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quarta-feira, 21 de maio de 2008

Dá alguma coisa ao necessitado?


Tinha eu entre 9 e 12 anos. Finais, portanto, da década de trinta e princípios da década de quarenta. Numa população de cerca de mil habitantes que a minha aldeia teria nessa altura, a maioria era, como em qualquer outro lado, gente pobre. Os ricos eram meia dúzia de famílias. Mais meia dúzia de famílias, os remediados. Entre os pobres havia também uma certa diferenciação. Verificava-se ela entre os que tinham um ofício e os que o não tinham, porque não se chamava ofício, nem chama, ainda hoje, ao manejo da enxada, da pá, da forquilha, do machado, do serrote, da tesoura de poda, etc. Ofício tinham os pedreiros, carpinteiros, serralheiros, geralmente trabalhando por conta de outros e já com as oito horas de trabalho conquistadas, e os alfaiates, barbeiros, sapateiros, ferradores, ferreiros, tanoeiros, marceneiros, em geral com o seu estabelecimento próprio e trabalhando por encomenda. Estes não tinham horário de trabalho. Trabalhavam mais ou menos horas, se necessário até aos Domingos, consoante as encomendas. Os barbeiros, aliás, tinham a barbearia aberta aos Domingos, porque esse era um dos dias em que tinham mais clientes, por ser o dia de descanso dos outros. Para os trabalhadores rurais, ou agricultores, como também eram tratados os que trabalhavam na agricultura, o seu horário era de sol a sol, o que significa que iniciavam a jornada de trabalho quando o Sol despontava e só despegavam com o Sol já escondido (Sol posto). Fosse qual fosse a distância a que ficasse o local de trabalho. Para descanso e refeições havia uma hora, das 10 às 11 (almoço), enquanto que para o jantar havia 1 hora (das 14 às 15) durante uma parte do ano (nos dias mais pequenos) e 2 horas (das 14 às 16) durante o resto do ano. Como antes de sair para o trabalho toda a gente tomava a primeira refeição (para a maior parte, e a maior parte das vezes, constituída por café de cevada e chicória com migas) e à noite, no regresso a casa, se tomava mais uma refeição (a ceia), as refeições eram, por conseguinte, quatro por dia.

Tudo isto para chegar aos mais pobres de entre os pobres, aqueles que, além dos salários de miséria, viam as suas dificuldades acrescidas por doenças, particularmente pela tuberculose. Procedia-se então a peditórios de porta a porta, o que tinha de ser feito, já se vê, aos Domingos ou feriados. Para isso era preciso que alguém se disponibilizasse para o efeito. Normalmente duas pessoas. Uma que pedia, outra que escrevia o nome de cada contribuinte e a respectiva dádiva. Sempre aparecia alguém, e muitas vezes eram os próprios que iam de porta em porta, que, para ajudar um companheiro, tomavam a iniciativa.

O Augusto Anastácio era um desses. Ele e os meus pais eram compadres, porque os meus pais haviam sido os padrinhos de duas filhas dele. Eu também o tratava por compadre. Pois bem, de cada vez que o Augusto Anastácio, analfabeto, como a quase totalidade dos camponeses com mais de vinte e cinco ou trinta anos naquela altura (e ele já tinha mais de quarenta) – de cada vez que o Augusto Anastácio, dizia eu, pensava fazer um peditório para algum companheiro em maiores dificuldades, logo pensava em mim para o acompanhar, a fim de registar os que davam e quanto davam.

E lá íamos então, eu e ele, bater a todas as portas:

- Dá alguma coisa ao necessitado?

- Quem é o necessitado?
Dada a resposta, lá vinha, ou não vinha, a contribuição. Mas eram poucos os que não davam. Nalguns casos, por simplesmente não terem mesmo nada para dar. Com dádiva ou sem ela, havia sempre uma palavra de quem quer que atendesse. Em geral de consternação pela situação do conterrâneo caído em desgraça. Em geral... porque também acontecia ouvirem-se comentários depreciativos, críticas. Ou porque o necessitado ia gastá-lo em vinho, ou porque tinha chegado ao que chegara por falta de cabeça, ou porque mais necessitado sou eu, etc.

- Dá alguma coisa ao necessitado?

E lá íamos recolhendo cinquenta centavos daqui, um escudo dali, umas moeditas de vinte e cinco tostões ou de cinco escudos às portas dos ricos e dos remediados. Era num tempo em que a jorna do camponês variava entre uns seis ou sete escudos, nos dias mais pequenos (Outono, Inverno) e dez, onze ou doze nos dias maiores.

