Augusto Anastácio.
O António da Azinhaga era assim conhecido no Pombalinho por ser da Azinhaga e, certamente, deslocar-se bastante ao Pombalinho e ali ter arranjado amigos, num tempo em que isso não era muito vulgar. É o que eu penso, agora, ao reflectir sobre isso, porque Antónios, na Azinhaga, não haviam de faltar, como não faltavam nem faltam em qualquer outro canto de Portugal onde haja duas ou três centenas de homens. O seu nome era António dos Santos, não tendo, contudo, apesar do apelido de ambos ser o mesmo, qualquer grau de parentesco com o meu pai.
Aliás, o António da Azinhaga (vou continuar a chamar-lhe assim) era casado com uma mulher do Pombalinho. Para que tal casamento tenha tido lugar, será de presumir que o casal tenha deparado com algumas más vontades ao princípio do namoro. Isto, porque as relações entre os da Azinhaga e os do Pombalinho nem sempre haviam sido de cordialidade. Ouvi algumas vezes o meu pai, e não só, contar que durante a infância dele dava briga certa os de um ou de outro lado serem apanhados pela parte contrária depois de passada a “oliveira grossa”, oliveira esta que ficava à beira da estrada que liga as duas freguesias, do lado esquerdo no sentido Pombalinho/Azinhaga, sensivelmente a meio do caminho, e que, por se distinguir das outras em relação à sua grossura (daí o epíteto, naturalmente) ali serviu sempre como ponto de referência não só para a então livre deambulação de pombalinhenses e azinhaguenses, como para qualquer outra casual circunstância. E só por isso devia ter sido poupada à razia dada às oliveiras na região.
No meu tempo de jovem tais hostilidades já haviam desaparecido, se de facto alguma vez existiram. Não é de pôr-se de parte que houvesse algum exagero nessa afirmação. Mas a resistência a que rapazes da Azinhaga viessem namorar raparigas ao Pombalinho, essa perdurava. Se o mesmo acontecia no caso inverso, não sei. O que sei é que para os apaixonados não há barreiras intransponíveis. E, por conseguinte, casamentos entre pombalinhenses e azinhagueiros não faltavam. Talvez porque nesta coisa de namoros e casamentos o que mais do que tudo sempre contou muito foi ser-se ou não de “boas famílias”. E não deixa de contar ainda, se bem que, graças a uma muito maior independência económica e concomitante escape a uma subordinação paternal de que uma grande parte dos jovens hoje goza, não tanto.
Como teria sido no caso do António da Azinhaga e da mulher: um amor que se sobrepôs a todas as contrariedades e resistências, ou um amor facilitado pelo aval das “boas famílias”? O nome dela, que tantas vezes pronunciei, é um dos tantos que, com muita pena minha, já se me esvaiu da memória. Lembro-me, no entanto, que era irmã de um Marcelino casado com a Júlia Cavaco, filha do Manuel Cavaco, da Estalagem do Pocinho.
Continuo a falar do António da Azinhaga, porque, a meu ver, era uma personalidade muito interessante.
Teve a infância, a adolescência e a entrada na idade adulta comuns aos camponeses - vida de pobretana, por conseguinte -, o que me permito afirmar por ele e o meu pai terem sido companheiros e amigos já por esses tempos.
Mas depois tornou-se negociante e eu conheci-o já a residir no Entroncamento, com a família (a mulher e três filhos, uma rapariga e dois rapazes) e com um hóspede (um jovem barbeiro da Azinhaga a trabalhar no Entroncamento, que acabou casando com a filha).
O António da Azinhaga tinha uma grande horta lá no Entroncamento, perto de casa. E o meu pai ia passar grandes temporadas a tratar dessa horta, recebendo pelo trabalho o salário combinado e habitando com eles, o que quer dizer com comida e dormida, como se de mais um familiar se tratasse.
Fora isso, o meu pai decidia, uma vez por outra, ir até ao Entroncamento, para visitar os amigos. O dia escolhido tinha de ser, logicamente, um Domingo ou um Feriado em que não houvesse trabalho para fazer nas searas ou nas eiras. E como havia uma feira mensal no Entroncamento, em determinado Domingo do mês (o último, salvo erro), o dia escolhido era normalmente um desses Domingos de feira.
O percurso, de cerca de 17 quilómetros, por estrada e por atalhos, era feito a pé, para um lado e para o outro. Naquele tempo, o Pombalinho não era ainda servido por nenhum serviço de transporte colectivo. Mesmo que fosse, o percurso não deixaria por isso de ser feito a pé, certamente. Porque, havendo ligação ferroviária de Mato Miranda, a cerca de quilómetro e meio do Pombalinho, ao Entroncamento, local da principal oficina ferroviária do país, a viagem continuava sendo feita a pé. Julgo, porém, que a causa talvez nem sempre fosse a pobreza reinante. Talvez fosse também (em relação ao comboio, claro) uma questão de horários.
Algumas vezes eu fiz essa jornada com o meu pai. Outras vezes com o meu pai e com o meu irmão. Partíamos de madrugada. Chegávamos à Golegã já com o dia a romper e as tascas a abrir, numa das quais emborcávamos o nosso cálice de aguardente.
Continuávamos a caminhada por estrada até um bocado para lá do cemitério da Golegã e enveredávamos então por atalhos até ao Entroncamento, onde nunca chegávamos sem que muito antes sentíssemos uma necessidade premente de despejar o conteúdo clarinho e fumegante da bexiga, efeito evidente da aguardente.
Falando do cemitério da Golegã, não pode deixar de citar-se a singular quadra que o mesmo ostenta à entrada:

Ó tu mortal que me vês
Repara bem como estou
Eu já fui como tu és
E tu serás como sou

Chegados ao Entroncamento, logo nos encaminhávamos para casa do António da Azinhaga, onde chegávamos ainda bastante cedo e éramos recebidos com evidente satisfação.
Então, além dos momentos que passávamos confraternizando com aqueles amigos e que geralmente incluía uma visita à horta, íamos à feira e passeávamos pela vila, sempre com uma ou duas passagens pela ponte que, para encurtar caminho entre dois lados da vila, que nasceu e cresceu à volta das instalações ferroviárias, passava por cima das oficinas e das linhas, onde nunca faltavam comboios em movimento, com as máquinas expelindo o seu denso fumo negro, pois não havia ainda nenhuma linha de caminho de ferro electrificada.
Curioso é que o meu pai procurava sempre que apanhássemos com o fumo na cara e o aspirássemos, porque, dizia ele, fazia bem aos pulmões. Ora, como há muito se sabe, nada mais ao contrário, podendo até a inalação de fumo levar à morte, por intoxicação.
Mais curioso ainda é, no entanto, que ao estar eu a escrever isto, em princípio de Novembro de 2005, deparo, na “Visão” de 25 de Agosto do mesmo ano, com um artigo com os seguintes título e subtítulo:

Monóxido de carbono que trata
Miguel Soares chegou a uma conclusão impensável: o gás tóxico dos tubos de escape dos carros pode combater o entupimento das artérias

E vale com certeza a pena transcrever a parte inicial do artigo, até para sabermos que este Miguel Soares não é um qualquer. Ei-la:

Por mais estranho que pareça, esclerose múltipla, malária, rejeição em transplantes e arterosclerose têm um factor em comum: a resposta inflamatória, ou seja, a forma como o corpo reage a um microorganismo ou a uma lesão de um tecido. «Tem-se a ideia de que é uma coisa má, mas é essencial à vida», explica o investigador Miguel Soares. A arterosclerose pode ser vista como um processo inflamatório que acontece nas paredes dos vasos sanguíneos, à conta da acumulação de gordura. Num artigo publicado na revista Nature, enquanto ainda trabalhava na Escola Médica de Harvard, em Boston, Miguel Soares demonstrou que o monóxido de carbono (sim, o gás tóxico libertado pelos tubos de escape dos carros) é capaz de reverter os efeitos da doença. «Neste momento, há nove patentes referentes aos direitos de exploração do monóxido de carbono como substância terapêutica.

Ora bem, não sei se estarei enganado, mas julgo que o fumo libertado pelas máquinas movidas a carvão contém igualmente monóxido de carbono. E, assim sendo, será caso para dizer que, afinal, o meu pai já tinha descoberto as funções terapêuticas do monóxido de carbono nos longínquos anos da década de 40 do Século XX... Ah grande Zé Afonso!!!...
Foi nas andanças com o meu pai pelo Entroncamento que a primeira vez ouvi falar de relações sexuais entre dois irmãos. Numa relação incestuosa, portanto. Note-se, contudo, que na altura esse era um termo fora do nosso vocabulário. E para o meu pai me contar e eu entender o que se passava, nem foi necessário. Tratava-se de um casal já com uma filha e estabelecido com mercearia e vinhos, se a memória me não falha, não muito longe da residência do António da Azinhaga. Interessante é que, para os tão arreigados preconceitos da época, sobretudo para os relacionados com a sexualidade (haverá grande diferença entre o que era e o que é?), o casal e a filha viviam sem sobressaltos provocados por hipotéticos puritanos ofendidos com a sua relação fora dos cânones éticos e religiosos.
O António da Azinhaga tornara-se então negociante, como já foi referido. Foi, de resto, em sua casa que eu pela primeira vez vi um telefone e uma máquina de escrever, instrumentos sem dúvida necessários, se não mesmo indispensáveis, ao seu modo de vida.
Não sei em que é que ele negociava, exactamente. Possivelmente em tudo que se lhe deparasse que desse para comprar e vender com lucro, especialmente se lho vendessem fiado. De dois negócios feitos por ele lembro-me eu, um de ouvir contar, o outro de o ter conhecido directamente.
O de “ouvir contar” tratou-se de uma compra a crédito, ao João d’Assumpção Coimbra. O que se contava era que a certa altura o Coimbra, comentando com alguém uma venda de azeite feita ao António da Azinhaga, azeite esse de que nunca mais recebera o respectivo valor, dizia: -Ah... ele não mo pagou, mas eu vendi-lho bem vendido!
Por outras coisas que se contavam do Coimbra, não será muito de estranhar que também tenha acontecido essa.
O negócio que eu lhe conheci directamente foi a compra da azeitona, ainda na árvore mas pronta a varejar, de um olival pegado à horta do Romeu, logo a seguir ao Casal Centeio. E o conhecimento directo veio-me do facto de eu próprio (então com 14 ou 15 anos ou por aí perto), o meu pai e o meu irmão termos andado, juntamente com um rancho de gaibéus, na colheita dessa azeitona, coisa que deve ter durado para aí duas ou três semanas.
Pode não ter nada a ver, mas quando reflicto sobre isso penso que foi daí, do convívio com esses gaibéus, que mais comecei a dar conta das diferenças nos usos e nos costumes de umas terras para outras. E a diferença, neste caso, era que enquanto certos termos de calão que no Pombalinho não podiam ser ditos por homens em frente de mulheres sem que tal fosse tomado por ofensa grave, entre os componentes daquele rancho, parte dos quais familiares muito próximos entre si (pais com seus filhos e filhas ainda solteiros), valia tudo, sem o mínimo constrangimento.
No Pombalinho, até “porra” era obscenidade grossa e, por isso, me valeu uma vez uma valente bofetada da minha mãe. Estávamos no inverno e em casa, num dia à noite. Eu ia a subir para a lareira, para me aquecer, como era hábito nas casas dos pobres. Ao subir, porém, descuidei-me e dei uma cabeçada na trave em que assentava a parede da chaminé. E aí vai “porra!”, exprimindo, em voz alta e bom som, o meu sentimento de dor. Ora, a minha mãe estava mesmo ali, e não gostou.

Além da visita à feira, o meu pai não deixava nunca de visitar o Jardim da vila, com cujo jardineiro acabou por familiarizar-se. Ficavam sempre os dois a conversar sobre flores um bom bocado e o meu pai só de lá saía sem alguma flor (pé transplantável, bolbo, sementes, etc.) para o seu jardim se a visita calhasse numa altura em que não houvesse mesmo nada que para tal se prestasse.
O mesmo acontecia, aliás, nas suas idas a Santarém por ocasião da feira anual que ali se realizava, já não sei se em Setembro se em Outubro, algumas das quais fizemos também juntos, ele, eu e o meu irmão, e igualmente a pé, pelo menos para lá. No regresso, creio que uma vez ou outra fizemos a viagem de comboio. Nunca ficava por fazer uma visita ao jardim das Portas de Sol e uma conversa do meu pai com o respectivo jardineiro. A não ser que ele lá não estivesse na altura. Mas se estivesse, o mais certo era o meu pai não sair das Portas do Sol também sem alguma coisa para o seu jardim.
Como já referi ao falar dos quintais, as flores eram sem dúvida o grande hobby do meu pai.
Nos quintais das casas em que morámos não ficava um bocadinho que pudesse ser aproveitado para isso em que o meu pai não plantasse flores ou não colocasse vasos, tanto num caso como no outro cultivando espécies das mais variadas. Vasos, havia-os pelo chão e em armações de madeira com várias prateleiras, tudo por ele preparado em função do espaço.
Até uma flor aérea o meu pai teve. Os seus ramos eram muito parecidos com os de um craveiro e estava colocada num bocado de rede metálica, com as raízes expostas ao ar. Precisava era de ser regada. Nunca vi outra em mais parte nenhuma.
Virá a propósito dizer que morámos em 5 casas. As duas primeiras, na Rua Carolina Infante da Câmara, eram do Manuel Mateiro e depois dos filhos: a Justa, a Verónica, a Francisca (Xica) e o Pedro.
A primeira, pegada à habitação dos donos e com um quintal comum, foi para onde os meus pais foram morar quando se casaram e onde nascemos o meu irmão e eu. A segunda era pegada à primeira, mas fazia parte de um outro corpo arquitectónico. A mudança efectuou-se por conveniência dos proprietários, mas mais tarde voltámos à procedência. E ali ficámos até que os donos precisaram da casa. Tudo processado em boa harmonia (era impossível não se processar tudo em boa harmonia com aquela família), tivemos então de sair dali, tinha eu 16 ou 17 anos. Como havia uma certa urgência por parte dos proprietários e não era fácil encontrar casa para arrendar naquela altura, fomos para a primeira que apareceu, no Pátio do Neto e propriedade do António Abegão. Porém, por a casa ser pequena e nem quintal ter, ficámos ali pouco tempo, tendo então mudado para uma casa do Manuel Sacola, na Rua 1.º de Dezembro (Rua de Baixo), onde ficámos até eu ir para a tropa. E estava eu ainda na tropa quando os meus pais se mudaram para uma casa do meus tios Manuel Afonso (Manuel dos Santos) e Maria Calada, na Rua de Santo António.
Na primeira habitação, todo o quintal comum, que tinha um poço, um tanque para lavagem de roupa, uma pereira e, salvo erro, uma parreira, era ajardinado pelo meu pai. Contíguo ao quintal, havia um forno e espaço para os galináceos, para os coelhos e para uma cabra, espaço esse que, embora protegido da bicharada daninha (ginetos e toirões) por rede metálica, não se livrou de, duas ou três vezes, que me lembre, ter sido invadido por essa bicharada, que sempre deixava estragos.
O corpo de que a segunda habitação fazia parte ligava-se - pela frente e por uma dupla varanda sem resguardo (uma vez desmandei-me dela abaixo, mas a amachucadela não foi grande) e com degraus a meio, para acesso aos dois lados - a uma construção igual, pelo exterior (eram, digamos, casas geminadas), mas que, no interior, não tinha qualquer divisão e servia de celeiro.
E foi nesse celeiro, precisamente, que assisti pela primeira vez, era ainda bastante miúdo, a ensaios de um rancho folclórico, cujo ensaiador era o meu pai.
Não sei se já andaria na escola, para a qual entrei em 7 de Outubro de 1937 (7 de Outubro era a data, naquele tempo, da abertura do ano lectivo). Tendo eu nascido em 10 de Novembro de 1929, faltavam-me, então, apenas um mês e 3 dias para fazer os 8 anos. E não entrara no ano anterior porque, nesse tempo, a entrada para a escola só era autorizada com os 7 anos já feitos. Apesar de no ano anterior o meu pai ter antes falado com a professora, que era a Maria José de Moura Amorim, no sentido de ela me deixar entrar, visto faltar tão pouco tempo para eu fazer os 7 anos, e de ela lhe ter dado uma negativa, o meu pai mesmo assim me mandara para a escola, de bolsa às costas, a ver se pegava. Mas a professora não foi na cantiga. Mal me topou, perguntou-me o que é que estava ali a fazer. Eu nem sei se lhe respondi alguma coisa, se não; o que sei é que ela me mandou embora.
Pelas traseiras dessas casas geminadas e do largo portão de ferro que às mesmas se seguia e dava aceso às traseiras, situavam-se o curral dos bois (o Manuel Mateiro tinha uma junta de bois), o palheiro, uma pequena moradia, também alugada (habitavam nela o José Chicharro, com a mulher, a senhora Angélica, e um filho, também José e também Chicharro), e grandes espaços, em parte aproveitados para estrumeira e para as pocilgas dos porcos dos inquilinos.
Havia ainda um bocado de terreno, lá para trás do curral e do palheiro, que era cultivado pelo meu pai. Dadas as suas diminutas dimensões, nem será muito apropriado chamar-lhe horta. Plantavam-se ali umas couves, uns tomateiros, uns feijões verdes, tudo em pequena quantidade. Mas foi ali também, talvez devido ao secretismo de que devem revestir-se as experiências científicas, que o meu pai, enxertando hastes de craveiro em pés de couve, andou a ensaiar a criação de craveiros que dessem cravos verdes. Não resultou, mas, pronto... de falta de espírito científico é que não poderão acusá-lo...
A terceira habitação, a do Pátio do Neto, era, como já referi, muito pequena e nem espaço próprio tinha onde o meu pai pudesse dedicar-se ao seu tão apaixonado cultivo de flores. Por isso, como também já referi, lá ficámos muito pouco tempo.
Já a quarta, na Rua de Baixo, além de ter as dimensões mais comuns nas casas de duas divisões apenas (cozinha e casa de fora), tinha nas suas traseiras um poço e espaço para horta e para o meu pai se dedicar à vontade às suas flores. E também tinha forno, logo à saída da cozinha.
Não sei por que é que os meus pais se mudaram dessa casa, pois me encontrava então a cumprir o serviço militar, mas suponho que terá sido também por os donos, o Manuel Sacola e a mulher, a senhora Luísa, terem necessitado dela.
E dali se mudaram, então, para a Rua de Santo António, para uma casa dos meus tios Manuel Afonso e Maria Calada, casa esta com quatro divisões, pois dispunha de dois pequenos quartos, um anexo à cozinha e outro à casa de fora, este com uma janela para a rua. O espaço ocupado por toda a habitação não era, porém, muito diferente do comum, o que significa que o espaço dos quartos fora “roubado” à cozinha e à casa de fora. O facto de dispor dos dois quartos não deixava, contudo, de a tornar uma habitação melhorada.

