Mostrar mensagens com a etiqueta guilherme afonso. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta guilherme afonso. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

A propósito de Júlio da Silva Freire...


... E isto me traz mais uma vez à mente, como não poderia deixar de ser, o Júlio da Silva Freire, que eu penso ter sido uma das mais ilustres figuras do nosso Pombalinho de todos os tempos. É verdade que mal me lembro dele, porque era ainda muito miúdo quando ele faleceu. Mas lembro-me perfeitamente de ter ouvido dizer que ele foi o Maestro de uma banda musical que o Pombalinho teve.

Lembro-me também de uma aurora boreal vista no Pombalinho (teria eu 6 ou 7 anos) que deixou toda a gente assustada, até que o Júlio Freire (pai) explicou o que aquilo era, tranquilizando a população. Sei que a certa altura se dedicou, gratuitamente, a ensinar um grupo de camponeses, do qual o meu pai fez parte, a ler e a escrever. O meu pai só aprendeu a ler letra impressa e a fazer, com dificuldade, o nome dele, mas penso que o Júlio Freire ensinava a ler e a escrever. Penso é que os estudantes a certa altura se teriam visto na necessidade de deixar o ensino devido à chegada dos dias maiores, em que, trabalhando de sol a sol, chegavam a casa exaustos e precisados de ir para a cama o mais cedo possível, a fim de recuperarem forças para o dia seguinte.


... O Júlio da Silva Freire era ateu (ou seria agnóstico?) e que quando estava próximo do fim, de cama, teria dito: "valha-me aquele que dizem que é Deus".



terça-feira, 10 de junho de 2008

Um Gigante


Está ali naquela cama. É o último da esquerda, cama 10.
Nas partes descobertas - o rosto, as mãos e os pés - a sua pele mostra uma tonalidade achocolatada
Se lhe perguntam o que tem, mostra os pés inchados e fala no coração. Pés grandes, enormes. Coisa para calçado número 44 ou 45. O coração não é coisa que se possa ver, mas quem o conhece sabe que ele tem um coração que abarca o Mundo. Foi da Guarda Republicana. Saiu, porque, como dizia, não nascera para aquilo.

Viu morrer-lhe uma filha de 18 anos, a Carolina, e resistiu. Tinha mais filhos. Tinha mulher. E amigos!... Ainda era preciso viver. Viu morrer-lhe um filho de 24 anos, o João, e continuou a resistir. Viu adoecer-lhe a mulher, penar anos e anos, morrer. E resistiu. Os outros filhos davam-lhe uma razão para isso. E, enfim, os amigos.
Está ali naquela enfermaria, numa cama de ferro com lençóis a que falta alvura e uma colcha esfiapada. Uma enfermaria em que a claridade penetra a custo na superfície pouco branca das paredes e do tecto.

Quando terminou o serviço militar, foi para a Guarda Republicana. Mas não gostou daquela vida e voltou para a santa terrinha, para o campo, para a enxada, para o amanho da terra.
Ainda está vivo. Ainda resiste. Até ainda se levanta. Ou melhor, desdobra-se, desenrosca-se, multiplica-se. Por pouco não bate com a cabeça no tecto. Quase o mesmo arcaboiço de quando era um homem novo e são. Nem parece estar doente. A mesma boca e os mesmos dentes. Todos, e sãos. Nem parece ter setenta anos. Há cinco que estaria a viver da reforma, por inteiro, se se tivesse deixado ficar na Guarda Republicana.