Lembro-me que, pelo menos uma vez, fomos também ao Reguengo do Alviela, que era a terra da minha mãe, um pequeno lugar a cerca de dois quilómetros do Pombalinho. Por atalhos. Por estrada era um bocado mais. Suponho que o fizemos porque o necessitado desse dia, embora morasse no Pombalinho, era do Reguengo.

Completado o peditório, lá nos dirigíamos para casa do necessitado, onde apresentávamos o valor recebido e a relação com os nomes dos que haviam contribuído, e onde se petiscava qualquer coisa, com um copito de vinho a acompanhar. Petisco e copito comprados, pelo menos na maior parte dos casos, depois de chegarmos, já com dinheiro do peditório.


-Dá alguma coisa ao necessitado?


quarta-feira, 16 de abril de 2008

A casa, o gado e a criação


As casas das famílias camponesas eram casas térreas, geralmente com duas divisões: cozinha e casa de fora. Uma ou outra tinha a casa de fora dividida, dispondo, assim, também de um quarto. Algumas famílias tinham casa própria; as restantes viviam em casa alugada. E toda a casa tinha o seu quintal, no qual se criavam galinhas e coelhos (mais coelhas que coelhos), um porco ou uma porca, às vezes um carneiro ou uma ovelha, e se tinha uma cabra.
Com as galinhas havia sempre um galo, pelo menos, para as galar. E com as coelhas, um coelho, para as cobrir. O objectivo era a produção de ovos e de carne, de que uma parte se consumia em casa: os ovos sempre que os houvesse e a carne nos dias de rancho melhorado (Domingos e feriados). A outra parte, menor no caso dos ovos e maior no caso de galinhas e coelhos, era vendida aos compradores que de carroça percorriam as aldeias a comprar tudo isso, para, pelo menos no caso do Pombalinho e aldeias próximas, abastecerem o mercado de Lisboa, para onde tudo era despachado em canastras, via caminhos de ferro. Tanto no caso dos galináceos como no dos coelhos, de cada nova ninhada os machos eram vendidos ou consumidos em casa logo que atingissem tamanho para isso, visto não darem qualquer outro rendimento. No caso dos coelhos fazia-se ainda algum dinheiro com as peles, vendidas aos mesmos compradores ou a ferros-velhos também ambulantes.

No Pombalinho havia um desses compradores, o Francisco Duarte, por todos mais conhecido por Chico Pardal, que também era barbeiro e bom actor cómico e que uma vez por semana, em dia certo, dava a volta à aldeia fazendo o seu pregão. Mas também por ali passavam, de vez em quando, não sei se igualmente em dias certos, um comprador de Vale de Figueira e outro do Sobral (São Vicente do Paul). Quanto a ferros-velhos, passou durante algum tempo pelo Pombalinho, de bicicleta, um de Alcorochel (Torres Novas), chamado José Moita. Deste lembro-me o nome porque mais tarde trabalhámos juntos no forno do Alviela.

Falando de galos, também posso falar de capões, que são galos castrados, ou melhor, capados, que era o termo que, naquele tempo e por aqueles lugares, eu e toda a gente conhecia e usava. Não sei se ainda se capam galos em algum lugar do mundo, mas é coisa que já se fez. Era eu miúdo, vi um capão (um galo enorme!) no Reguengo do Alviela e conheci o capador, então já um velhote. Quanto ao porco, de tempos a tempos passava alguém pela aldeia a vender bácoros. Comprava-se um, que ia para a pocilga e, passadas algumas semanas, mandava-se capar, para melhor encorpar. Com os testículos, bem assados e devidamente temperados, fazia-se um belo pitéu.

Diz-se que o porco come de tudo. Se assim não é, muito longe disso não andará. A esses porcos criados em casa dava-se, consoante a sua fase de crescimento e a época do ano, hortaliça e algumas plantas silvestres, cozidas e misturadas com farelos, bolota, abóbora, bagaço (e já disse que bagaço, no Pombalinho, eram os resíduos da azeitona) e milho. Restos de comida é que não era muito provável dar-lhes, pela simples razão de que seria mais difícil haver sobras de comida do que passar um camelo (ou será mesmo uma corda, como pretendem os exegetas?) pelo cu duma agulha. Quanto ao resto, a hortaliça também não seria muita, porque era preciso comprá-la; os farelos eram os que se obtinham ao peneirar a farinha para as coseduras semanais; as plantas silvestres e a bolota iam apanhar-se onde se soubesse que existiam; o bagaço, relativamente barato, era comprado à porta (a vendedores ambulantes), nalgumas lojas (na do Francisco Borges, por exemplo), ou directamente aos donos dos lagares, que o conservavam em grandes depósitos escavados no chão; a abóbora, aliás da espécie chamada porqueira, e o milho vinham das searas, conforme já foi dito. E dito foi também, na mesma altura, que o milho era dado ao porco quando a sua matança já estava para breve, por ser o que melhor o engordava e, creio eu, também porque dava melhor sabor à carne, assim se juntando o útil ao agradável.