Casa da Rua de Santo António, com a minha mãe à porta e com a frontaria engalanada para a passagem de uma procissão.

Também aqui havia um poço, logo à saída da cozinha, e um grande quintal com uma saída para a Rua 1.º de Dezembro. Não faltava, assim, terra para horta e para jardim. Na horta, lembro-me eu de o meu pai ter experimentado plantar batata doce, e também me lembro que o resultado foi negativo.
E foi aí que os meus pais moraram até aos princípios de 1978, quando uma grande cheia deitou a casa a baixo, deixando-a inabitável, o mesmo tendo acontecido a mais três ou quatro.
Eu tinha estado no Pombalinho, de férias, em Setembro e Outubro de 1977. Havia então comprado um álbum em que colocara todas as fotografias que os meus pais tinham a granel pelas gavetas, algumas delas de grande interesse documental, especialmente em relação aos trajes, como, por exemplo, o uso da jaqueta, então já em desuso. Para além, naturalmente, do valor estimativo de todas elas.
A inundação da Rua de Santo António dera-se repentinamente e durante a noite, creio eu, com a água vinda em força do lado do campo da Golegã, depois de galgado o Dique dos Vinte.
Não houve, assim, tempo para se salvar sequer o que mais se desejasse salvar. E lá se foi também o álbum ao molho, durante horas e horas, nada ou muito pouco dele se tendo podido aproveitar.
E não havendo, então, no Pombalinho, casas para arrendar, foram os meus pais viver com o meu irmão e a minha cunhada, no Laranjeiro.

Sei, por uma sua certidão de nascimento, que os meus pais casaram no Reguengo do Alviela, freguesia de São Vicente do Paul, de onde a minha mãe era natural, em 14 de Maio de 1927. E sei que o meu irmão nasceu em 28 de Julho do mesmo ano. Por onde se vê que, caso o meu irmão não tenha tido um nascimento prematuro (os nascimentos aos 7 meses de gestação não eram invulgares), a minha mãe já ia grávida de 7 meses quando do casamento. Nascida a 10 de Junho de 1903, tinha então 24 anos. E o meu pai quase 27. Passando portanto um poucochinho já a média das idades com que as pessoas do seu escalão social e por aqueles lados casavam naquele tempo. E há que ter em conta que uma gravidez, ou mesmo o conhecimento de que os namorados teriam muito simplesmente chegado a vias de facto no que diz respeito a relações sexuais (casos raros, no Pombalinho e no Reguengo), eram factores que apressavam o casamento. Normalmente, isso constituía, de resto, um transtorno para os pais dos noivos, a maioria dos quais muito pobres, porque a criação das condições para a boda requeria o seu tempo de preparação, motivo pelo qual os casamentos eram sempre marcados com alguns meses de antecedência, os meses necessários para, pelo menos, se criar um carneiro. Só para o casamento de filhos de pais extremamente pobres ou em período de dificuldades acrescidas não haveria a matança de um carneiro, por parte de cada família, para a boda. De qualquer maneira, quase ninguém dispunha de meios para comprar um carneiro na altura em que precisasse dele. O recurso era comprar um cordeiro e criá-lo. E era o que se fazia.
Os meus pais casaram então em 14 de Maio de 1927. Nesse mesmo ano, em 28 de Julho, nasceu o meu irmão, a que foi dado o nome completo de António Afonso dos Santos, e em 10 de Novembro de 1929 nasci eu, Guilherme Afonso dos Santos. O que quer dizer que o meu pai tinha 29 anos quando eu nasci, e a minha mãe 26.

Como já vimos, o meu pai regressou então da tropa a saber dar injecções. E com certeza a saber tratar de feridas, também. Mas isso, normalmente cada um tratava das suas. E até lá para 1944 ou 1945 não houve mais ninguém no Pombalinho que soubesse dar injecções. Foi até o Abel Júlio (pedreiro, e mais tarde meu cunhado) e o Veríssimo Duarte (barbeiro) terem igualmente regressado do serviço militar a sabê-las dar. Mas nem por isso o meu pai deixou alguma vez de ter os seus “clientes”. Quanto mais não fosse, por uma razão muito simples: o meu pai nunca cobrou nada a ninguém pelas injecções que dava, ao passo que o Veríssimo cobrava qualquer coisa. O Abel, não me recordo se cobrava alguma coisa.
De facto, o meu pai nunca levou nada a ninguém pelas injecções que deu. E muitas vezes isso exigia-lhe grande abnegação. As injecções eram às meias dúzias e às dúzias e tinham, geralmente, que ser dadas em dias seguidos. Ora, o meu pai trabalhava de sol a sol, de segunda-feira a sábado. As injecções, portanto, excepto ao Domingo, tinha que dá-las depois de, ao sol-posto, largar o trabalho. Fosse qual fosse a estação do ano, e no Verão os dias em Portugal chegam a ter, de sol a sol, 15 horas.
Se o doente podia andar, vinha ele a minha casa, dando o meu pai aí a injecção, depois de ferver a seringa e a agulha na caixinha metálica que tinha própria para isso e de passar um bocado de algodão embebido em álcool na parte do braço ou da nádega onde ia espetar a agulha. Se o doente estava acamado, tinha o meu pai que ir, com o seu estojo, a casa dele. Quando o doente residia na aldeia, o esforço exigido ao meu pai não era grande, visto tratar-se de uma povoação de casario aglomerado. Embora fosse raro, acontecia, porém, uma vez por outra, o doente morar pelos arredores. Caso dos pescadores, por exemplo, na margem do Tejo, do lado do Pombalinho (margem direita), nada menos do que a cerca de dois quilómetros de distância.
E de um pescador me lembro eu a quem o meu pai andou a dar injecções deslocando-se a casa dele, à borda do Tejo: o António Lobo. Uma vez, pelo menos, teria eu 7 ou 8 anos, acompanhei o meu pai a casa do pescador. Passado algum tempo, ia eu a sair de casa para a brincadeira, vejo o António Lobo a chegar com um grande peixe. Perguntou-me, não sei se pelo meu pai se pela minha mãe. Voltei atrás, para ir chamar quem quer que estava em casa, e fiquei depois a assistir à oferta daquele peixe enorme como agradecimento por o meu pai lhe ter andado a dar as injecções.
Com efeito, o meu pai nunca cobrou nada a ninguém pelas injecções que deu. Acontece, porém, que as pessoas, e os pobres talvez mais que os outros, gostam de manifestar o seu reconhecimento a quem lhes faz algum bem, sobretudo se desinteressadamente. Daí que, passado mais ou menos tempo sobre cada dose de injecções terminada, o próprio “injectado” ou alguém da família viesse bater à porta da minha casa com qualquer coisa nas mãos (um frango ou uma galinha, um coelho ou uma dúzia de ovos...), como forma de agradecimento.
Além disso, e ainda pelo mesmo motivo, não faltava nunca, ao Domingo, na “Praça” (ver capítulo com este titulo), quem quisesse pagar um copo ao José Afonso.

A Praça, em 1964, já os trabalhadores rurais eram poucos.

Não sei se por isso se por outra coisa, a verdade é que, a partir de certa altura, aos Domingos, depois da “Praça”, o meu pai começou a chegar a casa quase sempre com um grão na asa. Porém, muitas vezes se seguia a semana toda sem sequer molhar o bico. Ia para casa ao regressar do trabalho e não saía mais, a não ser para ir dar alguma injecção, após o que também regressava logo a casa.
Mas houve um Domingo em que quem tinha um grão na asa era eu. Um Domingo à tarde em que estava sozinho em casa, tinha 18/19 anos, e em que chegou uma senhora a quem o meu pai andava a dar injecções. E o que havia então de se me ter metido na cabeça? Dar eu a injecção à senhora, nem mais nem menos. Disse-lhe então que o meu pai não estava, mas que eu também sabia dar injecções, pelo que podia dar-lhe eu a sua injecção.
E não é que a senhora aceitou?!... Pois bem, foi só pôr-me a fazer o que tantas vezes vira o meu pai fazer: pegar na caixinha metálica, enchê-la de água, meter nela a seringa e a agulha e pôr tudo ao lume. E a seguir fiz o resto: ensopei um bocado de algodão em álcool, esfreguei-lho no braço, onde era dada a injecção, preparei a seringa com o líquido da ampola... enfim, tudo como devia ser. E assim dei, na perfeição, a minha primeira e única injecção. O que o meu pai disse depois, não faço já a mínima ideia.

Conhecido na aldeia também como jardineiro emérito, muitas vezes os patrões para quem o meu pai andasse a trabalhar o mandavam tratar dos seus jardins. E também tratava do jardim dum senhora que vivia no Pombalinho, sozinha, numa casa logo à entrada da Rua Hilário José Barreiros, do lado esquerdo. Aliás, nessa rua só havia casas de habitação do lado direito.
Residia aí, a senhora, mas o seu jardim ficava nas traseiras dum edifício então desabitado existente na Rua Barão de Almeirim, entre a habitação do Manuel Cardoso, que tinha um talho, e a propriedade, com duas moradias, do Domingos Ferrador. A habitação e o talho do Cardoso vieram a constituir o espaço ocupado pelo Café do Francisco Minderico e o referido edifício a sua habitação e da família.
Não sei qual era o nome da senhora. E creio que nunca o soube. Era referida por todos como “a Barbuda”, não lhe tendo conhecido nunca qualquer familiar. Quando do seu falecimento, não faço ideia nenhuma de quem lhe terá tratado do funeral. A Junta de Freguesia? Alguém a quem tivesse deixado os seus bens na condição de se incumbir disso?
Creio é que a casa ficou acessível a quem quisesse entrar, pois me lembro de ter estado também junto do seu cadáver. Disso... e de ter aproveitado a ocasião para surripiar um livro duma arca. Foi com certeza um dos primeiros romances que li, se não o primeiro, e que conservo na minha biblioteca. Reli-o muitíssimos anos mais tarde e achei-o um magnífico romance policial. Trata-se de “A Queda de César”, de John R. Carling, em 2.ª edição (de 1926) da Parceria António Maria Pereira e com tradução de Câmara Lima.
Digo que não sei se esse terá ou não sido o primeiro romance que li, porque, logo que eu e o meu irmão aprendemos a ler, nas noites de Inverno líamos à lareira, revezando-nos com o meu pai, romances que, se me não engano, o meu pai levava, pelo menos em parte, da Casa do Povo, na sua qualidade de Secretário da Direcção, cargo que desempenhou durante alguns anos.
Vem a propósito dizer agora que o meu pai lia com bastante desenvoltura letra impressa, mas não sabia escrever nem ler letra manuscrita. De escrita, fazia apenas o seu nome, o que lhe dava para assinar documentos, como o cartão de Secretário da Direcção da Casa do Povo, que me lembro de ter visto, e o Bilhete de Identidade, que a seguir reproduzo.

Isso se deveu ao gosto de ensinar do Júlio da Silva Freire, com certeza uma das mais ilustres figuras que o Pombalinho já teve, e ao facto de ter aprendido já a atingir a idade adulta.
Eu ainda o conheci o Júlio da Silva Freire. E lembro-me bem de dois episódios da sua vida.
Segundo o meu pai contava, fez parte de um grupo de camponeses a que o Júlio Freire, nome abreviado pelo qual era mais conhecido, andou a dar aulas, à noite, gratuitamente. Penso que isso terá ocorrido apenas durante as noites maiores, já que durante as noites mais pequenas os camponeses, trabalhando de sol-a-sol, chegavam a casa exaustos e com pouco tempo para recuperar forças para um novo dia de trabalho, o que muito provavelmente os teria levado a dar as aulas por terminadas.
Foi, de resto, o que aconteceu comigo numa altura em que pensei aprender música e a tocar um instrumento musical. Tinha então 18 anos. O Augusto Diniz, que era do Pombalinho e tocava saxofone na banda da Azinhaga e em bailes, prontificou-se a ensinar-me a solfejar. Ainda me deu algumas lições, em sua casa, e ainda fui uma vez ou duas aos ensaios da banda, na Azinhaga. Mas aconteceu isso: chegaram os dias grandes e as noites pequenas, dias em que, muitas vezes, ao chegar a casa depois do dia de trabalho, me atirava para a cama e ficaria a dormir até à hora de levantar no dia seguinte se a minha mãe não me acordasse para cear. Acabei por desistir da música, embora tivesse bicicleta (fui, diga-se de passagem, o primeiro trabalhador rural a ter bicicleta, no Pombalinho) e se me tornasse mais fácil, por isso, deslocar-me à Azinhaga para os ensaios. Chego, todavia, a pensar que a minha desistência se terá devido mais à minha falta de entusiasmo pela aprendizagem da música, em que o instrumento da minha preferência era o clarinete, do que a qualquer outra coisa.
Pelo que ouvia ao meu pai, tive conhecimento de que houve um tempo em que ele se juntava, nos serões de inverno, com outras pessoas, em casa de uma delas, a ler romances, em livro e publicados nos jornais em folhetim (em “O Século”, por exemplo, então um diário afecto ao Estado Novo), que iam arranjando por empréstimo.
Uma das casas em que me lembro de ouvir dizer ao meu pai que havia participado nesses serões de leitura foi a do senhor Pedro e da senhora Preciosa, na Rua Joaquim Gonçalves Ferreira, pegada à fonte com o mesmo nome. Ao senhor Pedro conheci-o sempre como o maioral dos bois da família Menezes.
E foi assim que pela primeira vez ouvi falar de “O Amor de Perdição”, de Camilo Castelo Branco; de “A Rosa do Adro”, de Manuel Faria Rodrigues; de “As Pupilas do Senhor Reitor”, de Júlio Dinis; de “Camilo Alcoforado”, de Campos Monteiro; de “O Conde de Monte Cristo”, de Alexandre Dumas (pai); de “A Dama das Camélias”, de Alexandre Dumas (filho), uma parte dos quais, se não todos, também lemos em casa, á lareira, nos serões de inverno.


O meu pai gostava, pois, de ler, como se vê. E isso o levou até a formar uma pequenina biblioteca, que cabia numa simples prateleira que ele mandou fazer e colocou numa parede da cozinha, com os livros que estavam ao alcance da sua bolsa: as histórias infanto-juvenis que se vendiam nas feiras e os versos que, além de se encontrarem também nas feiras, eram igualmente vendidos de terra em terra por cegos e seus acompanhantes, normalmente um tocando acordeão e o outro cantando as letras dos referidos versos. Das histórias infanto-juvenis lembro-me de “O Menino da Mata e Seu Cão Piloto”, cuja personagem principal se chamava Guilherme, um meu homónimo, por conseguinte, o que me fazia, naturalmente, ter-lhe uma especial afeição, “O João Ratão”, “Pedro Cem”, “Branca de Neve e os Sete Anões”. “O Capuchinho Vermelho”, “A Gata Borralheira”, etc..
Gostava de ler... e acho que ao meu pai devo, pelo menos em parte, o ter-se-me esse gosto pegado, também.
E ambos o devemos, por outro lado, ao Júlio da Silva Freire. Se este não tivesse tido a benemérita disposição de ensinar camponeses a ler, e não tivesse ele próprio o gosto da leitura e o dom de o transmitir àqueles com quem convivia, eu não teria por certo, hoje, tanto que contar. E que ele tinha o dom de transmitir esse gosto aos que lhe eram mais próximos demonstra-o, sem dúvida, o gosto que pela leitura era manifesto nos seus filhos, o Júlio da Conceição Freire e a Maria Generosa da Conceição Freire, e nos seus netos, com um dos quais, o filho mais novo da Maria Generosa, Júlio da Conceição Silva, tive uma relação muito próxima, acho que fortalecida precisamente devido às nossas afinidades culturais. Quando ambos trabalhávamos (e morávamos) em Lisboa, eu como guarda da PSP e ele como barbeiro, visitávamo-mos de vez em quando um ao outro e fazíamos passeios juntos, normalmente acompanhados das mulheres e dos filhos. Lembro-me de termos ido uma vez, pelo menos, à praia (fui eu até que consegui pô-lo a nadar) e de termos visitado juntos o Museu Etnográfico Leite de Vasconcelos, no Mosteiro dos Jerónimos. Depois de eu ter partido para Moçambique, a cujo embarque ele esteve presente, a nossa relação manteve-se através de correspondência durante alguns anos.