-Estou deserto que isto acabe – diz.
Mas a sua voz não tem a ribombância do trovão, seu habitual timbre.
-A minha filha, coitada, com aquela doença, que a não deixa fazer nada; viu-se obrigada a tratar de me meter no Asilo. Mas só por isso, sei-o eu. Tivesse ela saúde, e eu não havia de acabar os meus dias num asilo.
Referia-se à segunda filha, a Rosalina, casada com o Mátempo, da Azinhaga, que toda a gente diz ser muito bom para ela, um santo. Um casal ainda tão jovem, e caíra-lhes aquela desgraça em cima.
-E o teu filho – lembra-lhe o visitante.
-O meu filho?... Ah... o meu filho... Não quer saber de mim. E o que eu fiz por ele!... É triste, esta vida.
-Mas há sempre os amigos... – riposta o visitante, procurando levar algum ânimo ao doente.
-Ah... Os amigos? Estive aqui dois meses antes de ir para o Asilo. Quando vim para o Asilo estive aqui outra vez.
Arrasta as palavras até se tornarem imperceptíveis. Cala-se, até ganhar novas forças.
-Estive mês e meio no Asilo, e agora já estou outra vez aqui na enfermaria há mais de quinze dias. Amigos!... Só quando podia andar a consolar os desgostos da sua vida com os meus desgostos. Só quando para me manifestarem a sua piedade não era preciso irem muito longe. Só quando os podia acompanhar à taverna ou mesmo na minha miséria ainda tinha alguma coisa para repartir com eles. Agora?... Amigos!... É triste, esta vida... É infame, esta pobreza... É selvagem, isto tudo... Amigos... Hospitais... Asilos...
Já nada o prende. É mesmo caso para dizer: quem o viu e quem o vê!
Já não resiste, propriamente. Subsiste.
Já não vive. Sobrevive.
Sobrevive com pastilhas, comprimidos e drageias.
Pastilhas para o coração. Drageias para urinar. Comprimidos para outra coisa qualquer. De tempos a tempos também uma injecção, graças, tudo, aos cuidados de um médico que visita os doentes de três em três dias. Isso e, naturalmente, a alimentação. Primeiro prato: arroz, sempre arroz, com caldo a saber a carne. Segundo prato: ora arroz, ora massa, muito raramente batatas, umas vezes com um pedaço de carne de carneiro, outras com uns fios de carne da mesma rês.

Está ali naquela enfermaria. Chama-se Augusto Anastácio... Um nome que não terá o privilégio de se eternizar. É um irmão, sem dúvida, mas não eterno, como aqueles cujos nomes figuram numa lápide à entrada do Hospital, este com um nome eterno mais que todos, porque de Cristo chamado.
E não terá (ele, o Augusto Anastácio) o nome na lápide do Hospital, porque não o ajudou a construir, nem a manter.
Rachou lenha; semeou, sachou, colheu e malhou ou meteu na alimentadora da debulhadora o feijão, o milho, o trigo; tratou das oliveiras e carregou com seiras cheias do bagaço a que foi extraído o azeite, nos lagares; cavou e pulverizou nas vinhas e fez o vinho nas adegas; pastou gado e esquartejou reses. Dos seus braços saiu tudo, enfim, quanto encheu os sacos dos irmãos eternos que desfilaram pelos cortejos de oferendas para o Hospital de Cristo. O mesmo que outros fazem agora para que não lhe falte ali o caldo de arroz com sabor a carneiro todos os dias ao almoça e ao jantar, nem o prato ora de arroz ora de massa, raramente de batatas, com uma amostra da mesma rês, alternadamente num naco ou desfiada, o que lhes dará o mérito de, mais tarde ou mais cedo, terem o seu nome inscrito na lápide afixada à entrada do Hospital.
Vêem-no ali?
Podia estar a receber uma reforma e ter, a troco dela, quem cuidasse dele nos dias que lhe restam de vida. Podia, porque foi soldado da Guarda Nacional Republicana. Podia, se não lhe faltasse o feitio para aquilo. Intrometer-se com este, intrometer-se com aquele, multar os pobres que andavam a fossar pela vida só porque uma farda lhe dava o direito a isso e um cavalo e uma espada o punham ao abrigo de desagravos, constituía para si um martírio constante.
Era assim... que fazer?!...
Sempre que tinha, por dever de ofício, de intervir com alguém, sentia-se mal.
Ele, que por uma justa causa era homem para os maiores cometimentos sem outra arma para a luta que não fossem os seus dotes naturais: um metro e noventa de altura, tronco largo, mãos sapudas e pés com lastro para se firmarem bem na terra. Dimensões de gigante que lhe emprestavam aos movimentos a aparência de retardados, com um simiesco baloiçar de braços e passadas de pato marreco.
   