A matança poucos a podiam fazer em casa, para meterem a carne na salgadeira e pendurarem os enchidos no fumeiro. A maior parte tinha de vender o bicho, para liquidar ou pelo menos amortizar a dívida na mercearia. Se a mercearia de onde cada família se abastecia, e onde, portanto, teria a dívida, também vendia carne de porco, era para aí que o animal normalmente ia, vendido à arroba (15 quilos). Se não, ia para outro lado qualquer, mas o dinheiro da sua venda tinha que ir, no todo ou em parte – uma boa parte – para a mercearia em que se tinha a dívida. Caso se quisesse, naturalmente, continuar a poder comprar fiado, na mesma ou noutra qualquer mercearia. Porque numa aldeia tudo se sabe. E sabendo-se, a respeito de alguém, que é caloteiro, o mais certo é acabarem-se-lhe os fiados.
Havia, de resto, famílias nessa situação. Por falta de orientação do chefe da família (por exemplo, ir este frequentemente para a taverna para beber uns copos ou para o jogo do chinquilho ou da bisca, o que também ia dar aos copos, ora a perder, ora a ganhar, e estava quase sempre associado ao hábito do cigarro); por falta de saúde; por falta de trabalho, coisa que podia agravar-se, neste último caso, se o chefe da família tivesse fama de calão. De resto, o mais certo era essas famílias nem porco criarem, por não conseguirem juntar o dinheiro para comprar o bácoro.

Uma cabra, só alguma das famílias que não criava porcos poderia não a ter também, e pelo mesmo motivo. A cabra normalmente comprava-se só uma vez, ainda pequena, também. Era a primeira que se comprava, depois de se constituir família. Acabada de criar, conservava-se, porque a finalidade era obter dela o leite, especialmente para a alimentação das crianças.
Quando chegava o cio, pedia-se a alguém que tivesse um bode, que é como quem diz, a algum lavrador que tivesse rebanho de cabras, para deixar levar a cabra ao seu bode, para a cobrição. Nascidas as crias, estas eram vendidas, geralmente para os talhos da terra. Só quando a primeira cabra já tivesse uns anos se ficava com uma das suas crias, vendendo-se então a mãe.

Um borrego comprava-se depois de marcada a data do casamento de um filho ou de uma filha, coisa habitualmente feita com alguns meses de antecedência, para criar e depois matar para a boda.
Ruminantes e roedores são herbívoros, como se sabe. O que significa que para se alimentar esta bicharada em casa era preciso ir-se à procura de erva e de rama ao campo, quase sempre furtivamente, porque tudo tem dono, e dono só dá quando colhe algum benefício do que dá. Era o caso da desponta do trigo. Havia searas a que convinha despontar o trigo em certa fase do seu crescimento. Não sei porquê, mas suponho que por se apresentar com um crescimento excessivo devido a condições climatéricas demasiado favoráveis. Então os donos tornavam público que quem quisesse ir despontar o trigo na sua seara situada em tal ou tal propriedade podia fazê-lo. Não faltava quem aproveitasse, exactamente para dar aos herbívoros que tinha em casa. E, assim, os proprietários evitavam pagar a quem fizesse o serviço. Lá diz a vox populi: viver não custa; o que custa é saber viver.

Fora isso, que era muito pouco, porque a bicharada tinha de comer todos os dias, pegava-se numa saca e numa foice, para a erva, ou numa corda e num serrote, para a rama, e partia-se para onde parecesse que melhor se poderia conseguir encher a saca ou fazer o molho. Este tornava-se um bocado mais difícil de fazer, porque era preciso trepar às árvores e serrar os ramos, salvo quando se tratasse da rama das oliveiras, porque, destas, o que o gado comia bem eram os rebentos, tenrinhos, nascidos na base dos troncos. As outras árvores cuja rama o gado consumia, e a que tinha mesmo de trepar-se para a colher, eram o choupo, o freixo e o salgueiro, abundantes na região.