À minha partida para Moçambique, no Cais da Rocha, em 10/10/1959. António Afonso, Elvira Moreira Silveira, José António, Violante Cruz, Preciosa Narciso da Guia, Júlio da Conceição Silva, Guilherme Afonso, Ant. Afonso Cruz dos Santos

Torno ao meu pai, para evocar a sua faceta de ensaiador de ranchos folclóricos, a que já me referi lá para trás, ao falar do celeiro onde o vi ensaiar o primeiro e em que já tinha como adjunto o Francisco de Sousa, mais conhecido por Francisco Mação, que sempre fez parelha com o meu pai em todos os ranchos por ele ensaiados.
Além do Mação, só me lembro que também fazia parte desse primeiro rancho, como tocador de ferrinhos, o António Cordoeiro, que sofria de ataques epilépticos e que viria a falecer devido a um acidente de trabalho, salvo erro ao cair de um andaime quando andava a dar serventia a pedreiros. Não sei se eu já então estava em Moçambique, ou ainda em Portugal, não conhecendo pormenores do acidente. Não será contudo despropositado, penso eu, relacionar tal acidente com a ocorrência de um dos seus ataques de epilepsia, doença que deveria tornar impeditiva a execução de certos trabalhos a quem dela sofre. Mas a pobreza a muito obriga, sobretudo quando há filhos a que dar de comer e vestir, que era o caso, nessa altura, do António Cordoeiro, pessoa por quem me ficou uma grande simpatia desde o tempo dos ensaios no celeiro, era eu miúdo. Uma simpatia que, se tal é concebível, foi ainda sempre crescendo no nosso relacionamento posterior, inclusivamente como companheiros de trabalho que algumas vezes fomos, e que eu pretendi exprimir no conto “O Zé Hóstia”, nele inspirado e o primeiro do meu livro “Circuito”. Que fique claro, porém, que o Zé Hóstia não é o António Cordoeiro. Trata-se somente da personalidade em que me inspirei para criar o Zé Hóstia, pretendendo com isso, sobretudo, prestar-lhe a minha homenagem. Veja-se, a propósito, a NOTA DO AUTOR em “Circuito”, publicado na íntegra em «www.omeucircuito.blogspot.com».

Ainda sobre os ranchos folclóricos, creio que já o primeiro que o meu pai ensaiou foi a chamada dança da roca, como nos outros dois que eu sei ele ter ensaiado e cujo instrumento – a roca - se pode ver na fotografia abaixo, à frente do grupo.
Este rancho, apresentado completo na fotografia seguinte e em que ao centro da primeira fila (de cócoras) estão, por esta ordem, o meu pai, o António Rufino (acordeonista), o Francisco Mação, o José Bacalhau e o Manuel Rato, exibiu-se em 1955.


Entre os dois ranchos referidos, ensaiou (na Casa do Povo, onde assisti a alguns ensaios) um outro, teria eu 16 ou 17 anos, o que quer dizer que terá sido lá para 1946, mais ano menos ano.
Relacionado com este gosto do meu pai por danças e contradanças (ele tinha, aliás, fama de bom dançarino), também o vi uma vez, ao ser solicitado para o efeito, a orientar, à hora de uma das refeições (o almoço ou o jantar) uma dança num rancho que andava na colheita da azeitona.
Quando o trabalho não era pesado e os dias eram pequenos, acontecia uma vez por outra o pessoal aproveitar para dar uns passos de dança à hora da refeição.
Dessa vez, como o olival dava para a estrada da estação e a refeição foi passada à borda da estrada, foi aí mesmo que se fez a dança.
E doutra vez foi mesmo na casa-de-fora da minha casa (a primeira, aquela em que eu nasci) que se realizou, à noite, o baile duma qualquer adiafa, para o que, a fim de arranjar espaço, foi preciso chegar os poucos móveis para os cantos e pô-los em cima uns dos outros. Coisa, seja-me permitido dizê-lo de passagem, que não era lá muito do agrado da minha mãe. Nem isso, nem a dedicação do meu pai aos ensaios dos ranchos folclóricos (nunca o acompanhava). Assim como não era do seu agrado, veja-se só, os cuidados que ele tinha com as flores do seu jardim. Pelo menos foi a ideia que me ficou. Não sei é se essa ideia já existia quando um dia a surpreendi a desarreigar uma roseira que o meu pai tinha plantado encostada a uma parede, no quintal da casa da Rua de Baixo, se nasceu nesse dia. Por ciúmes?... Só podia ser. Mas não deixava de colher flores para meter nas duas ou três pequenas jarras que havia em casa...

Quinta-feira, 18 de Setembro de 2008

A propósito de Júlio da Silva Freire...

... E isto me traz mais uma vez à mente, como não poderia deixar de ser, o Júlio da Silva Freire, que eu penso ter sido uma das mais ilustres figuras do nosso Pombalinho de todos os tempos. É verdade que mal me lembro dele, porque era ainda muito miúdo quando ele faleceu. Mas lembro-me perfeitamente de ter ouvido dizer que ele foi o Maestro de uma banda musical que o Pombalinho teve. Lembro-me também de uma aurora boreal vista no Pombalinho (teria eu 6 ou 7 anos) que deixou toda a gente assustada, até que o Júlio Freire (pai) explicou o que aquilo era, tranquilizando a população. Sei que a certa altura se dedicou, gratuitamente, a ensinar um grupo de camponeses, do qual o meu pai fez parte, a ler e a escrever. O meu pai só aprendeu a ler letra impressa e a fazer, com dificuldade, o nome dele, mas penso que o Júlio Freire ensinava a ler e a escrever. Penso é que os estudantes a certa altura se teriam visto na necessidade de deixar o ensino devido à chegada dos dias maiores, em que, trabalhando de sol a sol, chegavam a casa exaustos e precisados de ir para a cama o mais cedo possível, a fim de recuperarem forças para o dia seguinte.
... O Júlio da Silva Freire era ateu (ou seria agnóstico?) e que quando estava próximo do fim, de cama, teria dito: "valha-me aquele que dizem que é Deus".

Terça-feira, 10 de Junho de 2008

Um Gigante

Está ali naquela cama. É o último da esquerda, cama 10.
Nas partes descobertas - o rosto, as mãos e os pés - a sua pele mostra uma tonalidade achocolatada
Se lhe perguntam o que tem, mostra os pés inchados e fala no coração. Pés grandes, enormes. Coisa para calçado número 44 ou 45. O coração não é coisa que se possa ver, mas quem o conhece sabe que ele tem um coração que abarca o Mundo. Foi da Guarda Republicana. Saiu, porque, como dizia, não nascera para aquilo.
Viu morrer-lhe uma filha de 18 anos, a Carolina, e resistiu. Tinha mais filhos. Tinha mulher. E amigos!... Ainda era preciso viver. Viu morrer-lhe um filho de 24 anos, o João, e continuou a resistir. Viu adoecer-lhe a mulher, penar anos e anos, morrer. E resistiu. Os outros filhos davam-lhe uma razão para isso. E, enfim, os amigos.
Está ali naquela enfermaria, numa cama de ferro com lençóis a que falta alvura e uma colcha esfiapada. Uma enfermaria em que a claridade penetra a custo na superfície pouco branca das paredes e do tecto.
Quando terminou o serviço militar, foi para a Guarda Republicana. Mas não gostou daquela vida e voltou para a santa terrinha, para o campo, para a enxada, para o amanho da terra.
Ainda está vivo. Ainda resiste. Até ainda se levanta. Ou melhor, desdobra-se, desenrosca-se, multiplica-se. Por pouco não bate com a cabeça no tecto. Quase o mesmo arcaboiço de quando era um homem novo e são. Nem parece estar doente. A mesma boca e os mesmos dentes. Todos, e sãos. Nem parece ter setenta anos. Há cinco que estaria a viver da reforma, por inteiro, se se tivesse deixado ficar na Guarda Republicana.
-Estou deserto que isto acabe – diz.
Mas a sua voz não tem a ribombância do trovão, seu habitual timbre.
-A minha filha, coitada, com aquela doença, que a não deixa fazer nada; viu-se obrigada a tratar de me meter no Asilo. Mas só por isso, sei-o eu. Tivesse ela saúde, e eu não havia de acabar os meus dias num asilo.
Referia-se à segunda filha, a Rosalina, casada com o Mátempo, da Azinhaga, que toda a gente diz ser muito bom para ela, um santo. Um casal ainda tão jovem, e caíra-lhes aquela desgraça em cima.
-E o teu filho – lembra-lhe o visitante.
-O meu filho?... Ah... o meu filho... Não quer saber de mim. E o que eu fiz por ele!... É triste, esta vida.
-Mas há sempre os amigos... – riposta o visitante, procurando levar algum ânimo ao doente.
-Ah... Os amigos? Estive aqui dois meses antes de ir para o Asilo. Quando vim para o Asilo estive aqui outra vez.
Arrasta as palavras até se tornarem imperceptíveis. Cala-se, até ganhar novas forças.
-Estive mês e meio no Asilo, e agora já estou outra vez aqui na enfermaria há mais de quinze dias. Amigos!... Só quando podia andar a consolar os desgostos da sua vida com os meus desgostos. Só quando para me manifestarem a sua piedade não era preciso irem muito longe. Só quando os podia acompanhar à taverna ou mesmo na minha miséria ainda tinha alguma coisa para repartir com eles. Agora?... Amigos!... É triste, esta vida... É infame, esta pobreza... É selvagem, isto tudo... Amigos... Hospitais... Asilos...
Já nada o prende. É mesmo caso para dizer: quem o viu e quem o vê!
Já não resiste, propriamente. Subsiste.
Já não vive. Sobrevive.
Sobrevive com pastilhas, comprimidos e drageias.
Pastilhas para o coração. Drageias para urinar. Comprimidos para outra coisa qualquer. De tempos a tempos também uma injecção, graças, tudo, aos cuidados de um médico que visita os doentes de três em três dias. Isso e, naturalmente, a alimentação. Primeiro prato: arroz, sempre arroz, com caldo a saber a carne. Segundo prato: ora arroz, ora massa, muito raramente batatas, umas vezes com um pedaço de carne de carneiro, outras com uns fios de carne da mesma rês.
Está ali naquela enfermaria. Chama-se Augusto Anastácio... Um nome que não terá o privilégio de se eternizar. É um irmão, sem dúvida, mas não eterno, como aqueles cujos nomes figuram numa lápide à entrada do Hospital, este com um nome eterno mais que todos, porque de Cristo chamado.
E não terá (ele, o Augusto Anastácio) o nome na lápide do Hospital, porque não o ajudou a construir, nem a manter.
Rachou lenha; semeou, sachou, colheu e malhou ou meteu na alimentadora da debulhadora o feijão, o milho, o trigo; tratou das oliveiras e carregou com seiras cheias do bagaço a que foi extraído o azeite, nos lagares; cavou e pulverizou nas vinhas e fez o vinho nas adegas; pastou gado e esquartejou reses. Dos seus braços saiu tudo, enfim, quanto encheu os sacos dos irmãos eternos que desfilaram pelos cortejos de oferendas para o Hospital de Cristo. O mesmo que outros fazem agora para que não lhe falte ali o caldo de arroz com sabor a carneiro todos os dias ao almoça e ao jantar, nem o prato ora de arroz ora de massa, raramente de batatas, com uma amostra da mesma rês, alternadamente num naco ou desfiada, o que lhes dará o mérito de, mais tarde ou mais cedo, terem o seu nome inscrito na lápide afixada à entrada do Hospital.
Vêem-no ali?
Podia estar a receber uma reforma e ter, a troco dela, quem cuidasse dele nos dias que lhe restam de vida. Podia, porque foi soldado da Guarda Nacional Republicana. Podia, se não lhe faltasse o feitio para aquilo. Intrometer-se com este, intrometer-se com aquele, multar os pobres que andavam a fossar pela vida só porque uma farda lhe dava o direito a isso e um cavalo e uma espada o punham ao abrigo de desagravos, constituía para si um martírio constante.
Era assim... que fazer?!...
Sempre que tinha, por dever de ofício, de intervir com alguém, sentia-se mal.
Ele, que por uma justa causa era homem para os maiores cometimentos sem outra arma para a luta que não fossem os seus dotes naturais: um metro e noventa de altura, tronco largo, mãos sapudas e pés com lastro para se firmarem bem na terra. Dimensões de gigante que lhe emprestavam aos movimentos a aparência de retardados, com um simiesco baloiçar de braços e passadas de pato marreco.
Até certa altura foi um homem quase feliz, como quase todos os outros homens até que lhes não aconteça nada de especial na vida.
Cresceu atrás dos porcos e das ovelhas, passou aos trabalhos dos homens com 13 anos, vestiu o seu primeiro fato completo (calça, colete e jaqueta), de serrubeque, no dia em que foi à inspecção para o serviço militar. Foi à tropa, casou, vieram os filhos, etc., etc..
E passou pela Guarda Republicana. Mas não gostou. Porque queria ser senhor de si, não ter satisfações a dar a ninguém durante algumas horas por dia, e nos dias inteiros em que não tivesse trabalho ou fosse Domingo ou feriado. Porque queria ir para onde muito bem lhe apetecesse, quando muito bem lhe aprouvesse.
Por isso não quis nunca, também, ajustar-se ao ano. Nem hortelão, nem guarda de coisa nenhuma, nem maioral de nada. Nem capataz, nem abegão, por muitas honras, e às vezes proveito, que tais cargos costumavam trazer.
Está ali, naquela cama de hospital. Um herói sem estátua, sem o nome em qualquer lápide; um herói que, como tantos outros seus iguais, nunca constará de qualquer efeméride.


Nota - Infelizmente, algumas vezes me esqueci de datar o que ia escrevendo. E foi o que aconteceu neste caso. E agora, ao “resgatar” dos meus arquivos, tantos anos passados, este apontamento suscitado por uma visita que fiz, com o meu pai, ao Augusto Anastácio, estava ele então internado no Hospital de Santarém, já não posso sequer precisar se isso ocorreu em 1964 ou em 1977, as duas primeiras vezes (com um intervalo, por conseguinte, de 13 anos) em que estive em Portugal, depois de ter vindo para Moçambique. Considerando, porém, vários aspectos, como, por exemplo, a idade com que, mais ou menos, faleceram a Carolina e o João Anastácio e a idade que eu então tinha, sou levado a supor que o Augusto Anastácio seria um bocado mais velho que o meu pai. Daí, e também dada a referência à sua idade nesta minha narrativa como sendo então de 70 anos, ser também levado a pensar que a mencionada visita teria ocorrido em 1964. Terá sido?...

Maputo, 25 de Maio de 2008

Quarta-feira, 21 de Maio de 2008

Dá alguma coisa ao necessitado?