Até certa altura foi um homem quase feliz, como quase todos os outros homens até que lhes não aconteça nada de especial na vida.
Cresceu atrás dos porcos e das ovelhas, passou aos trabalhos dos homens com 13 anos, vestiu o seu primeiro fato completo (calça, colete e jaqueta), de serrubeque, no dia em que foi à inspecção para o serviço militar. Foi à tropa, casou, vieram os filhos, etc., etc..
E passou pela Guarda Republicana. Mas não gostou. Porque queria ser senhor de si, não ter satisfações a dar a ninguém durante algumas horas por dia, e nos dias inteiros em que não tivesse trabalho ou fosse Domingo ou feriado. Porque queria ir para onde muito bem lhe apetecesse, quando muito bem lhe aprouvesse.
Por isso não quis nunca, também, ajustar-se ao ano. Nem hortelão, nem guarda de coisa nenhuma, nem maioral de nada. Nem capataz, nem abegão, por muitas honras, e às vezes proveito, que tais cargos costumavam trazer.
Está ali, naquela cama de hospital. Um herói sem estátua, sem o nome em qualquer lápide; um herói que, como tantos outros seus iguais, nunca constará de qualquer efeméride.


Nota - Infelizmente, algumas vezes me esqueci de datar o que ia escrevendo. E foi o que aconteceu neste caso. E agora, ao “resgatar” dos meus arquivos, tantos anos passados, este apontamento suscitado por uma visita que fiz, com o meu pai, ao Augusto Anastácio, estava ele então internado no Hospital de Santarém, já não posso sequer precisar se isso ocorreu em 1964 ou em 1977, as duas primeiras vezes (com um intervalo, por conseguinte, de 13 anos) em que estive em Portugal, depois de ter vindo para Moçambique. Considerando, porém, vários aspectos, como, por exemplo, a idade com que, mais ou menos, faleceram a Carolina e o João Anastácio e a idade que eu então tinha, sou levado a supor que o Augusto Anastácio seria um bocado mais velho que o meu pai. Daí, e também dada a referência à sua idade nesta minha narrativa como sendo então de 70 anos, ser também levado a pensar que a mencionada visita teria ocorrido em 1964. Terá sido?...


Maputo, 25 de Maio de 2008



quarta-feira, 21 de maio de 2008

Dá alguma coisa ao necessitado?


Tinha eu entre 9 e 12 anos. Finais, portanto, da década de trinta e princípios da década de quarenta. Numa população de cerca de mil habitantes que a minha aldeia teria nessa altura, a maioria era, como em qualquer outro lado, gente pobre. Os ricos eram meia dúzia de famílias. Mais meia dúzia de famílias, os remediados. Entre os pobres havia também uma certa diferenciação. Verificava-se ela entre os que tinham um ofício e os que o não tinham, porque não se chamava ofício, nem chama, ainda hoje, ao manejo da enxada, da pá, da forquilha, do machado, do serrote, da tesoura de poda, etc. Ofício tinham os pedreiros, carpinteiros, serralheiros, geralmente trabalhando por conta de outros e já com as oito horas de trabalho conquistadas, e os alfaiates, barbeiros, sapateiros, ferradores, ferreiros, tanoeiros, marceneiros, em geral com o seu estabelecimento próprio e trabalhando por encomenda. Estes não tinham horário de trabalho. Trabalhavam mais ou menos horas, se necessário até aos Domingos, consoante as encomendas. Os barbeiros, aliás, tinham a barbearia aberta aos Domingos, porque esse era um dos dias em que tinham mais clientes, por ser o dia de descanso dos outros. Para os trabalhadores rurais, ou agricultores, como também eram tratados os que trabalhavam na agricultura, o seu horário era de sol a sol, o que significa que iniciavam a jornada de trabalho quando o Sol despontava e só despegavam com o Sol já escondido (Sol posto). Fosse qual fosse a distância a que ficasse o local de trabalho. Para descanso e refeições havia uma hora, das 10 às 11 (almoço), enquanto que para o jantar havia 1 hora (das 14 às 15) durante uma parte do ano (nos dias mais pequenos) e 2 horas (das 14 às 16) durante o resto do ano. Como antes de sair para o trabalho toda a gente tomava a primeira refeição (para a maior parte, e a maior parte das vezes, constituída por café de cevada e chicória com migas) e à noite, no regresso a casa, se tomava mais uma refeição (a ceia), as refeições eram, por conseguinte, quatro por dia.