Dada a dificuldade para as mulheres em subirem às árvores, maior do que para os homens, como facilmente se compreende, quanto mais não seja porque as mulheres não usavam calças e muitas delas nem cuecas tinha (está a ver-se o embaraço, não?), havia homens que se davam ao cuidado de providenciarem eles pela rama sempre que possível, chegando a irem buscá-la ainda antes de saírem para o trabalho, no qual, como já foi dito, tinha de pegar-se ao nascer do Sol. Outras vezes, era depois da despega – depois já do sol-posto, portanto - que ainda se metiam por algum arvoredo que ficasse no caminho, para cortarem uns ramos e carregá-los para casa.


terça-feira, 25 de março de 2008

Trabalho na Adega


E também trabalhei numa adega, em 1949, no ano imediatamente anterior, portanto, ao do meu alistamento no serviço militar.  Foi na Adega Nova, a maior do Pombalinho. Era a adega das Meiras, de Alpiarça. Tinham uma grande vinha no Reguengo do Alviela e as uvas eram transportadas pelo José Leal, na sua camioneta de aluguer, da vinha para a adega. Passava pela rua em que eu morei até aos 16 ou 17 anos (Rua Carolina Infante da Câmara) e nunca vi aquelas uvas terem sido transportadas de outra maneira.

Quando era miúdo, algumas vezes roubei uvas da camioneta, com outros miúdos. Deve, com certeza, ter sido uma prática de todas as gerações de miúdos das proximidades. Aproveitávamos uma curva muito apertada que a camioneta tinha que dar ao entrar no Pombalinho, carregada, e duas acácias plantadas ali mesmo à beira da curva, atrás das quais nos escondíamos à espera que a camioneta nela entrasse. Corríamos então para a camioneta, pela parte de trás, trepávamos, agarrados aos taipais e, com os pés em cima do pára-choques, deitávamos as mãos aos cachos que enchiam, até bem ao cimo, dois grandes recipientes metálicos (tinas) ajustados às dimensões da carroçaria, e toca a pirarmo-nos.

A vindima das Meiras levava cerca de um mês, feita por um rancho de uma trintena de raparigas. E um rancho de outros tantos homens (mais homem, menos homem) levava o mesmo tempo a fazer vinho na Adega Nova. O que quer dizer que pisei muita uva; fiz muita força agarrado às alavancas das prensas para se espremer até à última gota o mosto que as uvas ainda tinham para deitar; carreguei aos ombros muito cesto bem cheio de engaço, e bem pesado, dos patamares para depósitos cavados no chão, de onde haveria de ser depois levado para o alambique, para dele se extrair a boa bagaceira.

Além do vinho, nas adegas também se fazia sempre, e continua a fazer, pelo que sei, alguma água-pé, bebida de baixo teor alcoólico cujas pipas se abrem pelo São Martinho, em Novembro, consumindo-se a água-pé sobretudo no inverno, quando, fresquinha, e ao ser servida como deve ser, se vêem bolhinhas a subir por ela acima. Agora, que eu sei o que é champanhe, não me parece descabido chamar à água-pé o champanhe dos pobres.
Para fazer a água-pé, espalha-se no patamar, antes de ser exprimido até ao fim, o engaço que esteja a ser prensado, espalha-se-lhe alguma água por cima, mistura-se bem, e volta a ser prensado.
Saiba-se que, tanto na adega como no lagar, o horário de trabalho não era o habitual de sol a sol. Pela especificidade dos procedimentos inerentes ao fabrico do vinho e do azeite, tinha normalmente de entrar-se a trabalhar pela noite dentro. Mas o salário era o ajustado no início, contando-se já com essa especificidade. Quer dizer, não havia horas extraordinárias.

Num dicionário consultado (“Dicionários Editora da Língua Portuguesa”, da Porto Editora Multimédia), adega é a “parte de uma casa em que se guarda o vinho ou o azeite e outras provisões”, e lagar é, numa das suas acepções, “casa com aparelhagem para se fazer vinho ou azeite”, ou seja, adega e lagar são igualmente aplicáveis no que diz respeito ao vinho e ao azeite. 
Sucede o mesmo em relação a bagaço (“resíduo de alguns frutos, caules ou colmos, depois de pisados e espremidos, como o de uva, o de azeitona, e de cana-de-açúcar, etc.”), mas já em relação a engaço, uma das suas acepções, aquela que para aqui nos interessa, o define como “parte que fica do cacho de uvas depois de esbagoado”, se bem que no mesmo dicionário bagaceira tenha como definição “aguardente do bagaço de uva” (o sublinhado é meu). Noutros dicionários consultados, não encontrei diferenças dignas de nota.


Pois bem, no Pombalinho, adega é a casa onde se faz e se guarda o vinho; lagar é - embora, pelas razões atrás aduzidas, hoje certamente já só como conceito - a casa onde se faz e se guarda o azeite; bagaço são os resíduos da azeitona, e engaço os resíduos dos cachos de uvas. O que leva a uma conclusão: é a sabedoria do povo a fazer uso da semântica, para claramente se entender.