Tinha eu entre 9 e 12 anos. Finais, portanto, da década de trinta e princípios da década de quarenta. Numa população de cerca de mil habitantes que a minha aldeia teria nessa altura, a maioria era, como em qualquer outro lado, gente pobre. Os ricos eram meia dúzia de famílias. Mais meia dúzia de famílias, os remediados. Entre os pobres havia também uma certa diferenciação. Verificava-se ela entre os que tinham um ofício e os que o não tinham, porque não se chamava ofício, nem chama, ainda hoje, ao manejo da enxada, da pá, da forquilha, do machado, do serrote, da tesoura de poda, etc. Ofício tinham os pedreiros, carpinteiros, serralheiros, geralmente trabalhando por conta de outros e já com as oito horas de trabalho conquistadas, e os alfaiates, barbeiros, sapateiros, ferradores, ferreiros, tanoeiros, marceneiros, em geral com o seu estabelecimento próprio e trabalhando por encomenda. Estes não tinham horário de trabalho. Trabalhavam mais ou menos horas, se necessário até aos Domingos, consoante as encomendas. Os barbeiros, aliás, tinham a barbearia aberta aos Domingos, porque esse era um dos dias em que tinham mais clientes, por ser o dia de descanso dos outros. Para os trabalhadores rurais, ou agricultores, como também eram tratados os que trabalhavam na agricultura, o seu horário era de sol a sol, o que significa que iniciavam a jornada de trabalho quando o Sol despontava e só despegavam com o Sol já escondido (Sol posto). Fosse qual fosse a distância a que ficasse o local de trabalho. Para descanso e refeições havia uma hora, das 10 às 11 (almoço), enquanto que para o jantar havia 1 hora (das 14 às 15) durante uma parte do ano (nos dias mais pequenos) e 2 horas (das 14 às 16) durante o resto do ano. Como antes de sair para o trabalho toda a gente tomava a primeira refeição (para a maior parte, e a maior parte das vezes, constituída por café de cevada e chicória com migas) e à noite, no regresso a casa, se tomava mais uma refeição (a ceia), as refeições eram, por conseguinte, quatro por dia.
Tudo isto para chegar aos mais pobres de entre os pobres, aqueles que, além dos salários de miséria, viam as suas dificuldades acrescidas por doenças, particularmente pela tuberculose. Procedia-se então a peditórios de porta a porta, o que tinha de ser feito, já se vê, aos Domingos ou feriados. Para isso era preciso que alguém se disponibilizasse para o efeito. Normalmente duas pessoas. Uma que pedia, outra que escrevia o nome de cada contribuinte e a respectiva dádiva. Sempre aparecia alguém, e muitas vezes eram os próprios que iam de porta em porta, que, para ajudar um companheiro, tomavam a iniciativa.
O Augusto Anastácio era um desses. Ele e os meus pais eram compadres, porque os meus pais haviam sido os padrinhos de duas filhas dele. Eu também o tratava por compadre. Pois bem, de cada vez que o Augusto Anastácio, analfabeto, como a quase totalidade dos camponeses com mais de vinte e cinco ou trinta anos naquela altura (e ele já tinha mais de quarenta) – de cada vez que o Augusto Anastácio, dizia eu, pensava fazer um peditório para algum companheiro em maiores dificuldades, logo pensava em mim para o acompanhar, a fim de registar os que davam e quanto davam.
E lá íamos então, eu e ele, bater a todas as portas:
- Dá alguma coisa ao necessitado?
- Quem é o necessitado?
Dada a resposta, lá vinha, ou não vinha, a contribuição. Mas eram poucos os que não davam. Nalguns casos, por simplesmente não terem mesmo nada para dar. Com dádiva ou sem ela, havia sempre uma palavra de quem quer que atendesse. Em geral de consternação pela situação do conterrâneo caído em desgraça. Em geral... porque também acontecia ouvirem-se comentários depreciativos, críticas. Ou porque o necessitado ia gastá-lo em vinho, ou porque tinha chegado ao que chegara por falta de cabeça, ou porque mais necessitado sou eu, etc.
- Dá alguma coisa ao necessitado?
E lá íamos recolhendo cinquenta centavos daqui, um escudo dali, umas moeditas de vinte e cinco tostões ou de cinco escudos às portas dos ricos e dos remediados. Era num tempo em que a jorna do camponês variava entre uns seis ou sete escudos, nos dias mais pequenos (Outono, Inverno) e dez, onze ou doze nos dias maiores.
Lembro-me que, pelo menos uma vez, fomos também ao Reguengo do Alviela, que era a terra da minha mãe, um pequeno lugar a cerca de dois quilómetros do Pombalinho. Por atalhos. Por estrada era um bocado mais. Suponho que o fizemos porque o necessitado desse dia, embora morasse no Pombalinho, era do Reguengo.
Completado o peditório, lá nos dirigíamos para casa do necessitado, onde apresentávamos o valor recebido e a relação com os nomes dos que haviam contribuído, e onde se petiscava qualquer coisa, com um copito de vinho a acompanhar. Petisco e copito comprados, pelo menos na maior parte dos casos, depois de chegarmos, já com dinheiro do peditório.
-Dá alguma coisa ao necessitado?

Quarta-feira, 23 de Abril de 2008

As iguarias

Ao tender, uma vez por outra sobrava, ou fazia-se sobrar, um bocado de massa para uma destas iguarias: ou um pãozinho em que se misturava canela, e creio que azeite, na massa; ou um pãozinho em que se metia na massa uma gorda sardinha, depois de amanhada, e que ficava com a forma da sardinha, ou seja, oblongo.
Eram as iguarias dos pobres, que como essas tinham várias outras e das quais se dizia que eram de lamber os beiços ou de comer e chorar por mais. Com o pão de milho por base, de mais duas me estou a lembrar e não resisto a descrevê-las. Uma era a tiborna. Logo ao tirar-se o pão do forno - bem quente, portanto - partia-se um naco em bocados pequenos, não muito, para um prato. Juntava-se-lhe azeite e alho e misturava-se tudo bem. E comia-se logo a seguir. Outra era cortar uma fatia de pão, fazer-lhe uns traços à superfície, com um canivete, e pô-la nas brasas. Depois de bem torrada, friccionava-se bem com um dente de alho e cobria-se com um fio de azeite, dos dois lados. Esta fazia-se, às vezes, para as refeições no campo. E era mesmo de comer e chorar por mais.

Sábado, 19 de Abril de 2008

Saramagos e cangarrinhas

Do saramago, que consta nos dicionários dos vários autores e editoras que consultei, dizem os mesmos, resumindo, que se trata de uma planta comestível; e da cangarinha, que não consta de todos aqueles dicionários, que se trata de um cardo frequente em Portugal, também conhecido por cardo-de-ouro.
Ora, no Pombalinho, tão comestível era o saramago como a cangarinha. Isto, se cangarinha, segundo os dicionários, é a mesma planta, e tudo me leva a crer que sim, a que no Pombalinho, provavelmente por corruptela, chamávamos cagarrinha.
O certo é que tanto um como a outra vinham em boa altura, porque vinham no tempo em que o dinheiro era ainda mais escasso que no resto do ano. Ou seja: vinham no inverno, quando, não só por causa das cheias, mas também por essa ser, já de si, uma época em que a actividade agrícola abrandava, muitos camponeses às vezes ficavam semanas sem trabalho.
Deitava-se então mão ao saramago e à cangarinha, que despontavam sobretudo nas terras semeadas de trigo. Os proprietários não se opunham. Tratando-se de ervas daninhas, até lhes dava jeito. Já ficava menos erva para mondar, mais um trabalho que eu fiz, tinha doze ou treze anos, metido num rancho de mulheres. Hoje, com os herbicidas, já não há mondas, naturalmente. E saramagos? E cangarinhas? Ainda haverá? No prato dos pobres, pelo menos, o mais certo é já não haver. Pobres que, de resto, e falando dos da minha terra em particular, são hoje, e ainda bem que assim é, muito menos pobres, Quanto mais não seja devido à assistência social de que actualmente fruem e que naqueles tempos, com excepção de consulta médica duas ou três vezes por semana, na Casa do Povo, para os sócios e familiares de si dependentes, era igual a zero. Note-se que como sócios da Casa do Povo só eram admitidos os trabalhadores rurais, terminologia oficial, ao tempo, para os mais vulgarmente chamados trabalhadores do campo, e que a quota mensal era de 3$00 (três escudos). Significa isso que os operários não eram aceites como sócios, não beneficiando, por conseguinte, da referida assistência médica.
Os saramagos substituíam as couves e os nabos. Muito simples, portanto. As cangarinhas não substituíam nada, acho eu. Como dizem os dicionários, trata-se de um cardo. E os cardos têm espinhos. Mesmo sendo de ouro, como, segundo ainda os dicionários, se chama a este. Por isso, ripava-se a nervura central das folhas, a qual era depois cortada em bocadinhos e cozida com feijão branco e chispe ou orelha de porco. Fazia um belo prato. Só que um bocado mais caro, por causa da carne. Por isso, e creio que também por ser precisa muita cangarinha para uma só refeição, comia-se muito menos vezes cangarinhas que saramagos.
Falando em saramagos, não pode deixar de vir à baila a história do José Saramago. Como ele próprio tem dado a conhecer, Saramago era alcunha da família paterna, tendo passado, nele, por lapso do empregado do registo civil que tratou do seu registo de nascimento, a apelido. Os restantes Saramagos da Azinhaga continuaram a sê-lo por alcunha e, muito provavelmente, a passarem a alcunha aos filhos.
O mais interessante, porém, e por isso este intróito a propósito da família Saramago, é que também havia, na Azinhaga, pelo menos um Cagarrinha (neste caso mantenho a corruptela, já que era assim mesmo que chamávamos àquele companheiro).
Sim, companheiro, o Cagarrinha, tanto como um dos Saramagos, o João, salvo erro. Companheiros, umas vezes, e outras adversários. Com efeito, houve um tempo em que jogámos os três na mesma equipa de futebol, a da Azinhaga, num campeonato da FNAT ( Fundação Nacional para a Alegria no Trabalho). Como o Pombalinho não tinha uma equipa de futebol devidamente organizada e oficializada, e por isso não estava em condições de entrar fosse em que campeonato fosse, quando a Azinhaga entrou no tal campeonato da FNAT e o Augusto Souto Barreiros me convidou para ir jogar pela Azinhaga, eu fui. Eu, mais os irmãos António e José Leal, o António Maria Duarte, filho da Isaura (havia outro António Maria Duarte, dois ou três anos mais novo e filho do Izidoro Duarte “Sapateiro”) e o Manuel “Barão” (Manuel António Correia Bento). Mas muito mais vezes fomos adversários. Fomo-lo nos jogos que desde adolescentes combinávamos, os do Pombalinho e os da Azinhaga, e em que eu jogava pela minha terra e eles pela sua. E que, sem balizas a sério e sem árbitro nem juízes de linha, raramente chegavam ao fim, por desentendimento nas faltas e na validação dos golos.

Quarta-feira, 16 de Abril de 2008

A casa, o gado e a criação

As casas das famílias camponesas eram casas térreas, geralmente com duas divisões: cozinha e casa de fora. Uma ou outra tinha a casa de fora dividida, dispondo, assim, também de um quarto. Algumas famílias tinham casa própria; as restantes viviam em casa alugada. E toda a casa tinha o seu quintal, no qual se criavam galinhas e coelhos (mais coelhas que coelhos), um porco ou uma porca, às vezes um carneiro ou uma ovelha, e se tinha uma cabra.
Com as galinhas havia sempre um galo, pelo menos, para as galar. E com as coelhas, um coelho, para as cobrir. O objectivo era a produção de ovos e de carne, de que uma parte se consumia em casa: os ovos sempre que os houvesse e a carne nos dias de rancho melhorado (Domingos e feriados). A outra parte, menor no caso dos ovos e maior no caso de galinhas e coelhos, era vendida aos compradores que de carroça percorriam as aldeias a comprar tudo isso, para, pelo menos no caso do Pombalinho e aldeias próximas, abastecerem o mercado de Lisboa, para onde tudo era despachado em canastras, via caminhos de ferro. Tanto no caso dos galináceos como no dos coelhos, de cada nova ninhada os machos eram vendidos ou consumidos em casa logo que atingissem tamanho para isso, visto não darem qualquer outro rendimento. No caso dos coelhos fazia-se ainda algum dinheiro com as peles, vendidas aos mesmos compradores ou a ferros-velhos também ambulantes. No Pombalinho havia um desses compradores, o Francisco Duarte, por todos mais conhecido por Chico Pardal, que também era barbeiro e bom actor cómico e que uma vez por semana, em dia certo, dava a volta à aldeia fazendo o seu pregão. Mas também por ali passavam, de vez em quando, não sei se igualmente em dias certos, um comprador de Vale de Figueira e outro do Sobral (São Vicente do Paul). Quanto a ferros-velhos, passou durante algum tempo pelo Pombalinho, de bicicleta, um de Alcorochel (Torres Novas), chamado José Moita. Deste lembro-me o nome porque mais tarde trabalhámos juntos no forno do Alviela.
Falando de galos, também posso falar de capões, que são galos castrados, ou melhor, capados, que era o termo que, naquele tempo e por aqueles lugares, eu e toda a gente conhecia e usava. Não sei se ainda se capam galos em algum lugar do mundo, mas é coisa que já se fez. Era eu miúdo, vi um capão (um galo enorme!) no Reguengo do Alviela e conheci o capador, então já um velhote.
Quanto ao porco, de tempos a tempos passava alguém pela aldeia a vender bácoros. Comprava-se um, que ia para a pocilga e, passadas algumas semanas, mandava-se capar, para melhor encorpar. Com os testículos, bem assados e devidamente temperados, fazia-se um belo pitéu.
Diz-se que o porco come de tudo. Se assim não é, muito longe disso não andará. A esses porcos criados em casa dava-se, consoante a sua fase de crescimento e a época do ano, hortaliça e algumas plantas silvestres, cozidas e misturadas com farelos, bolota, abóbora, bagaço (e já disse que bagaço, no Pombalinho, eram os resíduos da azeitona) e milho. Restos de comida é que não era muito provável dar-lhes, pela simples razão de que seria mais difícil haver sobras de comida do que passar um camelo (ou será mesmo uma corda, como pretendem os exegetas?) pelo cu duma agulha. Quanto ao resto, a hortaliça também não seria muita, porque era preciso comprá-la; os farelos eram os que se obtinham ao peneirar a farinha para as coseduras semanais; as plantas silvestres e a bolota iam apanhar-se onde se soubesse que existiam; o bagaço, relativamente barato, era comprado à porta (a vendedores ambulantes), nalgumas lojas (na do Francisco Borges, por exemplo), ou directamente aos donos dos lagares, que o conservavam em grandes depósitos escavados no chão; a abóbora, aliás da espécie chamada porqueira, e o milho vinham das searas, conforme já foi dito. E dito foi também, na mesma altura, que o milho era dado ao porco quando a sua matança já estava para breve, por ser o que melhor o engordava e, creio eu, também porque dava melhor sabor à carne, assim se juntando o útil ao agradável.
A matança poucos a podiam fazer em casa, para meterem a carne na salgadeira e pendurarem os enchidos no fumeiro. A maior parte tinha de vender o bicho, para liquidar ou pelo menos amortizar a dívida na mercearia. Se a mercearia de onde cada família se abastecia, e onde, portanto, teria a dívida, também vendia carne de porco, era para aí que o animal normalmente ia, vendido à arroba (15 quilos). Se não, ia para outro lado qualquer, mas o dinheiro da sua venda tinha que ir, no todo ou em parte – uma boa parte – para a mercearia em que se tinha a dívida. Caso se quisesse, naturalmente, continuar a poder comprar fiado, na mesma ou noutra qualquer mercearia. Porque numa aldeia tudo se sabe. E sabendo-se, a respeito de alguém, que é caloteiro, o mais certo é acabarem-se-lhe os fiados.
Havia, de resto, famílias nessa situação. Por falta de orientação do chefe da família (por exemplo, ir este frequentemente para a taverna para beber uns copos ou para o jogo do chinquilho ou da bisca, o que também ia dar aos copos, ora a perder, ora a ganhar, e estava quase sempre associado ao hábito do cigarro); por falta de saúde; por falta de trabalho, coisa que podia agravar-se, neste último caso, se o chefe da família tivesse fama de calão. De resto, o mais certo era essas famílias nem porco criarem, por não conseguirem juntar o dinheiro para comprar o bácoro.
Uma cabra, só alguma das famílias que não criava porcos poderia não a ter também, e pelo mesmo motivo.
A cabra normalmente comprava-se só uma vez, ainda pequena, também. Era a primeira que se comprava, depois de se constituir família. Acabada de criar, conservava-se, porque a finalidade era obter dela o leite, especialmente para a alimentação das crianças.
Quando chegava o cio, pedia-se a alguém que tivesse um bode, que é como quem diz, a algum lavrador que tivesse rebanho de cabras, para deixar levar a cabra ao seu bode, para a cobrição. Nascidas as crias, estas eram vendidas, geralmente para os talhos da terra. Só quando a primeira cabra já tivesse uns anos se ficava com uma das suas crias, vendendo-se então a mãe.
Um borrego comprava-se depois de marcada a data do casamento de um filho ou de uma filha, coisa habitualmente feita com alguns meses de antecedência, para criar e depois matar para a boda.
Ruminantes e roedores são herbívoros, como se sabe. O que significa que para se alimentar esta bicharada em casa era preciso ir-se à procura de erva e de rama ao campo, quase sempre furtivamente, porque tudo tem dono, e dono só dá quando colhe algum benefício do que dá. Era o caso da desponta do trigo. Havia searas a que convinha despontar o trigo em certa fase do seu crescimento. Não sei porquê, mas suponho que por se apresentar com um crescimento excessivo devido a condições climatéricas demasiado favoráveis. Então os donos tornavam público que quem quisesse ir despontar o trigo na sua seara situada em tal ou tal propriedade podia fazê-lo. Não faltava quem aproveitasse, exactamente para dar aos herbívoros que tinha em casa. E, assim, os proprietários evitavam pagar a quem fizesse o serviço. Lá diz a vox populi: viver não custa; o que custa é saber viver.
Fora isso, que era muito pouco, porque a bicharada tinha de comer todos os dias, pegava-se numa saca e numa foice, para a erva, ou numa corda e num serrote, para a rama, e partia-se para onde parecesse que melhor se poderia conseguir encher a saca ou fazer o molho. Este tornava-se um bocado mais difícil de fazer, porque era preciso trepar às árvores e serrar os ramos, salvo quando se tratasse da rama das oliveiras, porque, destas, o que o gado comia bem eram os rebentos, tenrinhos, nascidos na base dos troncos. As outras árvores cuja rama o gado consumia, e a que tinha mesmo de trepar-se para a colher, eram o choupo, o freixo e o salgueiro, abundantes na região.
Dada a dificuldade para as mulheres em subirem às árvores, maior do que para os homens, como facilmente se compreende, quanto mais não seja porque as mulheres não usavam calças e muitas delas nem cuecas tinha (está a ver-se o embaraço, não?), havia homens que se davam ao cuidado de providenciarem eles pela rama sempre que possível, chegando a irem buscá-la ainda antes de saírem para o trabalho, no qual, como já foi dito, tinha de pegar-se ao nascer do Sol. Outras vezes, era depois da despega – depois já do sol-posto, portanto - que ainda se metiam por algum arvoredo que ficasse no caminho, para cortarem uns ramos e carregá-los para casa.