Tudo isto para chegar aos mais pobres de entre os pobres, aqueles que, além dos salários de miséria, viam as suas dificuldades acrescidas por doenças, particularmente pela tuberculose. Procedia-se então a peditórios de porta a porta, o que tinha de ser feito, já se vê, aos Domingos ou feriados. Para isso era preciso que alguém se disponibilizasse para o efeito. Normalmente duas pessoas. Uma que pedia, outra que escrevia o nome de cada contribuinte e a respectiva dádiva. Sempre aparecia alguém, e muitas vezes eram os próprios que iam de porta em porta, que, para ajudar um companheiro, tomavam a iniciativa.

O Augusto Anastácio era um desses. Ele e os meus pais eram compadres, porque os meus pais haviam sido os padrinhos de duas filhas dele. Eu também o tratava por compadre. Pois bem, de cada vez que o Augusto Anastácio, analfabeto, como a quase totalidade dos camponeses com mais de vinte e cinco ou trinta anos naquela altura (e ele já tinha mais de quarenta) – de cada vez que o Augusto Anastácio, dizia eu, pensava fazer um peditório para algum companheiro em maiores dificuldades, logo pensava em mim para o acompanhar, a fim de registar os que davam e quanto davam.

E lá íamos então, eu e ele, bater a todas as portas:

- Dá alguma coisa ao necessitado?

- Quem é o necessitado?
Dada a resposta, lá vinha, ou não vinha, a contribuição. Mas eram poucos os que não davam. Nalguns casos, por simplesmente não terem mesmo nada para dar. Com dádiva ou sem ela, havia sempre uma palavra de quem quer que atendesse. Em geral de consternação pela situação do conterrâneo caído em desgraça. Em geral... porque também acontecia ouvirem-se comentários depreciativos, críticas. Ou porque o necessitado ia gastá-lo em vinho, ou porque tinha chegado ao que chegara por falta de cabeça, ou porque mais necessitado sou eu, etc.

- Dá alguma coisa ao necessitado?

E lá íamos recolhendo cinquenta centavos daqui, um escudo dali, umas moeditas de vinte e cinco tostões ou de cinco escudos às portas dos ricos e dos remediados. Era num tempo em que a jorna do camponês variava entre uns seis ou sete escudos, nos dias mais pequenos (Outono, Inverno) e dez, onze ou doze nos dias maiores.

Lembro-me que, pelo menos uma vez, fomos também ao Reguengo do Alviela, que era a terra da minha mãe, um pequeno lugar a cerca de dois quilómetros do Pombalinho. Por atalhos. Por estrada era um bocado mais. Suponho que o fizemos porque o necessitado desse dia, embora morasse no Pombalinho, era do Reguengo.

Completado o peditório, lá nos dirigíamos para casa do necessitado, onde apresentávamos o valor recebido e a relação com os nomes dos que haviam contribuído, e onde se petiscava qualquer coisa, com um copito de vinho a acompanhar. Petisco e copito comprados, pelo menos na maior parte dos casos, depois de chegarmos, já com dinheiro do peditório.


-Dá alguma coisa ao necessitado?


sábado, 19 de abril de 2008

Saramagos e cangarrinhas


Do saramago, que consta nos dicionários dos vários autores e editoras que consultei, dizem os mesmos, resumindo, que se trata de uma planta comestível; e da cangarinha, que não consta de todos aqueles dicionários, que se trata de um cardo frequente em Portugal, também conhecido por cardo-de-ouro.

Ora, no Pombalinho, tão comestível era o saramago como a cangarinha. Isto, se cangarinha, segundo os dicionários, é a mesma planta, e tudo me leva a crer que sim, a que no Pombalinho, provavelmente por corruptela, chamávamos cagarrinha.   certo é que tanto um como a outra vinham em boa altura, porque vinham no tempo em que o dinheiro era ainda mais escasso que no resto do ano. Ou seja: vinham no inverno, quando, não só por causa das cheias, mas também por essa ser, já de si, uma época em que a actividade agrícola abrandava, muitos camponeses às vezes ficavam semanas sem trabalho.

Deitava-se então mão ao saramago e à cangarinha, que despontavam sobretudo nas terras semeadas de trigo. Os proprietários não se opunham. Tratando-se de ervas daninhas, até lhes dava jeito. Já ficava menos erva para mondar, mais um trabalho que eu fiz, tinha doze ou treze anos, metido num rancho de mulheres. Hoje, com os herbicidas, já não há mondas, naturalmente. E saramagos? E cangarinhas? Ainda haverá? No prato dos pobres, pelo menos, o mais certo é já não haver. Pobres que, de resto, e falando dos da minha terra em particular, são hoje, e ainda bem que assim é, muito menos pobres, Quanto mais não seja devido à assistência social de que actualmente fruem e que naqueles tempos, com excepção de consulta médica duas ou três vezes por semana, na Casa do Povo, para os sócios e familiares de si dependentes, era igual a zero. Note-se que como sócios da Casa do Povo só eram admitidos os trabalhadores rurais, terminologia oficial, ao tempo, para os mais vulgarmente chamados trabalhadores do campo, e que a quota mensal era de 3$00 (três escudos). Significa isso que os operários não eram aceites como sócios, não beneficiando, por conseguinte, da referida assistência médica.

Os saramagos substituíam as couves e os nabos. Muito simples, portanto. As cangarinhas não substituíam nada, acho eu. Como dizem os dicionários, trata-se de um cardo. E os cardos têm espinhos. Mesmo sendo de ouro, como, segundo ainda os dicionários, se chama a este. Por isso, ripava-se a nervura central das folhas, a qual era depois cortada em bocadinhos e cozida com feijão branco e chispe ou orelha de porco. Fazia um belo prato. Só que um bocado mais caro, por causa da carne. Por isso, e creio que também por ser precisa muita cangarinha para uma só refeição, comia-se muito menos vezes cangarinhas que saramagos.

Falando em saramagos, não pode deixar de vir à baila a história do José Saramago. Como ele próprio tem dado a conhecer, Saramago era alcunha da família paterna, tendo passado, nele, por lapso do empregado do registo civil que tratou do seu registo de nascimento, a apelido. Os restantes Saramagos da Azinhaga continuaram a sê-lo por alcunha e, muito provavelmente, a passarem a alcunha aos filhos.


O mais interessante, porém, e por isso este intróito a propósito da família Saramago, é que também havia, na Azinhaga, pelo menos um Cagarrinha (neste caso mantenho a corruptela, já que era assim mesmo que chamávamos àquele companheiro). Sim, companheiro, o Cagarrinha, tanto como um dos Saramagos, o João, salvo erro. Companheiros, umas vezes, e outras adversários. Com efeito, houve um tempo em que jogámos os três na mesma equipa de futebol, a da Azinhaga, num campeonato da FNAT ( Fundação Nacional para a Alegria no Trabalho). Como o Pombalinho não tinha uma equipa de futebol devidamente organizada e oficializada, e por isso não estava em condições de entrar fosse em que campeonato fosse, quando a Azinhaga entrou no tal campeonato da FNAT e o Augusto Souto Barreiros me convidou para ir jogar pela Azinhaga, eu fui. Eu, mais os irmãos António e José Leal, o António Maria Duarte, filho da Isaura (havia outro António Maria Duarte, dois ou três anos mais novo e filho do Izidoro Duarte “Sapateiro”) e o Manuel “Barão” (Manuel António Correia Bento). Mas muito mais vezes fomos adversários. Fomo-lo nos jogos que desde adolescentes combinávamos, os do Pombalinho e os da Azinhaga, e em que eu jogava pela minha terra e eles pela sua. E que, sem balizas a sério e sem árbitro nem juízes de linha, raramente chegavam ao fim, por desentendimento nas faltas e na validação dos golos.