Terça-feira, 25 de Março de 2008

Trabalho na Adega

E também trabalhei numa adega, em 1949, no ano imediatamente anterior, portanto, ao do meu alistamento no serviço militar.
Foi na Adega Nova, a maior do Pombalinho. Era a adega das Meiras, de Alpiarça. Tinham uma grande vinha no Reguengo do Alviela e as uvas eram transportadas pelo José Leal, na sua camioneta de aluguer, da vinha para a adega. Passava pela rua em que eu morei até aos 16 ou 17 anos (Rua Carolina Infante da Câmara) e nunca vi aquelas uvas terem sido transportadas de outra maneira.
Quando era miúdo, algumas vezes roubei uvas da camioneta, com outros miúdos. Deve, com certeza, ter sido uma prática de todas as gerações de miúdos das proximidades. Aproveitávamos uma curva muito apertada que a camioneta tinha que dar ao entrar no Pombalinho, carregada, e duas acácias plantadas ali mesmo à beira da curva, atrás das quais nos escondíamos à espera que a camioneta nela entrasse. Corríamos então para a camioneta, pela parte de trás, trepávamos, agarrados aos taipais e, com os pés em cima do pára-choques, deitávamos as mãos aos cachos que enchiam, até bem ao cimo, dois grandes recipientes metálicos (tinas) ajustados às dimensões da carroçaria, e toca a pirarmo-nos.
A vindima das Meiras levava cerca de um mês, feita por um rancho de uma trintena de raparigas. E um rancho de outros tantos homens (mais homem, menos homem) levava o mesmo tempo a fazer vinho na Adega Nova. O que quer dizer que pisei muita uva; fiz muita força agarrado às alavancas das prensas para se espremer até à última gota o mosto que as uvas ainda tinham para deitar; carreguei aos ombros muito cesto bem cheio de engaço, e bem pesado, dos patamares para depósitos cavados no chão, de onde haveria de ser depois levado para o alambique, para dele se extrair a boa bagaceira.
Além do vinho, nas adegas também se fazia sempre, e continua a fazer, pelo que sei, alguma água-pé, bebida de baixo teor alcoólico cujas pipas se abrem pelo São Martinho, em Novembro, consumindo-se a água-pé sobretudo no inverno, quando, fresquinha, e ao ser servida como deve ser, se vêem bolhinhas a subir por ela acima. Agora, que eu sei o que é champanhe, não me parece descabido chamar à água-pé o champanhe dos pobres.
Para fazer a água-pé, espalha-se no patamar, antes de ser exprimido até ao fim, o engaço que esteja a ser prensado, espalha-se-lhe alguma água por cima, mistura-se bem, e volta a ser prensado.
Saiba-se que, tanto na adega como no lagar, o horário de trabalho não era o habitual de sol a sol. Pela especificidade dos procedimentos inerentes ao fabrico do vinho e do azeite, tinha normalmente de entrar-se a trabalhar pela noite dentro. Mas o salário era o ajustado no início, contando-se já com essa especificidade. Quer dizer, não havia horas extraordinárias.
Num dicionário consultado (“Dicionários Editora da Língua Portuguesa”, da Porto Editora Multimédia), adega é a “parte de uma casa em que se guarda o vinho ou o azeite e outras provisões”, e lagar é, numa das suas acepções, “casa com aparelhagem para se fazer vinho ou azeite”, ou seja, adega e lagar são igualmente aplicáveis no que diz respeito ao vinho e ao azeite.
Sucede o mesmo em relação a bagaço (“resíduo de alguns frutos, caules ou colmos, depois de pisados e espremidos, como o de uva, o de azeitona, e de cana-de-açúcar, etc.”), mas já em relação a engaço, uma das suas acepções, aquela que para aqui nos interessa, o define como “parte que fica do cacho de uvas depois de esbagoado”, se bem que no mesmo dicionário bagaceira tenha como definição “aguardente do bagaço de uva” (o sublinhado é meu).
Noutros dicionários consultados, não encontrei diferenças dignas de nota.
Pois bem, no Pombalinho, adega é a casa onde se faz e se guarda o vinho; lagar é - embora, pelas razões atrás aduzidas, hoje certamente já só como conceito - a casa onde se faz e se guarda o azeite; bagaço são os resíduos da azeitona, e engaço os resíduos dos cachos de uvas. O que leva a uma conclusão: é a sabedoria do povo a fazer uso da semântica, para claramente se entender.

Quarta-feira, 19 de Março de 2008

Os Quintais

Toda a casa tinha (e continua ter, certamente) o seu quintal. Maiores uns, com espaço até para um bocadinho de horta, mais pequenos outros, com espaço apenas, e nalguns casos apertado, para a capoeira, para a coelheira, para a pocilga e para o curral e, ainda, para a estrumeira. Também havia quintais com poço. Com poço e com tanque, para lavar a roupa e para regar a horta, caso a houvesse. E quem diz a horta, diz as flores, em canteiros ou em vasos. Em vasos, quase não havia quem não tivesse umas florinhas. Em canteiros, era raro. Só alguém como o meu pai, que nasceu para jardineiro, com certeza. Coisa que, no entanto, e profissionalmente falando, nunca foi. Onde quer que morássemos (e mudámos de casa várias vezes), todo o bocadinho que desse para isso era por ele aproveitado para plantar flores. Mas disso falarei pormenorizadamente num capítulo que dedicarei à família.
A estrumeira era para onde ia todo o esterco feito pela gado e para onde se despejavam os penicos ou directamente se faziam as necessidades fisiológicas, porque casa de banho era coisa que as habitações dos camponeses não tinham.
Da limpeza das camas do gado também os homens (maridos e filhos) é que geralmente se ocupavam.
O esterco era usado, naturalmente, para estrumar a terra, sendo duas as hipóteses do destino a dar-lhe. Ou usá-lo em sementeira própria, ou vendê-lo.
O uso em sementeira própria acontecia quando algum proprietário cedia terra a algumas famílias para nela semearem batatas. E como, salvo erro, o proprietário não ficava com batatas nenhumas, julgo que a concessão era feita a troco, precisamente, de uma boa estrumadela – uma estrumadela cujo efeito perdurasse para a utilização que da mesma terra o dono a seguir fizesse. Não era isso, porém, coisa muito frequente nem feita em grandes proporções. Se bem me lembro, só dois ou três pequenos lavradores faziam essa concessão de terras para a sementeira de batatas. Mas que era um bom meio para algumas famílias ficarem abastecidas de batatas por algum tempo, isso era. Resta dizer que estrumar, cavar a terra, semear as batatas e depois arrancá-las era trabalho para toda a família a um domingo ou em dia feriado, que eram os dias chamados de descanso. Uma ou duas sachadelas, feitas em tempo oportuno e quando a disponibilidade o permitisse, para que a erva não prejudicasse o crescimento das batateiras, isso também ficava ao cuidado da mulher.
Quando o esterco era vendido, era-o à carroçada, normalmente também a pequenos lavradores ou a rendeiros de terras, para sementeiras diversas (de favas, por exemplo) ou para hortas.

Quarta-feira, 12 de Março de 2008

Outros afazeres da Mulher casada!

Começo por onde acabei – pelo milho.
O milho, em geral amarelo e obtido conforme acabei de descrever, destinava-se a ser transformado em farinha, e esta em pão, salvo uns punhados que uma vez por outra eram atirados aos galináceos e uma quantidade maior destinada à engorda do porco ao aproximar-se a matança.
Para a transformação do milho em farinha, ocorriam duas situações, o que se devia ao facto de não haver no Pombalinho, apesar de terra de tanto milho, uma única moagem. Já teria havido, certamente, pois que havia na aldeia uma construção antiga, de dois pisos, servindo então de celeiro e de adega, conhecida por “a moagem”. Por outro lado, lembro-me de ouvir dizer que o Joaquim Gonçalves Ferreira, pessoa de quem espero voltar a falar, tivera uma moagem na parte do edifício, grande e também de dois pisos, onde o que eu sempre conheci foi a Casa do Povo.
A moagem então mais próxima, com a sua mó movida por uma azenha implantada na margem direita do rio Alviela, ficava em São Vicente do Paul, à beira da estrada e próxima da igreja e do cemitério, situados do outro lado do rio e da ponte.
Para a moedura do milho, havia então duas situações: alturas em que o moleiro de São Vicente do Paul vinha ao Pombalinho, numa carroça, recolher o milho e trocá-lo por farinha, e outras em que ele não aparecia e tinham as mulheres que levar o milho à moagem, carregando-o à cabeça. Juntavam-se sempre, para isso, duas ou três vizinhas que calcorreavam, por atalhos, normalmente descalças e muitas vezes fazendo-se acompanhar pelos filhos pequenos (foi assim que eu algumas vezes fiz esse percurso), os 5 ou 6 quilómetros que separavam as duas povoações.
A cozedura do pão (pão de milho, a substancial broa a que no Pombalinho ninguém chamava assim) era uma operação semanal. Pelo conhecimento que a experiência dá, cada dona de casa amassava num alguidar de barro a quantidade de farinha necessária para a fornada da semana, à qual misturava uma porção de farinha de centeio e o bocado de massa da amassadura anterior deixado a fermentar para o efeito. Cobria-se então o alguidar com um cobertor para que a massa levedasse mais depressa. Depois, passado o tempo calculado necessário para o efeito e a fim de precisar o momento de deitar as mãos à tigela apropriada e começar a tender, a padeira ia espreitando a massa, disso dependendo também a determinação do momento próprio para se pôr o forno a aquecer.

Terça-feira, 4 de Março de 2008

A Lenha

A saga das mulheres e da cachopada continua. Já falei de como era angariada uma parte do combustível para as necessidades caseiras: as vides. Mas as vides, além de arderem depressa, eram uma diminuta fracção do combustível necessário para um ano inteiro. Pelo que tinha de se recorrer a outros meios para arranjar o resto. Quando as finanças o permitiam, e fazia-se por isso, comprava-se lenha extraída das oliveiras por altura da destronca.
E aqui falo de destronca, não de limpeza.
Com efeito, tendo em vista manter a ramagem viçosa e boa a produção, em cada período de cinco anos havia esses dois tipos de tratamento às oliveiras.
O processo obedecia ao seguinte esquema:
Ao quinto ano de cada ciclo, as oliveiras eram deixadas apenas com algumas pernadas, pelo que a principal ferramenta utilizada na operação era o serrote. No ano seguinte, a produção era quase nula e apanhada à mão (ripada), para que os ramos novos não sofressem danos. E depois da colheita fazia-se então uma limpeza: um desbaste dos ramos, de maneira a deixá-los formando uma copa tanto quanto possível circular, em forma de cálice, nisso se fazendo valer a perícia do operador, que nesse caso usava muito mais a tesoura de poda que o serrote. No ano seguinte, a azeitona, já em maior quantidade, mas com uma produção ainda escassa, voltava a ser ripada. Até nova destronca, a azeitona, com a produção sempre em crescendo, se bem que dependente das condições atmosféricas de cada ano, passava geralmente a ser varejada.
Como os olivais eram muitos e cada um dos grandes proprietários possuía vários, naturalmente que eles próprios predispunham as coisas para que as destroncas se intercalassem, por forma a poderem obter uma colheita equilibrada todos os anos. O que significa que também todos os anos havia lenha de oliveira à venda.
E, portanto, quem o podia fazer, aí ia buscar, comprando-a, como já disse, uma carrada, pelo menos. Porque nem todos podiam. Assim como havia um ou outro que podia comprar mais. E comprava. Mesmo entre os mais pobres, há uns mais pobres que outros. Evidentemente, como diria o Manuel Cameiro, avô materno de um dos capitães da Revolução dos Cravos (o Costa Brás) e proprietário que, numa escala de três níveis – pequenos, médios e grandes – classificarei de pequeno. Donde lhe veio a aprendizagem do termo, nada usual naquele meio e naquele tempo, não sei. O que sei é que ele o usava por tudo e por nada e que, por causa disso, o pessoal às vezes o parodiava.
Voltando à lenha, resta dizer que as vides e a carrada de lenha de oliveira, quando comprada, não chegavam para as encomendas, como sói dizer-se (perdõe-se-me o arcaismo), nem coisa que se parecesse. De onde... a necessidade de roubar (Que palavra feia!) o resto. E que era tarefa (mais uma...) sobretudo para as mulheres.
Onde se pudesse deitar a mão a uns gravetos, a umas raízes secas (no mato, que ficava para lá da Linha do Norte, pelo menos dois quilómetros andados), a umas cavacas, para aí se caminhava, de serrote ou sacho e de corda ou saca, tão disfarçadamente quanto possível e evitando maus encontros. Era um jogo constante do gato e do rato. E a minha mãe não se livrou de ter também sido multada uma vez por andar à lenha, por sinal na Requeixada.
Se a expedição corria bem, era vê-las no regresso (juntavam-se sempre duas ou três vizinhas para a jornada), com o molho ou a sacada à cabeça, usando a sogra de permeio, para melhor equilibrar a carga e para evitar o contacto de coisas duras com o crânio.
As cavacas, eram mais os homens que iam à sua procura, coisa que faziam especialmente no inverno, em dias sem trabalho. E para isso a ferramenta adequada era uma sega, ferramenta grossa, de ferro, utilizada especialmente para abrir buracos em chão duro ou pedregoso. Numa terra de tanta oliveira, era, naturalmente, nos troncos já carcomidos das oliveiras mais velhas que se tentava arrancar as cavacas, metendo a sega pelos interstícios. O que exigia força. E daí que os homens fossem mais dotados para isso. Algumas vezes eu vi o meu pai sair para ver se trazia umas cavacas, que bom jeito faziam para a fritura dos tradicionais velhós (assim se chamava no Pombalinho às filhós) e coscorões, na noite de Natal.

Terça-feira, 26 de Fevereiro de 2008

Cuidar do marido, dos filhos e da casa!

Dizia eu (pág. 2) que, no Pombalinho, a mulher casada cuidava do marido, dos filhos, da casa e do mais que se verá. Pois bem, o mais que se verá, já vimos... E cuidar do marido (além dos específicos deveres de esposa) e dos filhos, assim como de si própria e da casa, era, naturalmente, preparar a comida, tratar da roupa e manter a casa limpa e arrumada.
A comida dos pombalinhenses tinha por base uma sopa grossa, de couves, e às vezes nabos, com feijão branco e azeite, produtos abundantes na região. Os nabos consumiam-se mais em determinada época do ano, uma época em que o Veiga semeava no Mouchão, do outro lado do Tejo, grandes nabais, e vendia depois cada braçada de nabos (a medida era um baraço dos que se usavam para atar os molhos de trigo e cuja bitola era exactamente a distância entre as duas mãos, com os braços estendidos), com as suas magníficas cabeças, a cinco tostões ($50) a braçada. E, claro, lá iam as mulheres, às vezes acompanhadas por algum filhote (eu lembro-me de ter acompanhado a minha mãe), caminhando dois ou três quilómetros para cada lado, com a travessia do Tejo feita pelos barqueiros que o Veiga ali mantinha, e carregando, no regresso, os nabos à cabeça.
Durante a semana, era feita diariamente uma panelada de sopa que desse para a ceia e para o almoço do dia seguinte, tomado, este, das 10 às 11 horas, no local de trabalho, pelos que andassem a trabalhar. A não ser que o trabalho fosse muito perto de casa, o que era raro. Nesse caso, ia-se tomar as refeições a casa. O jantar, no campo, das 14 às 15 horas, nos dias mais pequenos, e das 14 às 16, nos dias maiores, consistia, normalmente, em pão com um bocado de conduto, que podia ser queijo, sardinha, carapau, chicharro (era o tempo dos “3, dez tostões”), bacalhau, qualquer outro peixe, assado ou cozido, azeitonas, toucinho, chouriço, morcela, ovo cozido, mexido ou em omeleta, marmelada, e sei lá que mais.
O trabalho era de sol a sol e, por isso, as duas horas ao jantar nos enormes dias de verão, a fim de ficar tempo para uma sesta e poder-se, assim, dar melhor rendimento nas mais de quatro horas que faltavam ainda até o Sol se pôr. Era um tempo em que muitas vezes ao jantar se comia algo de mais substancial, levado ao local de trabalho pela mulher, pela mãe, por algum filho pequeno, ou cozinhado ali mesmo, na altura, para o que, ao sair de casa, pela manhã, cada um levava consigo os ingredientes necessários. Algo, naturalmente, que não demorasse muito tempo a preparar. E levava-se também a burra, um pedaço de varão de ferro com um bico dum lado, para espetar no chão, e uma dobra do outro, para pendurar a caldeira ao lume.
Mas também acontecia que, para completar os ingredientes para a refeição, se saísse de casa a contar com alguma coisa que se apanhasse pelo caminho ou no próprio local de trabalho. Quando era a contar com o que a terra dava, tomates ou pimentos, por exemplo, e pouco mais, tudo bem. Mas a contar com o que andava dentro de água, isso era arriscar muito. Na verdade, eu só me lembro de ter assistido a isso uma vez. Passados tantos anos (à volta de sessenta), não sei já dizer quem foi o protagonista (ou melhor, não quero arriscar-me a errar, porque tenho uma pessoa em mente). Mas que aconteceu, aconteceu.
Andávamos a trabalhar numa seara de cânhamo, a hoje famosíssima e proibidíssima cannabis sativa, nos “Talhos”, propriedade na margem esquerda do rio Alviela e próxima da ponte (romana) entre o Pombalinho e Vale de Figueira, exactamente no local que a televisão mostra nos seus telejornais cada vez que o Alviela deita fora e corta ali o trânsito na Estrada Nacional nº 365.
Chegada a hora do jantar, quem quer que ele era, espetou a burra sobre a fogueira, pendurou-lhe a caldeira com batatas para cozer, pegou numa cana que tinha preparado para a pesca, iscou o anzol e deitou-o à água. Mas sinal de peixe, nada. A bóia nem bulia. Estariam os peixes também na hora da sesta?
Não, não estavam. Pelo menos um, não estava. Porque, depois de muito esperar, o nosso amigo viu, de repente, a bóia a ser puxada para o fundo. Ele estava atento. Segurou a cana com firmeza, rapidamente. Mas nem tempo teve de puxá-la, porque a bóia, tão de repente como tinha ido ao fundo, veio à superfície, por conta própria. Desolado, o nosso amigo puxou a cana. E disse mal da vida. O peixe tinha simplesmente quebrado o fio e levado o anzol. Que grande peixe ele devia ser!... Bom, escusado seria dizer que o azarado pescador teve de contentar-se, para o jantar daquele dia, apenas com as batatas cozidas, temperadas com azeite e sal, mais o costumado bocado de pão de milho a acompanhar. Conduto, nicles...
A respeito de comida, está dito como era durante a semana. Falta dizer que, nesse tempo, a semana de trabalho para o camponês era de segunda-feira a sábado e de sol a sol, como já foi dito mais acima, excepto à segunda-feira, dia em que, no Pombalinho, se pegava ao serviço às 10 horas, já almoçado. E falta dizer que ao Domingo havia, normalmente, rancho melhorado e se eliminava uma refeição, com o almoço mais ou menos por volta do meio-dia, às vezes depois de toda a família ter ido para o campo ou para a eira a fim de trabalhar nas tais searas de milho e feijão, de grão de bico, etc., ou no apuro da sua colheita (descamisar, malhar, escarolar...), e o jantar à costumada hora da ceia.

Segunda-feira, 25 de Fevereiro de 2008

As vides

Seguia-se a poda das vinhas, coisa que requeria aprendizagem, assim como a limpeza e a destronca das oliveiras. Por isso, a primeira vez que algum novato fazia um desses trabalhos, fazia-o sob a orientação de um companheiro já experiente. As oliveiras ainda eu aprendi a limpar, sob a orientação do meu tio Daniel Gandarez; a podar as videiras, não.
Ora, terminada a poda das vinhas, a apanha das vides, que se juntavam em molhos atados com as próprias vides, era mais uma tarefa das mulheres casadas e dos filhos pequenos, com a divisão a meio por meio e com o transporte das vides para casa por conta dos donos das vinhas. E assim se arranjava alguma matéria prima para fazer a comida ou para aquecer o forno em que se cozia o pão.
As vides que cabiam aos proprietários ficavam nas vinhas, amontoadas, para com elas se aquecerem os almoços e se assar o conduto dos trabalhadores quando era a vinha o local de trabalho. E era-o muitas vezes. Considerando uma ordem cronológica, direi que os trabalhos nas vinhas começavam, em Fevereiro ou Março, pela cava (com um homem em cada vão e um mais possante, e conluiado com o patrão ou com o capataz, a puxar pelos companheiros), passava pela sulfatagem, às vezes pela enxofra, pela desfolha (antes da vindima, para os cachos ficarem mais expostos ao sol), pela vindima, em Setembro, e terminava na poda, assim se completando o ciclo. Relacionado com a vindima em Setembro e com algo que se esperava ou desejava que desaparecesse, era até corrente a expressão: levou uma volta como São Miguel deu às uvas. O dia do Arcanjo São Miguel é em 29 de Setembro.
Exceptuando a poda, a enxofra e a desfolha, as duas últimas feitas por mulheres, tudo o mais eu fiz, inclusive apanhar as vides, com a minha mãe.

Quarta-feira, 20 de Fevereiro de 2008

Rabisco das Uvas

Realmente, não se perdia nada. Depois da vindima acabada, as vinhas não escapavam também a uma rabiscadela. Por entre a parra escapava sempre algum cacho mais pequeno à vista do vindimador. Esse era o único rabisco em que não havia divisão com os donos das vinhas. Ficava-se com uvas para alguns dias ou fazia-se arrobe, para o que se espremiam as uvas e se punha o mosto ao lume, deixando-o ferver até ficar espesso. E comia-se espalhado no pão. Não era, porém, coisa que se fizesse muito, para poupar a lenha.
Por falar em vindimas, vem a propósito dizer que foi a vindimar que eu ganhei o meu primeiro salário. Tinha dez anos e estava nas férias escolares entre a terceira e a quarta classes da instrução primária. O Américo Cachado, um dos pequenos proprietários do Pombalinho, também tinha uma vinha. E pôs miúdos a fazer a vindima. Não sei se fazia sempre assim, ou se foi só naquele ano. Porque o normal era serem raparigas das que já andavam nos trabalhos do campo, assalariadas, a fazerem a vindima. Isso, porque havia os trabalhos para homens e os trabalhos para mulheres. Por um lado, porque havia trabalhos (os que exigiam maior esforço físico) em que as mulheres não davam o mesmo rendimento que os homens; por outro, porque o salário das mulheres era por norma aproximadamente metade do salário dos homens. E menor ainda que o das mulheres, era o salário dos miúdos, rapazes e raparigas. Ora, a verdade é que, por não exigirem grande esforço, havia trabalhos em que todos davam o mesmo rendimento, ou em que, pelo menos, a diferença de rendimento seria bem compensada pela diferença do salário. A vindima era, seguramente, um desses trabalhos, e o Américo Cachado sabia tirar partido disso. Haveria de passar ainda para aí meio século até que se começasse a falar de exploração do trabalho infantil.
Esse meu primeiro salário foi de 2$50 (dois escudos e cinquenta centavos) por dia. Não me lembro de todos que andámos nessa vindima. Mas lembro-me do António Maria (da Isaura; havia outro António Maria, filho do Izidoro “Sapateiro”, e ambos tinham como apelido Duarte ), do João Fataça e duma irmã deste, a Gracinda.
Falando de uvas, falta dizer que estas também eram alvo, a partir do seu amadurecimento, de umas tentativas de apropriamento indevido, ou seja, de umas furtadelas, especialmente por parte da rapaziada, sempre aventureira nas suas brincadeiras em grupo ao passar por onde houvesse fruta, no campo ou nas hortas, apesar dos muros e das sebes erguidos à sua volta. Eu não era dos mais ousados nessas incursões, mas, como é sabido, o grupo predispõe ao atrevimento. Apesar disso, há sempre os mais ousados, que vão à acção, e os mais temerosos, que ficam de vigília, se bem que para efeitos de culpa se diga que tão ladrão é o que rouba como o que fica à porta.
Uma vez, tinha eu quinze ou dezasseis anos, meteu-se-me na cabeça ir roubar uvas. Andava então a trabalhar no forno do Alviela (voltarei com certeza a falar deste trabalho), que distava cerca de dois quilómetros e meio do Pombalinho e onde, nesse ano, andavam também a trabalhar o Ernesto Hilário e o Fernando Gaião, um ou dois anos mais novos que eu.
Era o tempo em que as uvas começavam a amadurecer. As vinhas já tinham guarda. Naquele dia, depois de despegarmos e ao passarmos pela Vinha dos Dezoito, do João d’Assumpção Coimbra, topei uma abertura na sebe de marmeleiros por onde me pareceu que conseguiria passar. Disse então aos meus companheiros para esperarem um bocado, enquanto eu ia às uvas. E fui. Furei pelo buraco e dirigi-me, quase de rastos, para as cepas mais próximas. Estava já bastante escuro. Já nem dava para ver os cachos por entre a parra. Por isso, e para não apanhar uvas verdes, tive de pôr-me a apalpar os cachos. E estava eu nessa azáfama quando ouço uma voz, pausada: - Então , já estão maduras?
Olho para o lado de onde vinha a voz e lá estava ele, o guarda, um homenzarrão, parado e olhando para mim, apoiado ao seu cajado. Então, ah pernas para que te quero!... e aí vou eu direito à sebe, que desta vez não furei, saltei. O que me valeu foi que eu até saltava bem. Algumas vezes em que a malta competia a ver quem saltava mais alto ou mais longe, eu ganhava quase sempre. E foi isso que me levou à prática do atletismo no Sporting Clube de Portugal, enquanto cumpria o serviço militar.
O que me valeu, é como quem diz, porque se o guarda me tivesse querido fazer mal, podia muito bem tê-lo feito. Foi um gajo porreiro.

Quarta-feira, 13 de Fevereiro de 2008

Adeus oliveiras!

Sob certos aspectos, a vida mudou muito, mudou completamente. E sempre assim terá sido, senão viveríamos ainda todos em cavernas. Noutros, naturalmente, nem tanto, ou mesmo nada. Têm mudado muito, e mudam cada vez mais, assumindo proporções de progressão aritmética, senão mesmo geométrica, porque propulsionadas pela ânsia do Homem em dominar a matéria e melhorar a sua qualidade de vida, sobretudo os aspectos materiais; é mais lenta, por uma propensão conservadora e fatalista, subserviente e obscurantista da espécie humana, a transformação da mente, que é como quem diz, a subversão de usos e costumes.
Ora, mudança grande, estrondosa, radical, aconteceu com as oliveiras na minha terra e arredores. Eram hectares e hectares e hectares plantados de oliveiras, grande parte delas muito provavelmente já seculares. Eram uma enorme riqueza da região.
Ainda assim era em 1959, quando eu fiz também uma grande mudança, de Portugal para Moçambique. Hoje, em toda essa extensão vêem-se meia dúzia de oliveiras, uma aqui, outra ali, em hortas e quintais.
Quando, em 1964, voltei ao Pombalinho, no gozo da tão colonial “licença graciosa” (150 dias, mais o tempo das viagens, que eram feitas de barco, mais o tempo que se ficava à espera do embarque, e ainda mais um ou dois meses, coisa facilmente conseguida por aqueles que nisso estivessem interessados, com uma ida à Junta de Saúde do Hospital do Ultramar, queixando-se de qualquer maleita) – quando, em 1964, dizia eu, voltei ao Pombalinho no gozo da tão colonial “licença graciosa” a que os funcionários do Estado colocados nas colónias tinham direito por cada período de 4 anos de estadia, o primeiro olival, um dos maiores, tinha desaparecido. Tinha sido arrancado pela raiz. Era um dos muitos olivais do João d’Assumpção Coimbra. Em seu lugar, haviam sido plantadas macieiras.
O azeite havia entrado em descrédito. Começara a propalar-se que o mesmo não era bom para a saúde, e recomendava-se, em sua substituição, o consumo de óleo de milho, que entretanto aparecera no mercado. A procura do azeite baixara. Os olivais já não davam ganho. E foram indo uns atrás dos outros. Os lagares pararam. Acabou a produção de azeite no Pombalinho e nas suas redondezas.
Na maior parte daqueles olivais, tinha eu trabalhado, e naquele também, entre os 12 e os 14 ou 15 anos, primeiro a espalhar o estrume, de forquilha em punho, antes da lavoura, e depois a cavar as marradas (a terra à volta das oliveiras a que a charrua não chegava) e a gradar, preparando a terra para a sementeira, ora de trigo, ora de favas, e também de grão de bico. Éramos sempre um grupo de nove ou dez rapazes, mais o maioral das éguas, as quais umas vezes íamos buscar ao lugar da pastagem, cada um a sua parelha, e à noite, depois da jornada de trabalho, íamos lá deixar, outras vezes eram trazidas em rebanho ao local da gradagem e ali lhes deitávamos a mão. A parelha que agarrássemos no primeiro dia era aquela com que ficávamos enquanto durasse a gradagem, o que, para mim, era um martírio. Até hoje, e, claro, vai ser para sempre, tenho uma dificuldade tremenda em fixar fisionomias. Sejam elas de animais ou de pessoas. E então, o que é que acontecia? Enquanto os meus companheiros, com toda a facilidade, procuravam a sua parelha e lhe deitavam a mão, eu tinha que ficar à espera das éguas que sobravam. A não ser que me tivesse calhado logo no primeiro dia alguma com um sinal muito evidente em qualquer parte do corpo - uma pinta, por exemplo - que mais nenhuma tivesse.
E martírio era também quando íamos de manhã buscar as éguas ao local da pastagem e à noite lá as íamos deixar, revelando-se logo aí a falta de jeito que pela vida fora me havia de acompanhar para lidar com bestas. Em sentido real e figurado.
Como albarda, tínhamos apenas uma saca que levávamos de casa. E alguns dos meus companheiros, nem isso. Pois bem, enquanto que para eles aquelas cavalgadas eram uma festa, conseguindo ajustar perfeitamente os seus movimentos aos movimentos das éguas que montavam, fossem elas a trote ou a galope, eu fartava-me de baloiçar em cima delas e, às tantas, zás, dava com as costelas no chão. Os outros divertiam-se. Como nos divertíamos quando algum de nós se desequilibrava em cima da grade, por as leivas serem muito grandes e estarem muito duras, e enfiava uma perna pela grade. A maior parte das vezes, quando tal acontecia, logo se conseguia parar as éguas. Mas também acontecia elas não pararem - e espantarem-se, até - e então é que a coisa ficava feia. Agarra, agarra, que é lebre!..., gritava a malta. Que me lembre, nunca algum fracturou uma perna, embora o risco de que tal sucedesse fosse grande. Mas de umas contusões não nos livrávamos.

Quarta-feira, 6 de Fevereiro de 2008

A Matança

A matança, poucos a podiam fazer em casa, como disse. O meu tio José Minderico (meu tio, por ser marido de uma irmã do meu pai, a Jesuína) era um desses. Pelo menos uma vez, ainda eu era muito pequeno, fui com os meus pais e o meu irmão a uma matança em sua casa, que era na Rua de Santo António.
Os meus pais faziam parte do grupo maior – o grupo dos que tinham que vender o porco. Em minha casa nunca houve matança. E, que me lembre, sempre o porco foi vendido ao Hermínio Minderico, antes e depois de a minha mãe gastar da sua loja, na Rua Joaquim Gonçalves Ferreira, mais conhecida por Rua dos Foros, creio que por as habitações dessa rua, todas dum lado só, excepto num dos extremos, aquele em que há uma fonte, haverem sido construídas em terrenos cedidos por foral.
E os porcos que os meus pais criavam iam para o Hermínio (que, diga-se de passagem, fazia o melhor chouriço das redondezas) exactamente porque a senhora Anita, dona da loja em que a minha mãe gastava antes, na Rua Barão de Almeirim (a Rua de Cima: todas as ruas ou quase tinham, de resto, dois nomes, o oficial, que estava inscrito nas tabuletas nelas afixadas, e o que a população lhe dava e pelo qual muito melhor as conhecia), não matava porcos.
À matança do porco vendido ajudava a família que o vendia, começando por levá-lo para o local do sacrifício, depois de o ter deixado, se não me engano, 24 horas sem comer. Uma vez ali, atavam-se-lhe as patas e o focinho, em cujas cordas se usava, aliás, o chamado nó de porco, deitava-se em cima de uma banca e enfiava-se-lhe um facalhão nas goelas, pondo um alguidar a aparar o sangue, a que se ia juntando sal e se ia mexendo, por entre os grunhidos do pobre porco. A seguir, e com o animal já desamarrado, primeiro chamuscavam-se-lhe os pelos por todo o corpo, com carqueja seca a arder na ponta duma forquilha, e depois lavava-se bem lavado, utilizando-se água e uma escova de piaçaba. Dali, ia para o chambaril, e começava a dissecação. Depois de extraídas as tripas e algumas miudezas que estava estipulado pertencerem ao vendedor do porco, em casa do qual, haveria, assim, nesse dia ou num dos seguintes, rancho melhorado, procedia-se então ao peso da carcaça, operação em que se usava uma balança romana (balança de pilão).
E vamos a contas. Tantas arrobas; a tanto a arroba: x vezes y igual a z (isto aprendi eu mais tarde), vamos lá a ver se ainda tens algum dinheirinho para levar, ou se fica todo na mercearia e nem chega para liquidar a dívida.