quarta-feira, 16 de abril de 2008

A casa, o gado e a criação


As casas das famílias camponesas eram casas térreas, geralmente com duas divisões: cozinha e casa de fora. Uma ou outra tinha a casa de fora dividida, dispondo, assim, também de um quarto. Algumas famílias tinham casa própria; as restantes viviam em casa alugada. E toda a casa tinha o seu quintal, no qual se criavam galinhas e coelhos (mais coelhas que coelhos), um porco ou uma porca, às vezes um carneiro ou uma ovelha, e se tinha uma cabra.
Com as galinhas havia sempre um galo, pelo menos, para as galar. E com as coelhas, um coelho, para as cobrir. O objectivo era a produção de ovos e de carne, de que uma parte se consumia em casa: os ovos sempre que os houvesse e a carne nos dias de rancho melhorado (Domingos e feriados). A outra parte, menor no caso dos ovos e maior no caso de galinhas e coelhos, era vendida aos compradores que de carroça percorriam as aldeias a comprar tudo isso, para, pelo menos no caso do Pombalinho e aldeias próximas, abastecerem o mercado de Lisboa, para onde tudo era despachado em canastras, via caminhos de ferro. Tanto no caso dos galináceos como no dos coelhos, de cada nova ninhada os machos eram vendidos ou consumidos em casa logo que atingissem tamanho para isso, visto não darem qualquer outro rendimento. No caso dos coelhos fazia-se ainda algum dinheiro com as peles, vendidas aos mesmos compradores ou a ferros-velhos também ambulantes.

No Pombalinho havia um desses compradores, o Francisco Duarte, por todos mais conhecido por Chico Pardal, que também era barbeiro e bom actor cómico e que uma vez por semana, em dia certo, dava a volta à aldeia fazendo o seu pregão. Mas também por ali passavam, de vez em quando, não sei se igualmente em dias certos, um comprador de Vale de Figueira e outro do Sobral (São Vicente do Paul). Quanto a ferros-velhos, passou durante algum tempo pelo Pombalinho, de bicicleta, um de Alcorochel (Torres Novas), chamado José Moita. Deste lembro-me o nome porque mais tarde trabalhámos juntos no forno do Alviela.

Falando de galos, também posso falar de capões, que são galos castrados, ou melhor, capados, que era o termo que, naquele tempo e por aqueles lugares, eu e toda a gente conhecia e usava. Não sei se ainda se capam galos em algum lugar do mundo, mas é coisa que já se fez. Era eu miúdo, vi um capão (um galo enorme!) no Reguengo do Alviela e conheci o capador, então já um velhote. Quanto ao porco, de tempos a tempos passava alguém pela aldeia a vender bácoros. Comprava-se um, que ia para a pocilga e, passadas algumas semanas, mandava-se capar, para melhor encorpar. Com os testículos, bem assados e devidamente temperados, fazia-se um belo pitéu.

Diz-se que o porco come de tudo. Se assim não é, muito longe disso não andará. A esses porcos criados em casa dava-se, consoante a sua fase de crescimento e a época do ano, hortaliça e algumas plantas silvestres, cozidas e misturadas com farelos, bolota, abóbora, bagaço (e já disse que bagaço, no Pombalinho, eram os resíduos da azeitona) e milho. Restos de comida é que não era muito provável dar-lhes, pela simples razão de que seria mais difícil haver sobras de comida do que passar um camelo (ou será mesmo uma corda, como pretendem os exegetas?) pelo cu duma agulha. Quanto ao resto, a hortaliça também não seria muita, porque era preciso comprá-la; os farelos eram os que se obtinham ao peneirar a farinha para as coseduras semanais; as plantas silvestres e a bolota iam apanhar-se onde se soubesse que existiam; o bagaço, relativamente barato, era comprado à porta (a vendedores ambulantes), nalgumas lojas (na do Francisco Borges, por exemplo), ou directamente aos donos dos lagares, que o conservavam em grandes depósitos escavados no chão; a abóbora, aliás da espécie chamada porqueira, e o milho vinham das searas, conforme já foi dito. E dito foi também, na mesma altura, que o milho era dado ao porco quando a sua matança já estava para breve, por ser o que melhor o engordava e, creio eu, também porque dava melhor sabor à carne, assim se juntando o útil ao agradável.