Quinta-feira, 31 de Janeiro de 2008

As Searas

Eram searas de milho, geralmente com feijão branco e aboboreiras incorporados; searas de grão de bico e searas de feijão frade. Searas semeadas nas terras daqueles que as tinham e cultivadas, desde a primeira sachadela até à partilha da respectiva produção, nas eiras, pelas famílias constituídas por trabalhadores rurais, gente sem terra nenhuma.
Aos donos das terras, desde pequenos proprietários a latifundiários, chamávamo-los de lavradores. Latifundiários mesmo, na zona constituída pelas freguesias do Pombalinho e da Azinhaga e pelo Reguengo do Alviela, uma pequena localidade em que a minha mãe nasceu e que pertencia à freguesia de São Vicente do Paul, que fica muito mais longe que o Pombalinho, eram dois, ambos residentes em quintas situadas na freguesia da Azinhaga: o João de Assunção Coimbra, na Quinta da Melhorada, onde nasceu o meu pai e de onde se via passar os comboios, e o Manuel Tavares Veiga, na Quinta da Broa, junto à ponte sobre o rio Almonda, que passa pela Azinhaga e vai desaguar no Tejo logo ali a umas centenas de metros.
Depois de semeadas e com as plantas já a romper, as terras eram divididas em courelas iguais através de regos abertos por uma charrua e distribuídas, por sorteio, pelas mulheres casadas que, antes informadas, acorriam ao local para tirarem um papelinho numerado de um boné ou de um barrete, ficando, assim, cada uma a saber qual era a sua seara. O sorteio visava eliminar suspeitas de favoritismo, já que, numa propriedade grande, sempre havia um ou outro bocado de terra menos fértil.
Eram as mulheres casadas que tomavam conta das searas e que mais nelas trabalhavam, porque, no Pombalinho, a mulher, uma vez casada, deixava de trabalhar assalariada.
Com efeito, as raparigas, logo que tivessem idade e corpo – corpo, sobretudo - para trabalharem no campo, assalariadas, era isso que passavam a fazer, assim contribuindo, daí por diante, com a sua jorna para o sempre parco orçamento familiar. Mas só até casarem. A partir daí, ponto final. Deixavam de ter de ir à praça (noutra altura veremos o que é que isto quer dizer), aos Domingos, para arranjarem patrão. Ou seja, a partir do casamento, a mulher, no Pombalinho, cuidava do marido e dos filhos, da casa e do mais que se verá. Diferentemente do que sucedia na vizinha Azinhaga, por exemplo, o que implicava, naturalmente, outras diferenças, assunto a que oportunamente voltarei, pois que a observação de usos e costumes sempre me cativou. É, de resto, do que estou já a falar e do que tratarei na maior parte destas minhas memórias.
O cultivo das searas de milho, normalmente mais do que uma por ano e por família, do mesmo ou de diferentes lavradores, obedecia aos procedimentos seguintes:
Uma vez tomada conta da courela atribuída pelo já referido sorteio, as mulheres para ali se deslocavam, cada uma para a sua seara, sempre que tivessem tempo para isso e até que a sacha terminasse. Durante os chamados dias úteis da semana, se tinham filhos em idade que já desse para aguentarem a sachadeira nas mãos, mas não ainda para trabalharem por conta de outrem (e desde que não fosse dia de irem à escola, para os que andavam na escola), lá iam os filhos também para ajudarem na tarefa de eliminar as ervas e os pés de milho considerados a mais para o bom crescimento da seara e para o tamanho das futuras maçarocas, não se tocando, porém, nos pés de feijão e de aboboreira. Ao Domingo, se calhava de haver sacha para fazer, era a família inteira que ia para a seara, até cerca das onze horas, altura então de se ir almoçar e de se preparar cada um, depois, para passar o resto do dia conforme a idade, o estatuto e as obrigações familiares.
À sacha seguia-se, algumas semanas depois, a amota, que consistia em chegar terra ao pé de cada milheiro, não sei bem para quê, mas imagino que para as plantas melhor se aguentarem direitas quando, já grandes, fossem batidas pela chuva e pelo vento. Aproveitava-se então para de novo deitar o fio da sachadeira à erva já de novo a despontar.
O empenhamento da família era o mesmo... e o mesmo era para as fases seguintes do cultivo, sujeitas algumas destas a variantes, consoante a robustez que as plantas atingissem, coisa dependente das condições atmosféricas e de serem as searas regadas ou não.
Se as plantas se tornavam robustas, caso em que, naturalmente, davam boa maçaroca (uma ou duas), proceder-se-ia ao desfolhamento e desbandeiramento. Julgo que a finalidade dessa operação era fazer com que as maçarocas ficassem mais expostas ao sol e, assim, amadurecessem mais depressa, tendo em conta que era preciso despachar todo o trabalho relativo à colheita antes que as chuvas viessem criar embaraços. Quando o procedimento era este, as folhas e as bandeiras eram dispostas em paveias que, depois de secas, dali seguiam para os palheiros e alimentavam o gado nos tempos de cheias e de secas, em que outra coisa não havia. Neste caso, ainda, as maçarocas eram depois colhidas para cestos de verga que a seguir eram despejados em dois ou três pontos da seara, formando montes de onde, em devido tempo, eram transportadas, em carros de bois ou de mulas, para as eiras. Os canoilos ficavam, podendo vir a ter um destino diverso: ou permanecerem ali, de pé, caso em que o gado, ao ser depois posto a pastar no local, ainda aproveitava alguma coisa e em que o que sobrasse seria enterrado na próxima lavoura, enriquecendo o húmus; ou serem cortados (a ferramenta usada para tudo quanto fosse corte nestas searas era a foice) e também levados em molhos para palheiros, a fim de servirem de cama ao gado e, depois de cumprida essa função, serem levados para a estrumeira, de onde voltariam à terra, para adubá-la. “Nada nasce, nada morre, tudo se transforma”, Lavoisier dixit.
Se a seara não encorpava coisa que se visse, era ceifada rente ao chão e também disposta em paveias, só depois se extraindo a maçaroca. Dali, era dado a cada coisa o destino já nosso conhecido: paveias para o palheiro; maçarocas para a eira. E para a eira eram levados igualmente o feijão, arrancado pela raiz, e as abóboras, arrancadas às aboboreiras.
Passemos à eira, e comecemos pela descamisada.
A descamisada era feita, na sua totalidade ou quase, à noite, depois da ceia e à luz de gasómetros. Normalmente, cada monte de milho levava mais do que um serão a descamisar, dependendo do seu tamanho e do número dos participantes.
Para a descamisada ia a família toda, menos os que ainda nem força tivessem para tirar a camisa à maçaroca. E menos os rapazes que namoravam. Esses iam para o monte de milho das namoradas.
As maçarocas descamisadas iam sendo atiradas para cestos que, quando cheios, iam ser despejados na eira, deixando-se o milho espalhado, para melhor acabar de secar. As primeiras camisas iam sendo dispostas de maneira a servirem de assento (sempre ficava mais macio que o chão) e depois eram atiradas para o lado e amontoadas, para posterior enfardamento manual. Serviam, nesse tempo, sobretudo para, depois de desfiadas, encherem colchões e almofadas.
À volta dos montes de milho podia haver um quase silêncio, se os descamisadores eram somente um casal, ou conversava-se, contavam-se anedotas, gracejava-se a propósito de qualquer coisa, quando os participantes eram em maior número. E se calhava de aparecer alguma maçaroca roxa, era uma algazarra, tanto mais que aquele ou aquela que a tivesse encontrado ficava obrigado a dar um beijo a cada um dos presentes, o que criava muitos constrangimentos. Basta que se saiba que, naquele tempo, as pessoas não se cumprimentavam beijando-se. Beijos, só entre os casais (e feito com muito recato) e entre mães e filhos. Entre os namorados, só muito à socapa. Era proibido, mas oportunidades não faltavam, pelo menos quando o namoro tivesse recebido já o aval do pai da rapariga ou de quem o substituísse, altura a partir da qual decorria dentro de casa.
Depois da descamisada e de decorrido o tempo necessário para que o milho secasse bem, chegava a vez da escarola, na qual eram então utilizados três processos, dependendo a utilização de um ou de outro das disponibilidades da eira e das posses do seareiro: o mangual, a escaroladora manual e a escaloradora movida a motor.
Mangual, cada um tinha o seu, embora fosse já muito pouco usado para escarolar o milho. Mas era com ele que se malhavam todos os legumes. A escaroladora manual era propriedade do dono da eira, que normalmente não tinha mais que uma, o que obrigava os seareiros a marcarem a sua vez junto do encarregado da eira. Era de utilização gratuita e exigia força, para dar à manivela. Tarefa para os homens e rapazes, que nela se revezavam. Também acontecia agarrarem-se dois à manivela, para lhe darem maior ímpeto. A escaroladora a motor era pouco usada. Apareceu a certa altura, propriedade dlo António Palmeirão, um pequeno proprietário, que a alugava a troco de uma parte do milho escarolado.
O milho era depois novamente espalhado na eira e remexido duas ou três vezes, arrastando-se por ele os pés ou um ancinho de madeira, para secar bem. Quando já bem seco, era amontoado e passado à tarara, instrumento, também manual, que fazia voar as impurezas através do vento que produzia.
Finalmente, estava o milho pronto para a partilha. Chegava-se o medidor com o alqueire e com os sacos do patrão, e o seareiro com os seus.
E a partilha era assim: ao quinto (de cada cinco partes, quatro para o dono da terra e uma para o seareiro), se a seara fora de sequeiro; ao sexto (cinco para o dono da terra, uma para o seareiro), se a seara fora de regadio. Exploração pura e dura.
E partilha igual era a do feijão branco e a do feijão frade, a do grão de bico e a das abóboras.
Em anos de boa colheita, ficavam as arcas com milho e feijão que davam para todo o ano ou quase – e era uma alegria. O pior, é que nem sempre assim acontecia. Havia anos maus.

Sábado, 26 de Janeiro de 2008

A Praça

“Praça” era a designação do local onde, aos Domingos, depois do almoço e envergando os seus fatos e vestidos domingueiros, separadamente se juntavam os homens e as mulheres em busca de patrão para a semana seguinte, pois que para contratarem o pessoal de que necessitassem lá estariam igualmente os capatazes ou os patrões cuja riqueza não dava para meter capataz, que era o caso do patrão-seareiro. Mais adiante veremos o que chamo eu de patrão-seareiro, para o diferenciar do patrão-lavrador.
Em três locais diferentes e por esta ordem conheci eu a “praça”: no cruzamento da Rua de Santo António com a estrada que vai para a Azinhaga; junto à taverna das Motas, que confinava com o recinto da igreja; e no adro da igreja. Era um tempo em que raramente passava um veículo puxado por animais ou um ciclista, e mais raramente ainda um veículo motorizado. E, por isso, o pessoal ocupava a estrada.
Do primeiro local (Santo António) mal me lembro, e não me recordo onde é que as raparigas se concentravam, mas existia ali um sítio bom para isso: era o pequeno pátio em frente da casa para onde, depois de casado, foi morar o Veríssimo Duarte. No segundo, concentravam-se para lá do gradeamento que delimitava o recinto da igreja e junto à porta de trás do Registo Civil. No terceiro, junto à porta da frente do Registo Civil e à porta lateral da igreja, tirando partido, para se sentarem, do longo poial que ali se situa.
Confinando com qualquer desses locais, não faltavam as tavernas. No primeiro, duas, cada uma na sua esquina e de cujos donos não me lembro os nomes. A da esquina do lado da Azinhaga era dos sogros do Manuel da Carlotina, negociante de cavalos e que também ali vivia, com a mulher e as duas filhas. A da outra esquina (que, se a memória me não atraiçoa, era dum avô do Manuel Gameiro, conhecido por “o Menino”, que foi para a CP e casou com a filha única do António Santana, também ferroviário) foi deitada abaixo, em Janeiro ou Fevereiro de 1941, pela força da corrente das águas da cheia que, com a ultrapassagem e derrube de uma parte do Dique dos Vinte, no campo da Golegã, enfiaram pela estrada que, ligando a Azinhaga e o Pombalinho, ficava a um nível inferior ao dos terrenos limítrofes, quase na sua totalidade constituídos por olivais.
Essa foi a maior cheia registada no Pombalinho até então (1941), e além da casa (loja e habitação, como era de norma) derrubada pela força da corrente que lhe batia em cheio, ruíram com essa cheia mais umas seis ou sete moradias, devido, sobretudo, aos materiais da sua construção: taipa e adobes. E muito pior teria sido se um ciclone que abalou a região pouco tempo antes tivesse ocorrido na altura da cheia. Uma das coisas que desapareceu com esse ciclone foi a tamareira da Quinta da Melhorada, a única conhecida pelos arredores e à qual eu e outros miúdos algumas vezes, nas nossas deambulações aventureiras, fomos atirar pedras para deitar tâmaras abaixo, apanhá-las e comê-las.
Porém, o que mais espantou toda a gente, naquele ano e com aquela cheia, foi o buraco, com muitos metros de diâmetro e três ou quatro de profundidade, que a corrente vinda do lado da Azinhaga, ao bater na parede da casa que ali derrubou e fazer redemoinho, abriu bem no centro do cruzamento. Por sorte, ninguém nem algum animal caiu no buraco antes de o mesmo ter sido descoberto, pois que a água ficou bastante alta. Tão alta que, da casa da outra esquina, a dos sogros do Manuel da Carlotina, como já vimos (e também taverna, mercearia e habitação), foi necessário tirar o seu proprietário, já velhote e por se encontrar doente, pelo telhado, para metê-lo num barco e levá-lo dali para onde pudesse receber a visita do médico.
O buraco levou, depois, algum tempo a tapar, e até talvez tenha sido isso que deu origem à mudança do local da “praça” dali para junto da loja das Motas e do edifício do Registo Civil, local que, para além do mais, ficava num ponto bastante mais alto.
Na “praça” não faltava, geralmente, dinheiro para um copito. Copito... é como quem diz, porque o copo mais vezes pedido era o copo de 0,5 litro, que não é assim tão copito como isso. De vinho tinto ou branco, conforme as preferências. E que muitos emborcavam de uma vez, ficando a limpar os lábios às costas das mãos. Mas também acontecia pedir-se o copo de 2,5 decilitros. E até algum mais pequeno, uma vez por outra. Tinha a ver com as disponibilidades financeiras do bebedor e com o seu nível de saciamento.
Mas, além do que se bebesse por conta própria ou por oferta de um companheiro, todos os que arranjassem trabalho tinham direito a 0,5 litro de vinho (às vezes substituído por água-pé), os homens, e a 2,5 decilitros, as mulheres (as raparigas, melhor dizendo),dado pelos patrões. Era a melhadura, que, uma vez aceite, tinha o valor de um contrato que prendia o trabalhador ao patrão por toda a semana. Digo: uma vez aceite, e não: uma vez bebida, porque as mulheres, no Pombalinho, não bebiam. Era de mau tom. Por isso, iam todas de garrafinha para a “Praça”, na qual levavam a melhadura para casa.
“Melhadura”, acho que é como nós pronunciávamos, no Pombalinho. Contudo, não encontro essa palavra em nenhum dicionário consultado. Encontro é “molhadura”, com o significado de «o m.q. molhadela; (pop.) gorjeta que se dá para comprar vinho; gratificação» (Dicionário da Língua Portuguesa, da Porto Editora, 6ª edição). Parece não andar lá longe, pelo que poderemos considerar dois aspectos: ou “melhadura” como regionalismo e com aquele significado preciso de selar o compromisso do trabalhador com o patrão para a semana seguinte, ou como a corruptela de um termo de uso mais geral e de significado algo diferente mas que no Pombalinho e arredores (Azinhaga do Ribatejo e Reguengo do Alviela, pelo menos) adquiriu o referido significado.
Seja como for, o certo era que fora a melhadura, ao Domingo, na “praça”, que era obrigatória, às vezes, durante a semana, a pedido dos trabalhadores ou por iniciativa do patrão, também havia com que “molhar a garganta”. Valia, então, a generosidade dos patrões, tanto podendo acontecer, no entanto, que a bebida fosse levada para o local de trabalho e
aí consumida durante o dia, como serem os trabalhadores mandados passar pela adega, à noite, depois de despegarem do trabalho.
Mas também acontecia , nos dias maiores, que eram precisamente aqueles em que as tarefas agrícolas eram em geral as mais árduas, fazer parte das condições ajustadas ao Domingo, na “praça”, ter o trabalhador direito nessa semana, além do salário, a determinada quantidade de vinho por dia, quantidade essa variando, a maior parte das vezes, entre um litro e litro e meio.
Sim, isso acontecia, o que significa que poderia suceder ou deixar de suceder. Mas só assim era em relação ao patrão-lavrador. Com o patrão-seareiro não acontecia, era de norma. Como era de norma este pagar sempre mais alguma coisa de jorna do que aquele. O que se justificava pelo seguinte: o patrão-lavrador era dono de terras, de vinhas e de olivais e, em maior ou menor quantidade, trazia sempre alguém por sua conta; o patrão-seareiro era aquele que alugava um ou dois hectares de terra ao lavrador para fazer a sua seara, nesse tempo predominantemente de melão, e que, por conseguinte, só ia à “praça” quando precisava de pessoal para o cultivo dessa seara, coisa que normalmente não ia além de uma ou duas semanas.
Mas havia outro pormenor que importa considerar. Era que a necessidade de pessoal por parte dos seareiros ocorria numa altura em que a procura de pessoal era maior, acontecendo que os lavradores poderiam muito bem absorver então todo o pessoal da “praça” para os seus trabalhos. Ou seja, os seareiros iam “roubar-lhes” o pessoal de que eles precisavam, por um lado, e, por outro, ao tornarem a procura maior que a oferta para além do que ela de qualquer maneira já seria nessas alturas, mais faziam subir o preço da jorna. Também se poderia dizer que, se assim era, isso aos próprios lavradores se devia, uma vez que eram eles mesmos que alugavam aos seareiros a terra em que estes faziam os seus meloais para abastecerem o mercado do Porto, pois era para lá que era levada, por caminho de ferro, a quase totalidade da produção local.
Saliente-se ainda que um factor não menos importante na diferença do salário pago pelos lavradores e pelos seareiros, ou pelo menos da sua expressão em números, era haver quase sempre um retraimento dos trabalhadores em irem para os seareiros, por recearem que os lavradores (ou os seus capatazes) os tomassem de ponta e os deixassem de fora sempre que, na “praça”, a oferta excedesse a procura, o que por vezes acontecia, sobretudo nos meses de Inverno.
Eu comecei a frequentar a “praça” muito cedo, porque comecei a frequentá-la pela mão do meu pai. Com efeito, acho que aí com os meus sete/oito anos já o meu pai me levava com ele à “praça”. Eu gostava de acompanhá-lo. Primeiro, porque, em geral, os miúdos gostam da particular atenção dos pais e, naquela idade, talvez ainda mais da atenção do pai, especialmente os rapazes, do que da atenção da mãe. Depois, porque gostava da atenção que, na “praça”, me dispensavam os companheiros do meu pai, ou seja, de ser alvo da atenção dos adultos. E, ainda, porque sempre havia ali uns tremoços e uns amendoins para trincar, acompanhando a pinga... a pinga que eu julgo ter começado aí a provar, sabendo-me bem.
A “praça” era o grande ponto de encontro e de convívio dos camponeses. Depois do almoço, que ao Domingo era mais tarde (lá para o meio-dia) e melhorado, os trabalhadores vestiam o seu fato domingueiro e dirigiam-se para a “praça”. Ali se iam juntando, homens e raparigas, em grupos separados que iam engrossando e se iam subdividindo em grupos mais pequenos, em função de afinidades ou interesses comuns. Entretanto, os homens iam fazendo a sua peregrinação às tavernas próximas; os copos iam-se enchendo e esvaziando. Uma ou outra laranjada, gasosa ou limonada ia saindo também, na sua maior parte para as raparigas, que iam consumi-las no seu grupo, lá fora, e vinham depois devolver as garrafas.
Reinava a animação no local da “praça” e num raio para aí de cinquenta metros, em que as tavernas eram seis: a das Motas, a do José Taverneiro, a do António de Casal (que bebia mais que os clientes, os quais, de resto, eram muito poucos), a do Manuel Tadéia (e depois do genro e da filha: o Diamantino Costa e a Deolinda), a do José Guilherme e a do Mota Alegre. Bebia-se, conversava-se, caminhava-se para um lado e para o outro, com os problemas da vida postos para trás das costas por algumas horas, pelo menos quando já se tinha a certeza de sair dali com patrão, o que geralmente ocorria nos períodos em que o pessoal não chegava para as necessidades e quando se fazia parte de um rancho de carácter mais ou menos regular por conta de determinado lavrador. Isso não dispensava, porém, a ida à “praça”, salvo em casos em que o trabalhador, por qualquer motivo (visitar familiares, ir a uma feira ou a uma festa nas redondezas) desejasse ausentar-se da terra no Domingo e, para o poder fazer sossegadamente, acertasse as coisas com o seu capataz.
Os empregadores (agora chama-se-lhes assim) ou seus representantes (os capatazes) começavam a chegar mais tarde, juntando-se aos trabalhadores e sondando o ambiente. No fim de contas, capatazes e trabalhadores eram todos companheiros. O capataz não passava de um camponês escolhido pelo patrão para assumir certas responsabilidades, entre elas precisamente a de ir à “praça”, aos Domingos, arranjar o pessoal necessário para os trabalhos a decorrerem na semana contígua. Outras eram velar por que o trabalho fosse bem feito, não deixar o trabalhador descuidar-se na execução das suas tarefas, dar a ordem de pegar e despegar, de manhã, às horas das refeições e à noite. Tudo isso, mesmo quando tinha de emparceirar ao lado dos companheiros, fazendo o mesmo trabalho, o que era de norma quando aqueles não excedessem um certo número. Não estou certo de qual era esse número, e nem sei se esse número era igual para todos os capatazes. Creio, no entanto, que andaria entre oito ou dez trabalhadores.
O capataz, enquanto tal, fazia parte da categoria dos criados, que eram aqueles cujas ocupações se não podiam regular pelo horário dos restantes camponeses (abegões, maiorais, guardadores de gado, guardas das propriedades, hortelãos, boieiros, cocheiros, etc.) e cuja remuneração era constituída, mensalmente, por uma parte em dinheiro e outra em bens de consumo, a chamada comedoria: tanto de feijão, tanto de azeite, tanto de milho, além, nalguns casos, de uma manta e de um par de sapatos anualmente ou de dois em dois anos.
Na “praça”, com todos a postos (trabalhadores e capatazes), chegava então a hora das negociações, com cenários algo diferentes consoante a ocasião fosse de oferta maior que a procura ou vice-versa, o que muito tinha a ver com a época do ano em que se estivesse: pouco trabalho e salários mais baixos nos meses de inverno, com o campo, entre a margem direita do Tejo e a esquerda do Alviela, inundado às vezes durante semanas; muito trabalho e melhores salários no resto do ano.
No primeiro caso, o assunto resolvia-se rapidamente. Os capatazes juntavam os seus homens, primeiro, e as suas mulheres, depois, à sua volta, lançavam o preço da jorna para a semana que se seguia, x para os homens, metade disso ou pouco mais para as raparigas, e assunto arrumado, cada grupo a caminho da adega do respectivo patrão para o fecho do contrato, que é como quem diz, para o recebimento da melhadura, que, como já disse, os homens consumiam logo ali e as raparigas levavam para casa, em geral em garrafas de refrigerantes.
No segundo caso (procura maior que a oferta), a história era outra, especialmente quando chegava a altura dos patrões-seareiros engrossarem a procura. O pessoal era então disputado. E, naturalmente, tirava partido disso. Cada empregador ia tentando organizar o seu rancho e lançando a sua oferta de salário... e o pessoal fazendo finca-pé.
Era a altura em que os novatos arranjavam pela primeira vez quem lhes pagasse “o preço dos homens”, e que “homens” ficavam daí para diante. Assim como era a altura em que os de mais idade arranjavam pela última vez quem os aceitasse por esse mesmo preço, tornando-se depois, uma boa parte deles, mendigos ou dependentes dos filhos (um mês em casa deste; outro mês em casa daquele... e voltando ao princípio), que nem para eles tinham que chegasse.
O pessoal, reunindo e trocando impressões, ia então fazendo finca-pé... e o tempo passando... e as ofertas subindo. Até que, com uma ou outra excepção, se chegava a acordo, às vezes já noite adentro. E as excepções era não se chegar a acordo. Uma ou duas vezes me lembro disso ter acontecido, voltando todos à “praça” na segunda-feira de manhã, numa tentativa de se resolver o assunto ainda antes da hora de pegar ao trabalho, que na segunda-feira era às 10 horas, com o almoço já tomado.
De um Domingo me lembro eu em que a jorna deu um salto como, suponho, nunca antes teria acontecido.
Andava eu a trabalhar para os Menezes (Menezes e Irmão) como “criado dos mandados”, uma espécie de pau para toda a obra que ocupei durante 15 meses e sobre que noutra parte destas minhas “Memórias” certamente me debruçarei com mais pormenor. Tinha 13 ou 14 anos. Estávamos, pelas minhas contas, em 1942, naquela altura do ano em que a procura, na “praça”, atinge o auge, com os patrões-seareiros a chegarem em força.
A “praça” era então junto à taverna das Motas e eu tinha acabado de largar o serviço, porque ao Domingo saía ao meio da tarde. E foi assim que, passando pela “praça”, pude dar-me conta que a jorna tinha acabado de atingir, para os homens, 20$00 (20 escudos), quando, na semana anterior, a jorna fora de 7$00. E ficou pelos 20$00, o que já não posso afirmar é se esse foi o preço dos seareiros, se o dos lavradores, que, normalmente, ficava um ou dois escudos abaixo.
Nas épocas de aperto (chamemos-lhe assim) imediatamente anteriores, com certeza que a jorna tinha já chegado acima dos 7$00, mas nada que se parecesse com os 20$00, para os quais os 7$00 haviam acabado de dar agora um salto de praticamente o triplo. Nesse Domingo deve ter-se bebido algum copito mais do que habitualmente, nem que fosse fiado.

Sexta-feira, 25 de Janeiro de 2008

O Azeite

O azeite era outro produto obtido através do rabisco. Trabalho das mulheres casadas, das viúvas e da miudagem. Como no rabisco do trigo. Como no amanho das searas. Como em tudo.
Começava-se pelo carocinho. Era a azeitona ainda muito verde, pequena, mas que já dava azeite. Os donos de alguns lagares, no Pombalinho e em São Vicente do Paul, faziam saber que já aceitavam a azeitona e quanto davam de azeite em troca de uma suta, a medida da azeitona. Foi, de resto, nessas andanças que eu conheci alguns locais onde, de outra maneira, nunca teria posto os pés (descalços...).
A apanha do carocinho (do que ia caindo, claro) era livre. Até que, com a azeitona já a começar a amadurecer e a quantidade de azeite em troca de cada medida a crescer, os proprietários mandavam lavrar um rego à volta dos olivais, sinal de que daí por diante era proibido apanhar azeitona sem o consentimento deles. E para fazer respeitar a proibição, lá estariam os guardas.
O consentimento dos proprietários, geralmente transmitido por algum dos seus servidores mais próximos, não se fazia esperar sempre que já houvesse muita azeitona no chão, o que era mais que certo depois de uma boa chuvada ou de uma boa ventania, quando não das duas coisas ao mesmo tempo. Mas também não era de graça. Para isso, não se justificaria a proibição. Era ao terço: duas partes da azeitona apanhada para o dono do olival, uma para quem a apanhava. Isto, quando o dono não optasse por pôr os seus porcos a comê-la. Era o que às vezes fazia o João d’Assunpção Coimbra, um dos dois, de resto, que, se me não engano, tinham por ali grandes varas. O outro era o Veiga (os dois latifundiários da região, no fim de contas), e o maioral dos seus porcos, naqueles tempos (décadas de 40/50), era exactamente o avô de que o José Saramago tanto fala, e sempre com a maior veneração: o alto e seco, fisicamente falando, Jerónimo, com o qual algumas vezes (poucas) calhou cruzar-me pelos campos e olivais da Azinhaga.
Mas nos intervalos das apanhas consentidas as mulheres e os miúdos não ficavam à espera. Mesmo os olivais maiores não tinham mais que um guarda.
Dos guardas das vinhas se diz que não são eles que as guardam, mas o medo, coisa que, naturalmente, se pode dizer de tudo ou de quase tudo que meta guarda.
Portanto, mesmo fora das apanhas autorizadas e divididas, sempre se ia deitando mão a uns bagos. Até porque sempre havia bagos que se podiam apanhar sem perigo. A maior parte dos olivais confinava por todos os lados com estradas que, não sei lá porquê, ficavam a um nível inferior.
Uma dessas estradas, passando ali por entre olivais e dividindo-os, era conhecida por “a estrada real”. Dizia-me o meu pai que era a estrada por onde antigamente passavam as comitivas reais nas suas deslocações por aquelas bandas.
Ora, as abas das oliveiras que ficavam junto aos valados pendiam para as estradas contíguas, pelo que a azeitona que delas caía ficava aquém dos regos da proibição. E então era ver as mulheres, manhã muito cedo, normalmente em grupos de duas ou três, tentando serem as primeiras a chegar às estradas para onde as abas das oliveiras pendiam, a fim de deitarem a mão à azeitona caída durante a noite. A essa... e a mais alguma, se o guarda não estivesse por ali ao alcance da vista. O que não era isento de risco, sobretudo nos olivais do João d’Assumpção Coimbra, quando ele punha também soldados da Guarda Republicana a vigiar-lhe os olivais. E o pior era que a multa tinha de ir pagar-se a Santarém. Não sei se a mesma poderia ser paga no acto da sua aplicação, mas ainda que assim fosse, isso de nada serviria. Onde é que estava o dinheiro para se poder pagar logo? O que sei é que também calhou uma vez à minha mãe ser apanhada e não perdoada; e que teve de ir pagar-se a multa a Santarém.
Mas, enfim, litro a litro lá se ia enchendo a talha com o azeite trazido dos lagares, em troca da azeitona lá entregue. Em anos de boa produção - e de boa apanha! – chegava a ficar-se com azeite para todo o ano.Tanto da azeitona ainda verde como da madura, acontecia também escolher-se alguma para adoçar. Antes de ser metida na água, a azeitona verde levava uma pancadinha com qualquer peça de madeira que desse para isso, fazendo de maço; a madura levava alguns golpes longitudinalmente. Passadas duas ou três semanas, durante as quais se procedia várias vezes à mudança da água, era mais um conduto de que se dispunha, para alguns dias, sem necessidade de ir comprá-lo à mercearia.

Quinta-feira, 24 de Janeiro de 2008

Rabisco do Trigo

Mas nem só de pão de milho eram as cozeduras das mulheres do Pombalinho. Também as havia de pão de trigo (ou melhor, de pão alvo, que era como lhe chamávamos), preparadas com o trigo que se apanhava no rabisco, um mais dos afazeres das mulheres casadas e, quando os havia e estavam disponíveis, dos filhos pequenos. Mas também aí havia partilha com o dono da seara. Não estou já bem certo, mas creio que era a meias.
Depois do trigo ceifado e transportado para a eira, em paveias, ficavam sempre espigas pelo chão. Os donos, que, como se vê, não desperdiçavam nada, determinavam então um dia para o rabisco. E lá ia o mulherio mais a garotada, manhã muito cedo, para apanharem as espigas ainda amaciadas pelo cacimbo da noite e poder-se, assim, juntá-las em mancheias (as matanas, nome que não encontro nos dicionários) atadas com as próprias hastes, coisa tornada impossível de fazer com as espigas inteiriçadas pelo sol. Além de se tornar desagradável manusear as espigas quando secas. Arranhavam.
Como a quantidade não era grande, o trigo era depois debulhado em casa, à mão. E assim comíamos pão alvo durante duas ou três semanas. Sabia muito melhor que o pão de milho. Pena era que fosse tão pouco.
E aqui não posso deixar de contar um episódio passado com a minha mãe.
O tempo do rabisco do trigo era o tempo em que havia umas noites de luar tão vivo que mal dava para se distinguir a noite do dia. Era em Agosto, e por isso se lhe chamava mesmo o luar de Agosto.
Naquela madrugada havia rabisco numa seara dos Menezes (Meneses & Irmão, que mais tarde acabaram com a Sociedade), pelo que a minha mãe teria de levantar-se ainda mais cedo que de costume, tanto mais que ainda antes de sair de casa teria que deixar o café (assim designávamos o mata-bicho, porque ele consistia na generalidade em café de cevada e chicória com migas) pronto para o marido e para os filhos e o farnel aviado para o meu pai levar para o trabalho. Despertador, não havia, e bom jeito faria em tais ocasiões. Tinha de se confiar na capacidade de acordar na hora pretendida.
Pois bem, a certa altura a minha mãe acordou. E que viu ela? A claridade do dia a entrar já pelo telhado, de telha de canudo e sem forro (isso só nas casas dos mais abastados). Levantou-se, assarapantada, vestiu-se o mais apressadamente que foi capaz, e ala!, aí vai ela... Começou por estranhar um pouco, ao fim de um certo tempo de caminhada, não ver ninguém, mas não havia que olhar para trás. E enfiou pela estrada que da povoação a havia de levar à seara a rabiscar. Dum lado e doutro, sebes, e só sebes, de silvas e de marmeleiros. E o sino da torre da igreja começa a soar. Uma... duas... três... Três marteladas, fortes, desferidas pela maquinaria do relógio da torre. Três horas da manhã, só. E a Ermelinda, só também, fora de casa, àquela hora, no meio da Estrada do Bornel, uma estrada tenebrosa!...
Coitada da Ermelinda!

Quarta-feira, 23 de Janeiro de 2008

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Guilherme Afonso, é bem o exemplo dos que deixando pelo caminho da vida as suas origens, nunca permitiu que o tempo e a distância interviessem no apagamento das suas memórias. E se sem ela, jamais poderemos compreender os tempos presentes, percorremos então estas belas ilustrações escritas do nosso Amigo Guilherme e com toda a certeza ficaremos perfumadamente mais próximos das tristezas, amarguras mas também alegrias de muita gente do Pombalinho a que só a memória da alma nos permite reviver!