A matança poucos a podiam fazer em casa, para meterem a carne na salgadeira e pendurarem os enchidos no fumeiro. A maior parte tinha de vender o bicho, para liquidar ou pelo menos amortizar a dívida na mercearia. Se a mercearia de onde cada família se abastecia, e onde, portanto, teria a dívida, também vendia carne de porco, era para aí que o animal normalmente ia, vendido à arroba (15 quilos). Se não, ia para outro lado qualquer, mas o dinheiro da sua venda tinha que ir, no todo ou em parte – uma boa parte – para a mercearia em que se tinha a dívida. Caso se quisesse, naturalmente, continuar a poder comprar fiado, na mesma ou noutra qualquer mercearia. Porque numa aldeia tudo se sabe. E sabendo-se, a respeito de alguém, que é caloteiro, o mais certo é acabarem-se-lhe os fiados.
Havia, de resto, famílias nessa situação. Por falta de orientação do chefe da família (por exemplo, ir este frequentemente para a taverna para beber uns copos ou para o jogo do chinquilho ou da bisca, o que também ia dar aos copos, ora a perder, ora a ganhar, e estava quase sempre associado ao hábito do cigarro); por falta de saúde; por falta de trabalho, coisa que podia agravar-se, neste último caso, se o chefe da família tivesse fama de calão. De resto, o mais certo era essas famílias nem porco criarem, por não conseguirem juntar o dinheiro para comprar o bácoro.

Uma cabra, só alguma das famílias que não criava porcos poderia não a ter também, e pelo mesmo motivo. A cabra normalmente comprava-se só uma vez, ainda pequena, também. Era a primeira que se comprava, depois de se constituir família. Acabada de criar, conservava-se, porque a finalidade era obter dela o leite, especialmente para a alimentação das crianças.
Quando chegava o cio, pedia-se a alguém que tivesse um bode, que é como quem diz, a algum lavrador que tivesse rebanho de cabras, para deixar levar a cabra ao seu bode, para a cobrição. Nascidas as crias, estas eram vendidas, geralmente para os talhos da terra. Só quando a primeira cabra já tivesse uns anos se ficava com uma das suas crias, vendendo-se então a mãe.

Um borrego comprava-se depois de marcada a data do casamento de um filho ou de uma filha, coisa habitualmente feita com alguns meses de antecedência, para criar e depois matar para a boda.
Ruminantes e roedores são herbívoros, como se sabe. O que significa que para se alimentar esta bicharada em casa era preciso ir-se à procura de erva e de rama ao campo, quase sempre furtivamente, porque tudo tem dono, e dono só dá quando colhe algum benefício do que dá. Era o caso da desponta do trigo. Havia searas a que convinha despontar o trigo em certa fase do seu crescimento. Não sei porquê, mas suponho que por se apresentar com um crescimento excessivo devido a condições climatéricas demasiado favoráveis. Então os donos tornavam público que quem quisesse ir despontar o trigo na sua seara situada em tal ou tal propriedade podia fazê-lo. Não faltava quem aproveitasse, exactamente para dar aos herbívoros que tinha em casa. E, assim, os proprietários evitavam pagar a quem fizesse o serviço. Lá diz a vox populi: viver não custa; o que custa é saber viver.

Fora isso, que era muito pouco, porque a bicharada tinha de comer todos os dias, pegava-se numa saca e numa foice, para a erva, ou numa corda e num serrote, para a rama, e partia-se para onde parecesse que melhor se poderia conseguir encher a saca ou fazer o molho. Este tornava-se um bocado mais difícil de fazer, porque era preciso trepar às árvores e serrar os ramos, salvo quando se tratasse da rama das oliveiras, porque, destas, o que o gado comia bem eram os rebentos, tenrinhos, nascidos na base dos troncos. As outras árvores cuja rama o gado consumia, e a que tinha mesmo de trepar-se para a colher, eram o choupo, o freixo e o salgueiro, abundantes na região.


Dada a dificuldade para as mulheres em subirem às árvores, maior do que para os homens, como facilmente se compreende, quanto mais não seja porque as mulheres não usavam calças e muitas delas nem cuecas tinha (está a ver-se o embaraço, não?), havia homens que se davam ao cuidado de providenciarem eles pela rama sempre que possível, chegando a irem buscá-la ainda antes de saírem para o trabalho, no qual, como já foi dito, tinha de pegar-se ao nascer do Sol. Outras vezes, era depois da despega – depois já do sol-posto, portanto - que ainda se metiam por algum arvoredo que ficasse no caminho, para cortarem uns ramos e carregá-los para casa.